Quem entra em contato comigo interessado em minhas oficinas sempre quer saber: "Que faixa etária você atende?"
Eu respondo: "Do maternal à terceira idade."
Por isso o subtítulo do livro é, entre parênteses, (Grandes ou Pequenas). Quando escrevi o primeiro, me propus a escrever para crianças com deficiência visual e, então percebi, em minhas leituras, em minhas observações (lá mesmo, também, no curso de braille) que os adultos se empolgam, se interessam, se entusiasmam com o haicai (e com poesias e histórias, um causo bem contado...) tanto como os pequenos. Resolvi colocar o tal subtítulo, como numa dedicatória de honra a todas às idades. E percebi que o mundo sensorial (tato, olfato, paladar, audição) era muito interessante também para os que não têm deficiência visual, então surgiu a versão em tinta de HPC - Sentidografias.
Há pouco terminei a versão que dediquei àqueles que sempre, desde sempre, mas admirei, mais amei: crianças. Meu novo livro: HPC Ludografias. Ludismo é uma palavra que expressa o brincar em toda a sua complexa significação. Algo que aprendi na faculdade de pedagogia e me encantei. Grafias é a escrita, propriamente dita. Então pensei, outra vez, num modo simples, claro, direto de falar às crianças a importância da arte (ilustrada no haicai) em nossas vidas, seja agora ou no futuro. A importância astronômica do brincar. Lembrando-os o que já sabem intuitivamente: nunca podemos deixar de sonhar, de contemplar as coisas simples, pois estas que são as mais poéticas, as mais importantes da vida.
Eu sonhei estar entre crianças desde que nasci. Quando encontrei algum entendimento, decidi que o melhor modo disso acontecer seria sendo professora. Embora o desejo alheio fosse de que eu fizesse Direito, não pensei duas vezes ao me inscrever no curso sonhado da minha infância. Mesmo adulta eu não permiti que as ondas suspirosas dos dias interferissem nos meus anseios de menina que juntava a garotada da rua para declamar Cora Coralina e textos que me capturavam de meus livros didáticos, ganhados do governo do estado de São Paulo. Ser professora? Rá! Me disseram que se ganhava pouco, sofria-se muito e, ainda assim desejando o vocacionado, tive de defender minha decisão.
Não tinha importância. Quando eu escolhi uma profissão eu não pensava no que eu ganharia materialmente com isso. Na minha mente brilhava unicamente imagens da troca que eu faria com as crianças quando finalmente estivesse em sala de aula. E aconteceu, entretanto, de um modo que jamais imaginara. Ser escritora era um sonho desde meus 4 anos, parecia impossível. E aconteceu... Uniram-se os dois sonhos em um, e os caminhos do Eterno são insondáveis. O Destino é inescapável. O que ele escreveu para nós há de ser lido, inexoravelmente.
Desisti de um concurso passado e um outro em curso, porque não tinha e não tenho coragem de deixar minhas Piúlas em creches. Aquele poema da Cora é verdadeiro, eu sempre soube no meu coração e, ademais, o melhor ouro da infância delas, eu queria vivê-lo. E foi maravilhoso ser (e continuar sendo) a professora da Sarah e agora, a da Raquel.
Hoje além de escritora, sou mediadora de literatura. Não é uma espécie de professora?
Ante disso...
Tive de aprender a sonhar e conhecer a necessidade da perseverança, a persistência nas dificuldades para, depois de sonho alcançado, valorizá-lo não apenas pela alegria que me dá, mas pelo conjunto complexo de vidas cruzadas que isso tudo compreende...
E todas as vezes que digo para as crianças que elas têm de olhar para dentro de si mesmas, para o pueril, para o simples, para a beleza (das coisas óbvias e das inimagináveis) para encontrarem a melhor poesia, eu me emociono, trazendo à tona, em cada fibra da minha pele, a criança que eu fui: sonhadora, entusiasmada, confiante.
Haicai Para Crianças, eu sinto, é somente uma sementinha. A terra são as crianças; a água, a confiança.
Espero que seja apenas a primeira delas. Pois me lembro, no primeiro dia de aula, lá em 2005, no curso de Pedagogia, 1ANA, teve uma dinâmica e nela a orientadora perguntava: "Porque sua decisão sobre a pedagogia? Fale um pouco de você."
Falei de minhas avós que tinham sido professoras por toda uma vida, de escola a outra, pelo interior do Brasil, despertando sempre de um qualquer modo, a sede do conhecimento. Que era isso que eu queria fazer, um dia.
A primeira oficina que fiz numa escola rural, quase fui as lágrimas, lembrando-me dessa fala, que jamais sonhei que aconteceria dessa forma. Algo que parecia muito distante, intangível.
Continuam a dizer que a remuneração pelo que faço não vale o trabalho. Alguns acham que é perda tempo e que tarefas domésticas feitas com perfeição seriam melhores aplicações de meu tempo.
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| Dedicado às crianças (Grandes ou Pequenas). ;) |
Mas eu não importo. Quando uma criança me abraça, quando ela me beija, quando ela faz questão de sentar ao meu lado, quando conta um relato entusiasmada sobre sua vida, sua relação com a família, com o mundo ou quando indaga um algo qualquer com anseio, quando ela vê que é próximo esse reino encantado e real de escrever livros, e percebe que ela também poderia fazê-lo, quando, ansiosa, ela diz para eu voltar, quando sinto bem ali, no brilho dos olhos a semente geminada, eu sei que estou no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa: intercâmbio artístico de vida com as crianças. E ver, saber, sentir que a Sarah se orgulha de mim, arremata a questão. Ela é a minha maior ajudante desde que nasceu. Minha inspiração para seguir em frente, minha maior ensinadora do "ser criança". Por isso à ela dediquei o HPC - Sentidografias.
Crianças não estão olhando os nossos defeitos, os nossos erros, a marca da nossa roupa, a versão do aparelho celular que temos, a religião que professamos, a filosofia que acreditamos. Se estamos no carro do ano, se temos a festa mais original ou badalada. Quando elas se ajuntam em roda, temos de ter uma boa história para contar e elas escutam e então é liberado algo impressionante de dentro delas. Um rio de sinceridade e doçura que só quem já viveu o sabe. Será difícil crer que ser criança para toda a vida é a melhor coisa do mundo?
Tudo que tenho e anseio fazer é aprender com elas!
No resto sigo sendo esta: algumas certezas, muitas dúvidas, uma moça que ama ipês, sakurás, histórias, aquarelas, fatias de bolo, músicas envolventes, nuvens branquinhas a boiarem no rútilo do céu azul, banhos de rio e de mar, bonecas de pano, flores de todas as cores, desenho feito por crianças, poeminhas, amoras, ameixas amarelas, ouvintes numa plateia, sorrisos, muitos sorrisos de bebês, livros, muitos, muitos deles, bibliotecas, parques, solidão para escrever, companhia para viver; e em meus desgostos, por número um, detestando um telefone. ;)


Parabéns!! Belo trabalho.
ResponderExcluirOlá, Hilda!
ExcluirObrigada! Fiquei muito feliz com seu comentário!
um abraço
Aline