— Vosmecê... Não te casaste? Tens estado só todo esse tempo?
— Se não me casei, Amélia? Casamento é um só nessa vida. E eu costumava crer que era para a eternidade também. Eu me casei, sim, e certamente que te lembras da ocasião.
— Eu... Eu pensei que houvesse sido anulado.
Fabrício tentou divisar o rosto de Amélia, mas o chapéu projetava nele uma cortina de sombra.
"Se não me esqueço com que ardentia buscou anulá-lo!" — pensou rancoroso. Não quis, entretanto falar-lhe. Evitaria qualquer confronto verbal. Sabia que jamais estariam próximos um do outro como estiveram um dia. Se morria e continuava a respirar estando sem ela, melhor era estar com ela, e iludir-se por algumas horas, que somente conhecer torturas e infinito sofrimento.
Amélia baixou os olhos para as mãos que um raio de luz que entrava pela fresta do cortinado iluminava. Sentiu contra o corpo o luxo do veículo e lembrou-se das viagens de terceira classe, jornadas inteiras de carroça puxadas por bois, o pisar duro e seco dos animais a surrarem seus ossos, o frio de congelar os ossos, o calor de derreter os miolos, da aflitiva viagem no navio desde a Alemanha até o Brasil. Palavras de Franz a atingiram. Pediu à consciência que se calasse. Era uma força contra a qual não podia e não queria lutar. Era a força que Fabrício, sua existência e ser, exerciam sobre ela.
"Seja belo, seja deformado, seja rico, ou fosse pobre, seja alegre, ou amargurado, eu sempre iria para onde ele fosse, conforme todas as minhas forças."
Uma única lágrima rolou pelo seu rosto. Fabrício não viu. Mas percebeu a comoção em suas mãos, que se apertaram uma na outra.
— Que foi, Amélia? — a voz grave indagou com mansidão.
Ela moveu a cabeça, num trejeito tão seu, querendo que ele acreditasse que nada a abalava. Porém, se pode esconder uma cidade edificada num monte? O sentimento sincero é uma lâmpada. Pode-se ocultar uma candeia acesa?
— Vem aqui! — ele adiantou-se sobre ela e tomou-a pela cintura trazendo-a consigo para o seu colo.
Acomodou-a contra seu corpo e, um pouco afobado, livrou-a do chapéu.
— Mas... Olhe só, está chorando! — Tirou o lenço do bolso e enxugou seu rosto.— Me conta, o que te abala tanto?
Amélia, procurando alguma dignidade e aprumando suas saias, soluçou.
— Vamos, estou esperando. Temos todo o tempo do mundo.
— Será? Será que existe um lugar certo onde deveríamos estar? Será que existe um propósito em tudo que vivemos nessa vida? Eu... Eu pensava tantas coisas, e estavam todas erradas. Eu era de um modo, mas aprendi que o modo certo de ser não era aquele que eu era. Então qual seria? Eu percebi que é mais lógico que tudo que vivemos esteja escrito em algum lugar. Porque se a minha mente compreender fazer pura e simplesmente o que meu corpo e meus anseios pedem, porque é que as situações me atropelam, levando-me a outras sendas tão indesejáveis, sofríveis? Eu jurava que se um dia eu te visse outra vez eu diria isso ou aquilo. Planejei milhares de coisas. E pensei que meu sofrimento enfim terminaria. Porém, quanto mais eu o vejo, quanto mais eu ouço a tua voz, mais eu sofro, Fabrício. Mais a minha língua cola e por mais que eu tente, não posso te falar. Que há de ser feito para isso terminar?
— Sofrimento, Amélia? — ele murmurou contra seus cabelos. — Sofrimento?Queria dizer que o lago de fogo e tormento eterno que a bíblia prometia era apropriado para descrever onde ele vivia desde que ela partira. Contudo, era tanto que se havia passado, tantas dores intercruzadas e tanta confusão em sua mente e coração que sempre que se via na iminência de revelar ou indagar qualquer coisa, sua boca se trancava.
— Eu não creio mais no inferno — ela revelou, assustando-o, pois era como ela tivesse adentrado aos seus pensamentos, para acrescentar cores frias que faltavam à melancolia de seus sentimentos. — Penso, porém, que se ele existisse, não seria pior que os estados que tenho experimentado. Solidão, abandono, medo.
(...)
Graciosa, págs. 291, 292, 293.
Imagem: Monotipia, óleo sobre off-set, da autora. —

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