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Stella - Camille Flammarion - Histórico de Progresso de Leitura - II

Parte I AQUI

Stella continua a leitura no livro do "Solitário", o autor desconhecido e intrigante.

Ela, sempre tão religiosa, uma donzela do tempo que bem imaginei dentro da igreja, com sua casta mantilha, é confrontada pela visão científica do surgimento do Sistema Solar, do Planeta Terra, da vida, a evolução das espécies, e muito mais. Isso entra em choque com sua educação criacionista, católica ultra conservadora.
Eu mesma, no papel de leitora, entro num diálogo ferrenho com o autor, e com a Stella. 
Tenho minhas próprias hipóteses, minhas dúvidas, minhas defesas e contribuições. Embora eu já tenha lido e auscultado em outras obras e matérias bem mais que ela e o Flammarion poderiam, pois estou aqui, pelo menos um cento e vinte anos a frente em descobertas científicas e arqueológicas, e desenvolvimento tecnológico.
Sei, por exemplo, que o dia do nascimento de Cristo não pode ter sido em 25 de dezembro, como coloca o "Solitário"... Mas entre setembro e outubro. 25 de dezembro foi escolhido por Roma quando essa lançou mão do cristianismo que crescia sem poder ser contido, posto que era o dia da festa do solstício em que os romanos festejavam ao sol e lhe ofereciam sacrifícios. A festa continuou e somente o "deus" mudou de nome. E, resumir a teoria da criação tão somente a visão católica, seria estreitar por demais o criacionismo, posto que o "designer inteligente" abrange um universo de possibilidades.
Nessa época, em que o livro Stella foi escrito, o messianismo não era conhecido e sobreviva sofregamente em comunidades perdidas e isoladas pelo mundo. Todas a história do Jesus hebraico (bem diferente do romano), Yeshua, tinha sido calada pelas forças que comandavam a história.
Como pensador, filósofo e pesquisador o "Solitário" deveria buscar além, entre tantos outros cientistas que admitem a possibilidade de uma criação científica. Mas, como disse, ele não tinha o acesso fácil como hoje temos: museus via internet, arqueologia em tempo real, youtube, bibliotecas imensas online ou manuscritos do mar morto a disposição de quem queira on line. os manuscristos sequer haviam sido encontrados!
Caramba! E pensar que em outras épocas, cheguei a desejar não ter nascido nesse tempo, desejei ser de tempos remotos. Como é bom estar aqui e agora e ter acesso a tudo isso! Obrigada, Pai Celestial por isso!
Voltando à carga, para não começar a falar de todas as profecias cumpridas no último século, como a restituição do estado de Israel. A comparação ficou rasa para o lado do criacionismo, para não dizer injusta.  
Contudo!...
Tenho a sensação de que serei surpreendida. Flammarion dá a entender o tempo todo.
"Depois da morte não pode ser o fim. Desaparecimento total!"
Bem, eu acabei por grifar quase que tudo. Vou deixar registrado as passagens mais marcantes.

Aconteceu-lhe até perguntar-se si Jesus era Deus, si ela mesma possuía uma Alma, si esta Alma era imortal, e em que se tornaria depois da morte... Tudo se desmoronava a um tempo só. E enormes dúvidas a atezanavam atrozmente. Não dormia mais, não se alimentava mais, definhava.
Semanas escoaram nessas angustias sempre crescentes, por isso que seu coração era puro e sincero. Não mais crer! viver sem religião! Impossível! Monstruosidade!
Por fim, não podendo se podendo conter por mais tempo, foi consultar seu diretor espiritual. Êle a deixou expor todas as dúvidas, sem proferir uma única palavra.
Depois, no fim, quando ela esperou as explicações: "Minha querida filha, disse-lhe, vós pecais por orgulho. Essas questões, não são nem do vosso sexo, nem da vossa idade. [¬¬] Com que direito pretendeis prescrutar os desígnios de Deus? Os mistérios da nossa Santa Religião não são discutíveis. A revelação divina jamais se discute. Acreditai-vos superior aos Apóstolos e aos Padres da Igreja, e supondes que santos inspirados por Deus, tais S. Paulo, S. Agostinho, S. Thomaz de Aquino, ou que espíritos eminentes, do valor de Pascal, Bossuet, Fenelon, e tantos outros, hajam sido impostores? Pensais que N. S. Jesus Cristo, que se proclamou - Êle mesmo - filho de Deus tenha sido um farçante? Semelhantes dúvidas são sacrilégios. Cumpri vossos deveres, segui os mandamentos de Deus e da igreja, não esqueçais a préce da noite e o exame de consciência, e encontrareis os benefícios da graça e a tranquilidade da fé. Humilhai-vos com os nossos grandes doutores, com Tetuliano - que não hesitou em dizer: Credo quia absurdum (creio porque é absurdo). Nós não podemos compreender os mistéiros. E, principalmente, não lêde mais esses livros perturbam inutilmente o Espírito. Tendes outras cousas a fazer no mundo, em vez de investigações pseudo científicas. Deixai a Geologia aos geólogos e a Teologia aos teólogos. Sois boa musicista, creio. Isso não é pecado. Os prazeres permitidos de uma sociedade honesta e distinta, qual o mundo a que pertenceis por nascimento, dar-vos-ão mais satisfações que essas vãs querelas renovadas, de heréticos, já condenadas por todos os Concílios. Em breve teremos a estação das viagens. Ide contemplar as maravilhas da Natureza; á beira-mar ou entre as montanhas, adorareis Deus em suas obras, e voltareis sã, de corpo e de Espírito. De outra maneira, sería estiolar-se nas bibliotecas onde cada livro está impregnado de pó e micróbios. Até a vista, minha querida filha, fazei vosso ato de contrição e recebei a minha bênção paternal."
