Meu coração dói por não ser compreendida quando penso diferente, mas aprendi que é melhor compreender que ser compreendida. Aprendi com a irmã lua, Clara de Assis.
Um dia o tempo passa. As pessoas vivem mais e talvez compreendam. Se não, tudo bem também.
Toda profissão tem os famosos "ossos do ofício". A minha vocação é o que me torna tão expansiva. Escrever quase sempre leva a uma coisa: ser mal interpretada. Lembro do Erico Verissimo, em Solo de Clarineta, contando como foi incompreendido por aqueles que não concordavam com seu modo de pensar. Quase foi censurado. Ele não queria ser perfeito. Apenas tinha a necessidade de expor suas opiniões, suas questões, suas impressões. Ele tinha uma busca incansável por respostas a tudo. Ele não se achava perfeito. Confessou seus maiores defeitos, num tempo conservador.
Por isso me identifiquei ainda mais com ele quando li sua biografia. Ele era agnóstico. E me tornei sua admiradora com grande paixão. O diálogo que ele aparentou ter com tantos escritores, políticos e religiosos tão diferentes dele em seu modo de pensar e agir me causou uma profunda impressão: é possível discutir religião, política, ideais, opiniões no geral, sem levar para o lado pessoal, mantendo o senso de amizade, apesar das discordâncias.
Eu escrevo sempre buscando expor, nunca impor. Tento fazer isso com delicadeza, na medida do possível. É enervante a ciência que nos textos escritos não se possa colocar entonação, para que saibam melhor o que estou realmente tentando dizer. Não é raro eu dizer alhos e entenderem bugalhos. Isso me entristece.
E, quando desconfio que ofendi alguém, meu coração dispara, minha boca gela, e tenho vontade de voltar no tempo e não ter falado nada. Mas palavras são como elementos que misturamos. Uma vez realizado, não podemos voltar atrás. Apenas expressar nosso arrependimento.
Porém, eu não posso parar. Não posso deixar de olhar, como já fiz antes, para o que as pessoas estão pensando, sem ter uma reação, por receio que a cada passo que eu dê esteja errando. Algumas vezes será favorável, de concordância. Outras vezes não. Ou se não assim, não conseguirei trabalhar.
A palavra é algo mágico, algo que não se pode compreender que proporções e alcance reais ela pode tomar.
Estou, por exemplo, escrevendo o romance Graciosa, que posto aqui no blog.
Uma leitora que nunca comenta nas postagens, mas me escreve regularmente e-mails, me disse o seguinte:
"Amor não é se envolver com a pessoa perfeita,
aquela dos nossos sonhos.
Não existem príncipes nem princesas.
Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos.
O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser. É assim que vejo seu romance.
Parabéns Aline."
Quando eu escrevi tudo que escrevi jamais imaginei que seria essa a conclusão que alguém tiraria. E eu amei. Foi maravilhoso ler isso e entender o que escrevo com os olhos de outro alguém. Às vezes, queremos dizer algo, e é esse o resultado. Aprendemos não com que sabíamos, nem com que escrevemos apenas, mas com a reflexão que levamos o leitor a ter. Isso é formidável. Lançando mão do que lhes proporcionamos, somado aos seus prévios conhecimentos e vivências, um romance novo, diferente do que escrevemos, aparece na mente de cada e diferente leitor.
Quando acontece de forma negativa, é o mesmo.
O autor escreve uma coisa. Os leitores transformam isso em uma infinidade de obras diversas entre si. Que o diga Dom Casmurro.
Além do romance entre o casal protagonista, em meu romance, as histórias paralelas das outras pessoas próximas a eles, eu levanto um questão que me intriga desde sempre: O que vivemos, tudo que acontece é obra da livre escolha ou do destino? Isso me deixa muito pensativa. Muito...
"Tem a vida dois elementos que a regem.
A livre escolha e o destino.
O destino está aos escolhidos, como a sabedoria àqueles aprendizes que superam os mestres. Tem em comum que aceitam a sina e o saber com resignação quase terna. Os que ficam fora, orbitam diante do teatro onde atuam estes escolhidos.
