Tela de Pino Daeni
"Os dias... As noites... Iam-se passando.
E mal davam-se conta.
Amélia acordava para olhar a presença adormecida
do amado sob a luz dourada do fogo. Para ela, era o mesmo que contemplar um
algo sobrenatural, foi tanto que o desejou fazê-lo. Com seus próprios olhos
ardendo de amor estudava aquela pele bem morena de todo o corpo masculino quase
do tom do chá extraído das saborosas e tão vigorosas folhas do mate que ali por
aquelas terras cresciam abundantes. Achava que Fabrício era de uma textura
constituída de fibras de perfeição, que à vista se quedava ainda mais
embelecida pela perfeita luz das chamas que também os aquecia nesse inverno da
serra, proporcionando delicioso calor que também corava as faces relaxadas pelo
descanso. Ah, Amélia verificava sempre os cabelos negros, muito, muito negros,
pretos como carvão, adornando revoltos, rebeldes o lindo rosto, a negrejarem
numa harmoniosa confusão em moldura ao rosto que descansava satisfeito depois
dos amores ora loucos, ora doces que faziam. Metade daquele rosto estava, sim,
maculado por semelhante fogo que um dia, desafortunada ventura, o apanhara.
Todavia, Amélia levava no inconsciente quase nunca consultado que aquelas
marcas nada mais eram que outra forma de expressão do amor que ele sempre nutrira
por ela. Suspirava e duvidava da realidade, outra vez! Ela merecia tão imenso e
sincero amor? Merecia o prazer arrebatador que esse que lhe dedicava tal
tamanho amor lhe dava? Tinha medo. Terror era a palavra certa, terror profundo
de que qualquer fatalidade os apanhasse outra vez. Então sentia em todos os
nervos de todo seu corpo que tudo aquilo era eterno. Era finalmente uma com
ele. Eram finalmente inseparáveis. Como se houvesse nascido para completá-lo.
Amélia sorria... Suspirava... Depois adormecia cônscia da realidade, feliz e
tranquila, grata que tudo se houvesse esclarecido, certa de que estava onde e
com quem havia esperado por toda sua vida.
Fabrício, quase sempre dez ou quinze minutos
depois dela adormecer despertava, ignorando que fora estudado detalhadamente,
apenas para observá-la adormecida, bela e inefável. Admirá-la tocada pela luz
dançarina que a dourava, rescendendo beleza, perfeição e dulcíssimos aromas.
Suspirava com profundas impressões. Acariciava suavemente o rosto simétrico e a
curva delicada do queixo, do pescoço, dos ombros desnudos, admirando as formas
que um lençol sobre o mimoso corpo feminino pouco escondia. Tocava com carinho
os longos e macios cabelos castanhos que se espalhavam sobre os travesseiros
alvíssimos. Deixara ambos estarem sobre o lençol que cobria o grosso tapete de
carneiro. Era lhes um ninho de um inesquecível e ardoroso amor. Fabrício tinha
tanta alegria e emoção ao estudá-la, assim longamente. As pontas dos dedos
nesse gesto inexplicável do ser humano — é preciso sempre tocar o
que se admira — ia refazer o
cinzelar divino daqueles lábios polpudos, tão puros e delicados, dos malares
harmoniosos. Sentia tanta satisfação que nenhum, além dele mesmo, os tivesse
provado! Logo, uma sombra de seriedade e pavor atravessava sua fisionomia
máscula. Passava soturnamente uma mão pela metade atingida de seu próprio rosto
e liberava um suspiro embargado de desgosto.
“Como ela pode me suportar? O que pensará ela
quando a possuo e ela fita esses queridos olhos de lavanda nessa face que não
passa de horror, horror e horror? Que sentirá quando conviver com minha índole
irritadiça, impaciente e magoada? Que resultará?”
Com o passar dos anos, convivendo tanto consigo
mesmo, havia aprendido a conhecer-se.
Então, quando a amava e procurava a si mesmo bem
dentro dos cristalinos olhos de Amélia, sentia brotar dali de dentro tanto
desapego ao mundo material e tanta concentração dela para si, que esquecia a
própria existência, tudo que vivera, tudo que o incomodava, e nada mais existia
se não tudo que partilhavam. Amélia, por sua vez, perdida no negrume de noite
dos olhos que queimavam no rosto que a encarava com amor e ardentia, desejava
que o momento nunca terminasse. Atirada nesse sonho doce de sensações
deliciosas, afogada num profundo rio de deleites, ouvindo as perguntas que ele
gostava de lhe fazer em lúbricos sussurros, registrando-as, mas, não podendo
concatenar respostas, dizendo “sim” a tudo, a tudo que ele perguntava, pedia,
impunha, determinava, ensinava... Parecia que a qualquer momento começaria a
voar. Voar... Livre de gravidade ou de qualquer privação. Livre de receios ou
qualquer questão. Tocar não o céu, mas uma área além, imaterial,
distante e tão tangível nesses momentos de arrebatada paixão."
Romance Histórico - Graciosa, pág. 344

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