Pela primeira vez, a jovem cristã saiu do confessionário sem experimentar a suave emoção interior da graça, cuja penetração em tantas outra ocasiões inundára sua alma de roconfortadoras claridades. [Conheço alguém assim =]] Julgou aperceber-se de que sua fé vacilava [nunca, por ler ou estudar; para mim os problemas expostos por certos autores sempre são passíveis de resolução, a fé é algo que se experimenta,  as experimentações sobrenaturais não se podem provar, se testemunha.] e, embora sentindo o desejo de avançar no saber, lastimava ter começado [muito faliar, rs, é compreensível a terrível angústia de Stella]. Recordou os inefáveis prazeres de sua primeira comunhão e acreditou ter tornado a encontrar a graça. Antes de transpôr os umbrais da igreja estava convencida de que era preferível não continuar as leituras inquietantes [seicumé Stella ;D], e que o melhor era não mais nelas pensar. [impossível, não é?]
Tomou essa resolução. Mas a luz exterior, o ar pleno, o sol de Maio, as visitas da tarde fizeram evaporar tais impressões, e quando naquela mesma noite reviu a - Aurora de um novo dia sôbre a mesinha do seu aposento azul, não se pôde conter de retomar o livro nas mãos, folheá-lo, e continuar a leitura.
Após haver exposto a história do nosso planeta, o Solitário mostrava que a Humanidade terrena, a despeito dos progressos que já fizera, ainda está em idade infantil. [Vcs não viram nada, huá, Solitário, Stella e Flammarion].

Um pausa! Só para dizer que aqui vai o trecho que escancara a imaturidade da "civilização daquele tempo, que, em minha opinião, olhando ao redor, olhando na mídia, é o mesmíssimo! Vamos lá!

Ela [a Humanidade] é material, grosseira, inconsequente e brutal. Menos dividia do que nos tempos primitivos das tribus, quando estas se mantinham constantemente em guerra de aldeia a aldeia, qual acontece ainda nas regiões da África Central; menos dividida também do que em tempos mais recentes em que o Rei da França, o Duque da Normandia e o Duque de Borgonha viviam em lutas permanentes, em que Paris se batia contra Ruão e Dijon, da mesma fórma que Florença contra Venesa, Berlim contra Francfort, Edimburgo e Dublin contra Londres, e igualmente do que nos primeiros dias da monarquia francêsa em que o Rei de Paris se batia contra o Rei de Soissons; essa pobre Humanidade está, no entando, longe ainda de despojar-se do antigo e bárbaro êrro de regionalismos, e ganhou muito pouco também em liberdade real, porque quasi todos os seus recursos são consagrados a manter certos grupos, encerrados em fronteiras artificiais e variáveis, e sentimentos de rivalidades, animosidades e rancores que a esgotam e a esterilisam. A inteligência está ainda tão embrutecida, que os povos honoram os diplomatas que, pela mentira e fraude, fizeram desencadear as guerras mais ruinosas para se cobrirem de homenagens e glórias. Ainda se vê reis e imperadores asseverando a seus súditos que a guerra é de instituição divina, e que o mais inteligente proceder consiste em derramar o sangue sôbre o altar da pátria. O militarismo, assim exagerado, vale por um crime, uma vergonha, uma loucura grosseira e malsã. Todos os governos da Europa, reunido, tem menos inteligência do que um bando de lôbos, ou, si verdadeiramente raciocinam sôbre sua própria conduta, proclamam em príncipio o roubo e o assassinato. Prefiro acreditar que são inconscientes e ´vitimasdo atavismo. Os homens são educados no porte de punhais nos bolsos para se degolarem feito brutos. Os soldados da Europa despendem doze milhões por dia, exercitando-se: doze milhões por dia, quatro bilhões quatrocentos e trinta e cinco milhões por ano, dinheiro pago pelos que trabalham. A Europa está atualmente endividada em cento e vinte um bilhões [oh! o que ele diria de hoje!] (sendo a parte da França - trinta bilhões). Tal militarismo é uma escola de ociosidade que rouba trabalhadores aos seus ofícios. Insensata e dividida, essa Humanidade terrestre. Os cães, os gatos, as toupeiras, as ostras, as cenouras, as abóboras são menos estúpidas. Os animais e as plantas lutam pela vida; os homens pugnam pela glória de ser mortos!