Há doze caminhos para o ponto de chegada que o destino traçou. O sábio escolherá o certo, e irá diretamente à ele. O teimoso, vai pelos outros, aparentemente mais fáceis, até compreender que o destino é inescapável, porém, quem não diz que foi feliz experimentando a livre escolha? E que escolhê-la também não deixa de ser um destino? Quantos bons frutos ela também não lhe rendeu?
E quem disse que percorrer os outros onze caminhos não eram também destinos e caminhos para chegar a percorrer o duodécimo?
Porém, ó indivíduo que opta pela livre escolha, ature os espinhos, correções e dores de todos os caminhos que não o do destino... Pois quem escolheu escolhê-los, não foi ninguém além de si mesmo.
Começou mais ou menos aqui a história que se vai narrar. Da estrela que brigava com o destino, nossa Rosa Rebelde, tão graciosa, e do “selvagem” namorado, um pouco magoado e deprimido demais para ser ativo em suas escolhas, depois de tudo que lhe sobreveio... Temos nossos protagonistas, tão reais quando são saborosas as laranjas."
Esse é apenas um trecho. Esse assunto que demasiado me cutuca, é o tema para um livro todo. Não tenho pretensão de chegar a uma verdade absoluta quando terminar de escrevê-lo. Não sou perfeita, jamais serei. Até o único que foi, não agradou a todos. Quanto mais eu. Mas, esmiúço esse assunto, como tantos outros, para tentar chegar a compreender um pouco melhor o assunto, que apenas me estagnar em minhas próprias hipóteses. E para isso é necessário ler outros autores, que viveram outras coisas diferentes das que vivi, e considerar que talvez eles possam estar certos, mesmo que pensem diferente de mim.
Não sou mais ou menos feliz que ninguém com minhas respostas, que podem sim mudar, como tem sido ao longo da minha vida, conforme vou encontrando outras que façam mais sentido. Mas sou feliz questionando e expondo o que eu penso, com a única intensão da conexão.
Como eu amo dialogar com os imortais! :)

Adoro esse seu jeito mágico com as palavras Aline!
ResponderExcluirEu aqui pensando que você já tinha saído da internet e você estava apenas escrevendo esse texto maravilhoso para nos presentear ;D
Acho que vou postar mais reflexões ao anoitecer, são MUITO mais produtivas do que eu poderia imaginar, hahahaha.
Ai, ai, ai, ai Graciosa! *-*
Orgulho dessa minha afilhada! ;*
Aline, que rico e filosófico text0. Expõe suas dúvidas, mas ao mesmo tempo as esclarece por si só. Nunca compreenderemos de fato nenhum ser humano e vive-versa. Porque cada um é único, com qualidades e defeitos que dá o equilíbrio para vivermos. Concordo com a frase do Eça de Queiroz, podemos aceitar que muitas vezes a grande maioria das pessoas podem estar erradas justamente por pensarem o óbvio, pensarem igual, mas bastará apenas uma para se levantar com coragem e atitude declarando-se contra os outros. E este geralmente está certo, simplesmente por estar aberto às diferenças e por ter a coragem de as expor. Na história temos muitos exemplos.
ResponderExcluirAo destino faremos nossas escolhas, não sei afirmar também o que é por nossa livre escolha...mas como a conhecida frase: "o cavalo branco passa selado uma vez na nossa frente"...nossas escolhas são feitas, precisamos estar atentos mas não preocupados, pois assim podemos escutar nosso Pai que "sussurra" para nós no meio do barulho infernal cotidiano e muitas vezes não conseguimos escutá-lo.
O texto da sua leitora é lindo e verdadeiro.
Quanto ao Érico Veríssimo, acho que ele estava a frente de seu tempo, como muitos escritores e filósofos.
Mas não sou uma boa leitora como você, há tantos livros que quero ainda ler e olha que sou bem mais velha que você, por isto digo que me inspira e admiro este seu dom, jovem escritora, que vai além de ser uma simples profissão.
Escolhi os nomes das minas filhas pelos significados...fácil de entender não é?? Você sabe os nomes delas, então entenderá. E há anos dei o livro do Érico quando minha caçula aprendeu a ler.
Também concordo com você quanto às conexões, com certeza fazem a diferença e nos faz mais completos e felizes.
Ótimas inspirações!! para preencher nossas mentes e nossos corações.