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Homenagem - Viver a Literatura

O que é viver a Literatura?
Só escrever? Simplesmente ler, comprar, trocar e vender livros?
Não. É estar no meio de gente que gosta de literatura. É semear o amor por ela. E deixar-se ser contagiado por ela.
É falar a respeito com paixão, escrever sobre o que faz sentido para si, e falar a respeito disso com quem estiver disposto a ouvir. E estar pronto para o mesmo, em relação ao outro.
Onde mora a literatura? Nos livros?
Não.
Livros são objetos inanimados.
A literatura mora nas mente de que lê, dando vida a grafia que representa as ideias, sentimentos de alguém.
Mora no coração e na mente das pessoas. Num varal poético, num evento informal, numa conversa de gostos...


***

A Professora Carmelita que leciona matemática na escola Padre Antônio Vieira me ligou há cerca de duas semanas dizendo que seus alunos da 6ª Série teriam de homenagear uma personalidade artística de São José dos Pinhais - PR na Semana Cultural. Ela pensou num escritor e chegou até mim.

"Homenagear? Quem? Eu?"

Mas só estou começando...

A professora disse que queria que eles conhecessem justamente alguém  jovem e eu me senti muito honrada e não só aceitei, como antes do dia da referida homenagem fui até a escola conhecê-los. O encontro virou mais que simplesmente isso. Virou um bate-papo descontraído, uma oficina sobre poesia, principalmente Haicais.

Confesso que fui com certo receio. Ora, adolescentes... Haveriam de se interessar por minhas sensibilidades poéticas?

Graças a Deus, uma vez mais estive nadando em um medo equivocado.

Claro que adolescentes são muito animados. Como conter tanta energia que ferve a cada minuto em seus corpos e mentes? Com paciência... Porque todos fomos adolescentes um dia. E me lembro bem! Na oitava série também me lembro da visita de um poeta na escola em que estudei. Nós, alunos gostamos tanto que ele voltou lá para dar-nos oficinas de Criação Literária.

Voltando aos adolescente de hoje! Era doce sentir vislumbrar a infância que se despede de suas vidas. 11, 12, 13 anos.

Fiquei emocionada em assisti-los escrever seus próprios Haicais. Em vê-los com os olhos brilhando de curiosidade sobre a poesia, meus romances, o braille, a minha vida.
E sentir na minha própria pele a sede que os alunos têm por aprender algo diferente, algo nunca visto, algo... sensível. Não estou exagerando. A professora é minha testemunha.

Eles gostaram muito. Alguns em, em especial, gostaram ainda mais. Prepararam com ternura a homenagem que voltei ontem para receber.

Depois de um ano inteiro de frio, ontem o dia estava num calor delicioso. Ventava muito, o que refrescava a tarde. Tanto que foi necessário voltear o pátio com lonas; mas mesmo com elas o vento era contido com muito custo.

O aluno que aparece lendo na foto abaixo é o Ivan. O poeta da sala. Não estava no dia que conheci a turma, infelizmente, o que o chateou, segundo a porfessora. Mas tratou logo de cuidar da pesquisa da minha biografia. (!) Acho que nunca conheci um jovem como ele. Todo sério, sensível...

Até escreveu uma poesia para mim!




Declamando os Haicais que a sala escreveu e alguns meus, tem uma aluna que me enterneceu tanto! Ela me respresentou, como fosse eu! E não é que realmente ela se parecia comigo?! Fisicamente e no jeitinho! Quando eu estava na 6ª série era quieta como a professora me contou que ela é.



Eis o Haicai que escrevi, que estará na Epígrafe de Por Falar em Disputa... declamado pela Carla:

Se vão as estações
Rubra terra gelada
Lindo Paraná!
Aline Negosseki Teixeira, 02.10.2010


E também esse outro, que eu escrevera uns dias antes de lá ter ido:

Se eu mesma sonho
essas fábulas de cristal,
não temas fantasiar.
Aline Negosseki Teixeira, Novembro de 2010

Haicais que eles compuseram no dia em que lá eu estivera e depois.

Escola, lugar
de aluno aprender.
Homem transformar.