Ao mesmo tempo, continuava o autor, todos êsses seres vivem sem saber e sem indagar onde estão. Sua principal ocupação é o dinheiro, sem limite na aquisição, embora não o careçam porque têm a existência assegurada, ou ainda quando o despendem nas mil futilidades supérfluas em que dissipam sua existência. Uns incessantemente premidos pelas necessidades da vida material, trabalham constantemente, sem ter tempo para pensar; outros mais privilegiados na aparência, não são mais intelectuais. Ninguém procura esclarecer o Espírito, instruir-se a respeito do Universo e da Creação [olha a deixa, que eu disse! há várias como essa!]. Estão satisfeitos com a sua ignorância nativa, da qual saem por excepção. Suas impressões se limitam á superfície [!], e os escritores mais populares são os que narram em estilo imaginoso as funções do estômago e do ventre. Do cérebro, nada. A arte, o teatro, o romance,, não são inspirados por ideal algum. [!!!!] O povo mais espiritual da terra escuta e aplaude canções tão idiotas quanto grosseiras. [!!!!!³³³³] A matéria pesada e espêssa domina tudo."
Eis o que leu com seus próprios olhos, e sentia ser verdade. A Humanidade se lhe mostrava bem diferente do que lhe parecia até então. [Stella, a "donzela da corte amadurecendo^^ Quis imaginar essa história na corte do Brasil Império.]
"A Humanidade, acrescentava o Solitário, não tem mais do que um lustro de idade. Certamente não atingiu ainda a da razão, que, na criança, desperta geralmente aos sete. E como já tem mais de dez mil séculos, é altamente provavel que só atinja ao seu apogeu intelectual dentro de muitos milhões.
"O papel do pensador é o de precede-la. As almas que pensam são raras e formam uma excepção de elite, cuja felicidade consiste na pesquisa pura da Verdade e no desinteresse pelas paixões grosseiras e pelas vaidades do mundo. O sentimento religioso existe no fundo dessa indagação da Verdade. Mas o Deus pressentido pelo Pensamento é um Sêr transcendente, sublime e identificável, tão acima de nossa faculdade de compreensão quanto o infinito está acima do finito [!!! EU costumava dizer que a compreensão do Criador está para o ser humano, como fazer caber num PC 386 de 1996 todo o conteúdo simples que temos hoje, num de nossos notebooks atuais do ano de 2013!]  O homem inventou um deus antropomórfo. "Mon Dieu n'est pas le tien et je me'en glorifie. J'en adore um plus grand que tu ne comprend pas!" (Meu Deus não é o teu; disso me glorifico. Adoro um Deus maior que não compreendes).
"O Espírito reina tão pouco na Humanidade, que ela só acredita nas aparências. Não há muito tempo, todos os habitantes da Terra [calma lá, nem todos! No rolo de Jó, que faz parte das Sagradas Escrituras hebraicas, já se vê que sabia-se que a terra é redonda. E já foram encontrados mapas datados de 2 mil anos atrás, em que a mesma é representada numa esfera!] pensavam habitar numa superfície plana fixada na base do Céu e suportando o Universo. Para êles, a Terra é tudo, o Céu, nada.
"Igualmente, acreditam numa matéria visível. [Agora vem algo interessante!] Para êles um bloco de ferro é sólido, embora seja composto de moléculas invisíveis e impalpáveis que não se tocam; ignoram que o agente essencial do universo é a fôrça e não a matéria. A gravitação universal que sustenta os mundos no Espaço é invisível e imponderável; si a suprimirmos na concepção, o movimento do universo deter-se-á e a vida desaparecerá.
"O que êles denominam o mundo visível é aliás um quasi contrasenso. Na multidão de raios que o Sol envia a Terra, apenas um sobre cem se torna acessível á nossa retina e faz vibrar nosso nervo ótico. Uns vibram muito rápidamente, outros muito lentamente e o que vemos é um quasi nada em relação ao que existe. Entretanto, os nossos literatos e filósofos falam dessas impressões imcompletas e relativas qual si elas representassem o absoluto.
