Pular para o conteúdo principal

O Mar do Tempo








MAR PORTUGUÊS
Fernando Pessoa

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"







O MAR DO TEMPO
Aline Negosseki Teixeira
28.04.2013

Sou um dos elos da infinita corrente de seres gerados em femininos ventres.
Com dores terríveis de meu invólucro de fazer existir, libertada.
Sou a brisa árida que as imigrações sopraram e sempre sopram.
Sou uma mulher lírica que medita na estranheza das vidas, dos tempos.
Penso em minhas ascendências:
PindorAma, LusitAna, judia(da), poLaca:
Delas todas, todas belas; a indígena, a latina, a hebraica, a eslava...
O olhar de uma selvagem?
O olhar de uma dominadora?
O olhar de uma santa?
O olhar de uma barbara?
O olhar de uma mulher. Temerosa fêmea. Corajosa fêmea.
Sou a avó matriarca, a mãe labutadora, a filha do destino.
Filha da pobreza, da perseguição, brisa soprada pela expulsão.
Filha da força, da submissão.
Filha da dor, da humilhação, da fome.
Resultado incompreensível de mistérios: massacres, crenças, medos e curiosidades.
Sobrevivente.
Sobrevivente da cegueira de irmãos que mataram irmãos. Irmãos que escravizaram irmãos.
A filha do recomeçar. A corrente nunca, aliás, foi quebrada.
Com força, ou fraqueza, com destreza ou aos tropeços todos os elos fizeram seu papel.
Transpusemos vales, montes, bosques, colinas. Transpusemos imensos e tenebrosos mares.
E, assim, pelas sendas doces da poesia, medito no salgado do mar.
Olorosas impressões!
Quantos mares pelo sangue atravessei?
Quantos povos e culturas por conta de casamentos e de contagens infinitas de dias abandonei?
Genes antigos perpetuei, carreguei.
Angustias infindas eu trouxe aqui
e enlevos antigos eternizei.

Eu olho o céu...
Eu olho o mar...
E todas e as mais difíceis coisas parecem possíveis.
Até mesmo a comunicação de alma a alma.

Sou a filha do destino, de um mundo sempre a girar... e a procriar.

Comentários

  1. Que poema tocante! <3
    Não me canso nunca de me surpreender com seus talentos querida,
    mil vezes parabéns *-*

    Beijocas ;*

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Oficina de Haicai - Escola Rural Caetano da Rocha

No dia 26 de Setembro mediei mais uma proveitosa Oficina de Haicai. Que satisfação! Participaram crianças entre 5 e 11 anos, conheceram o Haicai ou Haiku, o qual como eu esperava jamais haviam falar, e foi, como esperava, uma experiência maravilhosa. Quando eu cheguei em casa eu estava tão deslumbrada com o resultado, com o brilho que acendeu-se nos olhinhos das crianças, que escrevi o seguinte: "Só tem uma coisa que eu quero fazer na minha vida profissional e o farei com todo meu amor, sempre e sempre: incentivar crianças (grandes ou pequenas) a não só lerem e escreverem, estarem em contato com a arte literária, como se abstraírem  para a poesia... a poesia quem em tudo está! Foi maravilhosa a Oficina de Haicais que mediei hoje na Escola Rural Caetano da Rocha! O que era aquele brilho nos olhos das crianças quando me despedi delas?... ♥"  26 de Setembro  de 2012, 18h09min A bela lua encimava o dia, e nisso não há contradição, assim ela quis nesse di...

As Artes e o Processo Criativo

Frederick Leighton Inglaterra 1830 - 1896 O estilo desse pintor é o 'Acadêmico'. Embora meu estilo predileto seja o impressionismo de meus queridos Renoir, Mary Cassat e Berthe Morissot, eu não deixo de admirar o sentimento com que tantos gênios impregnaram a arte plástica nas mais variadas escolas artísticas. Todas elas grandemente, profundamente, suspirosamente me inspiram para escrever. Vamos olhar cuidadosamente para cada tela? O que sente, o que imagina, para onde seu pensamento 'viaja' com cada uma das telas? "Casado" A acima me faz pensar no rei Davi. "A lua-de-mel de um pintor." Essa pintura do artista e sua esposa me dá ensejo para mil fantasias que eu poderia tornar em enredos. Históricos, claro. ;) Como mil questões passeiam em minha mente quando me deparo com qualquer manifestação artística, as respostas acontecem artisticamente na literatura... a arte com a qual mais me identifico desde ...

Lançamento! Um Farol Para Meu Amado - Novela

Uma surpresa que venho preparando para vocês, leitores e leitoras! Escrevi essa novela em 2010 e estive ultimamente preparando-a para uma publicação exclusiva para mídias digitais, inclusive PC. Espero que gostem... A história de Luís e Ana me faz literalmente andar por onde eu ando, porém num outro tempo! Um tempo em que amar demais não era exagero, era esmero! Um abço a todos, Aline! ;* “O que ilumina a jornada daqueles que se aventuram a amar? Há aqueles que diriam: a fé.”  Aninha nunca se esqueceu de Luís, seu amor de adolescente, que deixou a fazenda Simão para nunca mais voltar e lhe dar um de seus inigualáveis sorrisos. Sedenta em conhecer outro modo de viver, ela deixa aos 16 anos a Colônia em que nasceu, no interior do Paraná para, um enigma que não revela a ninguém, buscar uma faísca de destino no tempo. Em pleno período da Segunda Grande Guerra, ela vai para a Capital estudar enfermagem, na esperança de reencontrar seu grande amor que, an...