Deus é toda
a força da qual
eu tanto preciso.

Te amei como
ninguém nunca te amou.
Porque acabou?

São José, nossa
bela história, terra
da poesia.

Amizade

Vivo pensando
em aquela amiga
que amei. Foi-se.

Amanhã
É apenas uma estrofe
que gera uma poesia.

Depois fiquei para assistir as apresentações de música e danças das outras séries. Este foi meu maior presente. Quando eu era pequena não gostava de Mamonas Assassinas. Mas ver o grupo de cinco garotos vestidos e dançando como os caras que foram a trilha sonora dos que cresceram nos anos 90 quase me arrancou lágrimas. Ouvir "Mina.. minha brasília amarela..." lembrou-me, com precisão de véspera, dos amigos que cultivei na infância na rua que morei e que lá deixei. E, quando os rapazes morreram naquele trágico acidente, esses que cantaram ontem nem era nascidos!
Adorei ver a dança do Siriá, típica do Maranhão e, que emoção, uma garota, única que não usou o recusso do Playback, cantar Almir Sater, Tocando em frente. "Ando devagar.... Porque já tive pressa..." "Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe..." Foi mesmo muita emoção. Várias músicas como essa me inspiraram na continuação de Por Falar em Disputa... e parecia que eu estava, de algum modo ali, dentro da pele da professora Anna Carolina, a segunda protagonista da saga.

O presente nem foi tanto a homenagem.
Foi o carinho deles, presente em cada palavra e gesto, e a oportunidade de assistir de perto um dia tão especial naquela escola.

O Ivan me presenteou com uma folha cheia de suas poesias. Fiquei comovida, visto que lá, como ele me mostrou, tinha uma que dedicou a mim.

Tremor
O terremoto treme o chão,
A palavra divina
Treme o rumo da minha vida,
Direto a verdade.
Ivan M. Alves

Pensamentos
Onde habitam
Esperança,
Sonho,
Imaginação e
Amor.
Ivan M. Alves

A poesia
Levanta da sua
Imaginação,
Nova e repleta de
Entretenimento e beleza.
Ivan M. Alves

Janela
Vejo o mundo
Lá da ponta da janela.
Dali vejo o sol nascer,
E a beleza tomar vista.
Ivan M. Alves


Não tenho mais palavras para exprimir como me sinto. Por isso encerro esse post com um Haicai que me acaba de vir a mente.

Simples coisas
que acontecem do nada
fazem-me tão feliz.
Aline Negosseki Teixeira, 19.11.2010

Aline N. T - 15h00min

Comentários

  1. Parabéns! Deve ter sido uma experiência linda!

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  2. Aline

    Tenho visto suas fotos de vários eventos( feira do livro, escola da Sarah..) e me emocionado. É um momento de reflexão para mim quando abro uma mensagem sua ou vou olhar seu blog: e as marcas dessas emoções são profundas e tenho fé que estou uma pessoa um pouquinho melhor a cada vez...
    Parabéns pela pessoa linda que você é e por suas conquistas!

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  3. Aline querida jovem escritora
    Riquíssimas lembranças para sempre registradas. Dizer parabéns é pouco para expressar meu sentimento. É gratificante poder participar de um momento seu. É bom estar aqui para compartilhar dessas suas lembranças. As crianças são maravilhosas e conseguiram realmente se mesclar à Aline. A professora foi sensacional ao prestar-lhe merecida homenagem. Belíssimo registro. Um beijo dessa sua fã à distância Inajá.

    ResponderExcluir
  4. Aline só posso te dizer mil vezes obrigada, por estar lá, junto com meus alunos despertando em alguns o interesse pela delicadeza da poesia. Obrigada por descrever o dia em que esteve conosco de uma forma delicada, no momento em que li a sua escrita me emocionei, e você não sabe a felicidade do Ivan em contar a sala que você escreveu a poesia dele em seu blog. Você pode ter certeza que ficara sempre na lembrança dos alunos da sexta serie daquela escola e definira o futuro de alguns deles que se sentiram muito importante com sua presença naquele dia.
    Felicidades
    Professora Carmelita

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