Como foi que essa história aconteceu? — I
Quando começou minha história de tamanha afetividade com a literatura?
Impossível, ou extenso, ou longínquo mensurar. Eu ainda devia estar aninhada nos genes de minha mãe, lá pela segunda metade dos anos 60 quando o pai dela incutia nela, em minhas tias e tio o gosto por leitura, por conhecimento...
Mas vindo daí, pulando mesmo o importante momento da infância, darei um grande salto por tudo que acontece entre este espaço de tempo e onde começa a história que deu origem ao meu primeiro romance (finalmente concluído). Período que tem muitas e longas e novelescas histórias que são, muitos desacreditam, fatos reais.
Como sempre me perguntem de onde veio a ideia...
Aqui começo a contar como se deu em minha mente e alma o prenúncio de O Último Baile do Império.
Contarei em partes para não enfastiar vocês, leitores.
Essa história começou muitíssimo antes de eu vir espantosamente viver na casa que viveram por muitas décadas meus bisavós e minha tia-avó. Faz poucos anos, 10 para ser mais exata. E só começou a ganhar formatos há uns 9 anos, quando eu ainda tinha 15 e, embora pouco comemorado, muito bem feitos anos.
Lembro-me de no primário (ainda não era ensino fundamental que se chamava) ter lido no livro de português uma história. Ou, antes, parte dela. Chamava-se “A Aposta”. Não lembro o autor, nem a história. Somente a ilustração a crayon e que era inspirada no romance de J. M. de Macedo, tão popular, A Moreninha.
Os anos passaram e, volta e meia, eu me lembrava (como de muitas outras que os livros didáticos, apesar de tudo, me deram) da história que li ali, sobre um rapaz que apostava com seus amigos se ganhava o coração da bonita adolescente, pela qual, como no primeiro romance genuinamente brasileiro, ele foi se apaixonar e perder a aposta.
Um dia, então com catorze anos, enlouqueci minha mãe para que me desse o livro do qual a professora de português (lembro-me que a Prof. Sônia era carioca e muito meiga) mencionou com tão brilhantes olhares.
A Moreninha...
Morri de alegria o dia que ela chegou com ele em casa. Comprara numa feira de livros, de várias editoras, que por muito tempo existiu em frente a praça do sapo, lá em São José dos Campos, interior de São Paulo, onde cresci. Achei-o inteiro lindo, capa, miolo, cheirinho de novo. Tudo isso que os amantes da leitura não deixam de reparar e amar num objeto tão aparentemente simples, mas que dá tanta felicidade: o livro.
Naquele dia mesmo comecei a ler e o que lembro mais é que o devorei muito rapidamente. Terminada a leitura achei-o tão maravilhoso, tinha um sorriso tão grande em meu rosto que recomecei e reli-o outra vez. Mas então, saboreando, como quando a gente vai ver um filme bom comendo leite Moça (tem que ser essa marca) com colherinha de café. Lentamente, para o prazer não acabar tão depressa.
Eu nunca haveria de esquecer o primeiro livro que li que não era nem infantil, nem infanto-juvenil.
Ainda sinto bem aqui, dentro do peito, as emoções que me causaram a cena da troca dos breves entre as duas crianças e a comoção que me causou nossa Carolina, tão meiga, lá triste, cantando muito melancólica a canção da índia “Lá vem sua piroga, cortando leve os mares...” “Eu tenho quinze anos e sou morena e linda...”. Era algo assim. Não me lembro bem, faz muitos anos que não o leio e, falando nele assim, sinto que o terei de reler outra vez, em breve. E penso e escrevo isso sorrindo.
Essa cena da índia que amava deve ter calado fundo em mim, porque além dos meus DNA’s polacos sei que tenho muitos também de nativos brasileiros, que chegaram até mim desde a colonização pelos portugueses na Bahia, pelo meu sangue paterno.
Eu não me conformava que o cenário do romance fosse “Ilha de...” O que essa reticência queria, afinal, dizer? Eu não teria nem o consolo de sonhar em conhecer esse lugar? Isso é, se ele realmente existisse. Se tivesse mesmo sido inspirado em um lugar real.
Não me recordo quem me disse, mas sei que alguém com olhos brilhantes e devia ser bem adulto, visto que assistira a novela que Nívea Maria interpretou D. Carolina, me contou que era a Ilha de Paquetá.
E que havia um filme protagonizado por Sônia Braga. O qual foi assistível, mas que jamais, nunca se compararia ao lindo filme de minha imaginação ao ler o livro.
Pronto. Sabendo disso, fiquei louca, varrida de desejos ardentes por conhecer a tal ilha que fica no Rio de Janeiro, não muito longe da costa. Ainda mais quando me disseram (também não sei que foi, devo ter importunado tanta gente com isso) que lá foi erguida e se podia visitar “A Casa da Moreninha”.
Um ano depois o marido de minha mãe tinha negócios por lá, na cidade do Rio de Janeiro. Estava já lá fazia uns três meses sem ir ver-nos e ligou, um dia, mandando-a largar tudo, tomar um ônibus, e ir até lá, com minhas irmãs e eu, encontrá-lo.
Eu que já tinha buscado por mais leituras como a primeira fiquei extasiada com a chance de ver de perto os cenários de Encarnação, do Alencar, entre outros, quais nenhum superou o primeiro em ternura que até hoje mora em meu coração.
Andei sozinha arrastando os pés pelas areias quentes e lotadas de Copacabana. Na rua N. S. de Copacabana vasculhei sebos, farmácias (eu tinha mania), papelarias... Em uma comprei um caderno de espiral de 200 folhas e enchi-o com um romance adolescente em primeira pessoa, que nunca acabei, e que deve existir em algum lugar dessa casa. Ouvi um samba antigo num quiosque da pedra do Leme num entardecer belo e inesquecível por que minha família estava reunida, muito alegre, sem os grilos de sempre. Passeei algumas vezes, sem qualquer deslumbre ou emoção, como sempre é quando vou a Shoppings, no Shopping Rio-Sul, que está um pouco além do túnel verdolento que fica depois do hotel em que estávamos hospedados, no sentido de quem vem da praia.
Passeios lindos na hora que o sol já se pôs, mas ainda está claro e cheio de penumbras que embelezam tudo; vi as mulheres, cidades e aquários de areia que os artistas da praia construíam e fiquei com isso fascinada. Tanto talento e minuciosidade. Lembro-me que tive vontade de comer milho verde cozido naquele calçadão da Atlântica. Para variar, como sempre, eu não tinha um tostão para isso e tive de ouvir um “não” sonoro. Tem coisas nessa vida, por mais Cristão que sejamos, ou Polianas, não esquecemos mesmo. É assim.
Impossível, ou extenso, ou longínquo mensurar. Eu ainda devia estar aninhada nos genes de minha mãe, lá pela segunda metade dos anos 60 quando o pai dela incutia nela, em minhas tias e tio o gosto por leitura, por conhecimento...
Mas vindo daí, pulando mesmo o importante momento da infância, darei um grande salto por tudo que acontece entre este espaço de tempo e onde começa a história que deu origem ao meu primeiro romance (finalmente concluído). Período que tem muitas e longas e novelescas histórias que são, muitos desacreditam, fatos reais.
Como sempre me perguntem de onde veio a ideia...
Aqui começo a contar como se deu em minha mente e alma o prenúncio de O Último Baile do Império.
Contarei em partes para não enfastiar vocês, leitores.
Essa história começou muitíssimo antes de eu vir espantosamente viver na casa que viveram por muitas décadas meus bisavós e minha tia-avó. Faz poucos anos, 10 para ser mais exata. E só começou a ganhar formatos há uns 9 anos, quando eu ainda tinha 15 e, embora pouco comemorado, muito bem feitos anos.
Lembro-me de no primário (ainda não era ensino fundamental que se chamava) ter lido no livro de português uma história. Ou, antes, parte dela. Chamava-se “A Aposta”. Não lembro o autor, nem a história. Somente a ilustração a crayon e que era inspirada no romance de J. M. de Macedo, tão popular, A Moreninha.
Os anos passaram e, volta e meia, eu me lembrava (como de muitas outras que os livros didáticos, apesar de tudo, me deram) da história que li ali, sobre um rapaz que apostava com seus amigos se ganhava o coração da bonita adolescente, pela qual, como no primeiro romance genuinamente brasileiro, ele foi se apaixonar e perder a aposta.
Um dia, então com catorze anos, enlouqueci minha mãe para que me desse o livro do qual a professora de português (lembro-me que a Prof. Sônia era carioca e muito meiga) mencionou com tão brilhantes olhares.
A Moreninha...
Morri de alegria o dia que ela chegou com ele em casa. Comprara numa feira de livros, de várias editoras, que por muito tempo existiu em frente a praça do sapo, lá em São José dos Campos, interior de São Paulo, onde cresci. Achei-o inteiro lindo, capa, miolo, cheirinho de novo. Tudo isso que os amantes da leitura não deixam de reparar e amar num objeto tão aparentemente simples, mas que dá tanta felicidade: o livro.
Naquele dia mesmo comecei a ler e o que lembro mais é que o devorei muito rapidamente. Terminada a leitura achei-o tão maravilhoso, tinha um sorriso tão grande em meu rosto que recomecei e reli-o outra vez. Mas então, saboreando, como quando a gente vai ver um filme bom comendo leite Moça (tem que ser essa marca) com colherinha de café. Lentamente, para o prazer não acabar tão depressa.
Eu nunca haveria de esquecer o primeiro livro que li que não era nem infantil, nem infanto-juvenil.
Ainda sinto bem aqui, dentro do peito, as emoções que me causaram a cena da troca dos breves entre as duas crianças e a comoção que me causou nossa Carolina, tão meiga, lá triste, cantando muito melancólica a canção da índia “Lá vem sua piroga, cortando leve os mares...” “Eu tenho quinze anos e sou morena e linda...”. Era algo assim. Não me lembro bem, faz muitos anos que não o leio e, falando nele assim, sinto que o terei de reler outra vez, em breve. E penso e escrevo isso sorrindo.
Essa cena da índia que amava deve ter calado fundo em mim, porque além dos meus DNA’s polacos sei que tenho muitos também de nativos brasileiros, que chegaram até mim desde a colonização pelos portugueses na Bahia, pelo meu sangue paterno.
Eu não me conformava que o cenário do romance fosse “Ilha de...” O que essa reticência queria, afinal, dizer? Eu não teria nem o consolo de sonhar em conhecer esse lugar? Isso é, se ele realmente existisse. Se tivesse mesmo sido inspirado em um lugar real.
Não me recordo quem me disse, mas sei que alguém com olhos brilhantes e devia ser bem adulto, visto que assistira a novela que Nívea Maria interpretou D. Carolina, me contou que era a Ilha de Paquetá.
E que havia um filme protagonizado por Sônia Braga. O qual foi assistível, mas que jamais, nunca se compararia ao lindo filme de minha imaginação ao ler o livro.
Pronto. Sabendo disso, fiquei louca, varrida de desejos ardentes por conhecer a tal ilha que fica no Rio de Janeiro, não muito longe da costa. Ainda mais quando me disseram (também não sei que foi, devo ter importunado tanta gente com isso) que lá foi erguida e se podia visitar “A Casa da Moreninha”.
Um ano depois o marido de minha mãe tinha negócios por lá, na cidade do Rio de Janeiro. Estava já lá fazia uns três meses sem ir ver-nos e ligou, um dia, mandando-a largar tudo, tomar um ônibus, e ir até lá, com minhas irmãs e eu, encontrá-lo.
Eu que já tinha buscado por mais leituras como a primeira fiquei extasiada com a chance de ver de perto os cenários de Encarnação, do Alencar, entre outros, quais nenhum superou o primeiro em ternura que até hoje mora em meu coração.
Andei sozinha arrastando os pés pelas areias quentes e lotadas de Copacabana. Na rua N. S. de Copacabana vasculhei sebos, farmácias (eu tinha mania), papelarias... Em uma comprei um caderno de espiral de 200 folhas e enchi-o com um romance adolescente em primeira pessoa, que nunca acabei, e que deve existir em algum lugar dessa casa. Ouvi um samba antigo num quiosque da pedra do Leme num entardecer belo e inesquecível por que minha família estava reunida, muito alegre, sem os grilos de sempre. Passeei algumas vezes, sem qualquer deslumbre ou emoção, como sempre é quando vou a Shoppings, no Shopping Rio-Sul, que está um pouco além do túnel verdolento que fica depois do hotel em que estávamos hospedados, no sentido de quem vem da praia.
Passeios lindos na hora que o sol já se pôs, mas ainda está claro e cheio de penumbras que embelezam tudo; vi as mulheres, cidades e aquários de areia que os artistas da praia construíam e fiquei com isso fascinada. Tanto talento e minuciosidade. Lembro-me que tive vontade de comer milho verde cozido naquele calçadão da Atlântica. Para variar, como sempre, eu não tinha um tostão para isso e tive de ouvir um “não” sonoro. Tem coisas nessa vida, por mais Cristão que sejamos, ou Polianas, não esquecemos mesmo. É assim.
Em contraponto do sonoro “não”, dentro de uns dias, fui numa manhã de sol, depois de muito implorar, levada a finalmente conhecer minha ansiada e esperada Ilha de Paquetá!
Saber que isso ia acontecer para mim foi o fim da picada, o máximo, da hora, tudo que se possa dizer para expressar como me senti feliz.
De carro chegamos ali, onde se pega a barca voadora e... Bem, a continuação, que é a descrição do maravilhoso dia que passei na Ilha de Paquetá eu contarei no próximo post.
Aline N. T. - às 15h36min
Imagino como deve ter sido encantador pisar no cenário real do livro (A Moreninha). Ver materializado ali, na sua frente, o que nós por vezes arquitetamos na nossa cabeça enquanto estamos lendo. Visitar um lugar desses deve ter sido mesmo inspirador. =P
ResponderExcluirRio de Janeiro, essa cidade tem um encanto maravilhoso. Pude sentir nos minutinhos que "estive lá". Da janelinha do avião o cenário é deslumbrante, parece pintura. Imagino como deve ter sido pisar de fato. Andar nas areias e sentir aquele ventinho litorâneo e fresco. Um dia irei, com certeza. Irei pra passear e não pra fazer uma conexão "corre corre". =D
Deve ter sido um passeio gostoso. Daqueles que fica marcado. Que deixa saudades. E para que dessas experiências somadas a uma criatividade voraz de escritora surja uma obra rica, basta um estalo de dedos! ^^
Quero saber o resto Alinitcha! =D
Que lindo!!! A sua primeira paixão literária foi por um livro brasileiro!!! E foi realmente arrebatadora ^^
ResponderExcluirAdorei conhecer um pouco da sua história e devo admitir que quero muito ler as cenas do próximo capítulo!!! Deve ter sido emocionante conhecer o "palco" do romance que ganhou seu coração =)
Celitcha^^
ResponderExcluirVc sempre fala tudo... quase não me restam palavras para respoder seu cometário lindo. =') Ele fala por si... dos nosso sonhos de conhecer todos os outros lugares.
Pode esperar que logo contarei mais!! sobre essa viagem inesquecível.
beijinhos
Foi mesmo Nanie,
ResponderExcluire saiba que fiquei muito contente que tenha lido essa primeira parte.
Logo, logo escreverei a segunda parte!
beijinhos.
Oinnnn, me imaginei lá! =)
ResponderExcluirLindo texto Aline, minha admiração por suas palavras a cada dia crescem mais!
Que lindo, Aline, estou aguardando o passeio em Paquetá ansiosamente! Eu também gostei muito de 'A moreninha', e cheguei a reler uma vez pelo menos - acho que também vou ter que ler de novo!
ResponderExcluirUm abraço, querida, e continue escrevendo maravilhosamente.
Aline, tão linda sua ligação com "A Moreninha", um dos queridos que habitam meu coração literário... Foi justamente esse tipo de romance - com um jeito tão doce de sonhar e retratar a realidade - que encontrei em "O Último Baile do Império". Por isso temos tanto em comum, por isso a admiro tanto. O que posso desejar? Sucesso sempre!!! Beijo enorme!
ResponderExcluirLari, Lucia e Bruna..
ResponderExcluiragradeço de coração os comentários e por terem lido e queria dizer muitas coisas em resposta! Mas como sempre acabo extrapolando nas palavras, vou logo postar a segunda parte.
Vcs são muito especiais para mim =)
bjs
Aline
Oi, Aline.
ResponderExcluirAinda estou com a história desse livro permeando a minha mente.
Que coincidência! Ao lê-lo, pensei também em "A Moreninha" e no filme "Zorro" que amo de
paixão.
Depois do Pedro Bandeira, este foi o primeiro romance nacional que li e até hoje adoro declamar este poema que você menciona no texto.
Foi um livro que marcou muito a minha adolescência, assim como todos os desse autor.
Fiquei muito feliz e surpresa em saber que OUBI foi inspirado nele.
O desfecho me deixou com o coração na mão e fiquei ansiando por mais Angelina e Augusto.
Beijos.
Carla, é maravilhoso "ler" outra vez meu romance com seus olhos. em tudo sinto o quanto vc é sensível.
ExcluirPensei em escrever esse relato pois como leitora sempre gostei de saber o que há por trás das narraticas, lá, no coração dos autores.
Já percebe que marcou a minha tmb, rs.
Tanto que fui à ilha 2 vezes em 2000 e 2001 e voltei em 2011.
E em Graciosa temos ambientação lá tmb. Aquele lugar é simplesmente encantador.
<3
Não sei se achou os links, tem mais quatro posts onde continuo a relatar. Se não conseguir eu posto aqui para vc. Beijinhos.
Aline, sou uma romântica e sinceramente já é o terceiro romance seu que leio, que me marca de alguma forma, principalmente porque você sempre traz à tona alguns fatos que fizeram parte da minha vida, seja mencionando uma obra, um filme, uma canção, um poema.
ExcluirCom OUBI não foi diferente. Quando li o poema que o Augusto dedica à Angelina, me comovi, porque era um dos que eu amava do poeta, entre tantos que já li dos velhos livros de poesias do meu pai.
Seus personagens sempre me transportam para mundos incríveis por algumas horas porque sempre relembro alguma passagem marcante.
Breve, falarei mais dele na resenha do blog. :D
Beijos.