"Assim também com relação ao corpo humano. Vêem nêle o que a anatomia e a fisiologia permitem conhecer,e  não percebem que esse conjunto de tecidos não constitue o ser humano. A Alma é invisível. As fôrças com que a Alma age sobre o corpo e o mundo exterior são invisíveis. Procura-se explicar tudo pelo corpo visível e suas funções, e não se obtém nenhum resultado satisfatório. Daí as incompetências e as cegueiras das ciências denominadas positivas, em referência a tudo que pertence á ordem psíquica, que é, no entanto, - tudo de essencial no homem.
"Começamos a reconhecer o erro das aparências. É tempo de nos ocuparmos com a realidade. É a nova era da Ciência que se abre agora ante nosso horizonte agrandado. Vimos nascer á alvorada de um novo dia. Abramos nossas asas. Voemos na luz e no infinito.
Stella proseguiu lendo. Quer se trate de mulheres, dos reis, do povo, - para impor-se é mister agradar. E esse autor, pela originalidade, pela independência. (...) Leu ávidamente os diversos capítulos, e chegou ao que era de algum modo a conclusão e trazia por título: A libertação do Pensamento pela Astronomia."
O autor mostrava a Terra uma ilha perdida no infinito. Miríades de mundos se balançavam no Espaço, uns habitados atualmente por Humanidades análogas á nossa; outros por espécies inferiores: larvas, elementos rudimentares, monstros, animais, embriões de pensamento; ainda outros por sêres tão superiores ao homem e á mulher terrestres quanto nós os somos aos peixes do mar ou aos moluscos inconscientes, outros mais, outrora povoados, hoje desertos, cemitérios de Humanidades extintas; outros, enfim, em preparativos para as glórias do porvir. Compreendia-se assim que o nosso medíocre planeta não passa de um átomo na imensidade [imaginem eles a terra perto de Polux, ou de um Quasar, huohuhohuo], e que a nossa existência atual representa um segundo na hora da eternidade. [Como disse o Salmista: um dia para Deus é como mil anos para Deus. Ele passeia pela eternidade e nossa pequenina mente humana não pode compreender. Estamos aprisionados no Chronos, ele desfruta o Kairós. Passado, presente e futuro. Sem fim.] Os mundos sucedendo mundos, os espaços aos espaços, em todas as direções, por toda a parte aonde era possível dirigir um olhar, sem fim em qualquer sentido. [Será que o Solitário já leu o livro de Enoque? Ele descreveu tudo isso muito antes de todos. E muito mais. Séculos de séculos mais tarde, o Messias diria: "Na casa de meu Pai há muitas moradas." Eu creio que para estas moradas foram Enoque e Elias - o que foi levado por um carro de fogo.]
O centro desse infinito estava em toda a parte e a circunferência em parte alguma. Sôbre a Terra ou em Sìrio, estava-se no centro. Era possível avançar em linha reta em uma direção qualquer, com a velocidade do relâmpago, e viajar com essa velocidade durante dez mil séculos, sem mudar de lugar, sem adiantar um passo, sem se aproximar de forma alguma de limites que não existem. Um telegrama enviado hoje para as fronteiras do Espaço, jamais chegaria. E então, sôbre essa pequena Terra, ilha gigante nos raios do nosso sol, cada um se sente como que perdido, abandonado. [Ele ficaria maluco com os documentários da Discovery e BBC que mostram proporções e "viagens" pelo universo" e saber que uma sonda enviada pela Nasa para o fim da galáxia, com composições clássicas e o "endereço" da Terra só chegará aos confins de tudo em milhões, bilhões de anos.]
Emocionada por esse peso do infinito que lhe pesava sobre o coração, Stella abriu a janela que dava para os castanheiros de um grande parque. O ar estava fresco e perfumado; a noite silenciosa nêsse quarteirão deserto. A Lua, em quarto crescente, flutuava, qual pequenina barca luminosa [que poético!], sobre os vapores do horizonte ocidental, vagamente iluminado pelas luzes de Paris; Vênus e Júpiter brilhavam na constelação dos Gêmeos, acima de Castor e Polux, e as quatro estrelas do Leão pareciam no seu alinhamento mostrar ao longe, a leste, a aresta da Virgem, por cima da qual brilhavam Acturus, a constelação e as pequenas estrelas da Coroa Boreal, As estrelas mais resplandescentes cintilavam bonançosas e atraíam o olhar e o pensamento.
Com os cotovelos apoiados á janela, contemplou-as, identificando-as pelos nomes e sua imaginação vôou alto até ela. A beleza da noite, a calma atmosférica, os lumes do céu, a imensidade do Espaço, transportaram seu pensamento as altas regiões que acabara de visitar na sua leitura. Paris que dormia, os edifícios dos quais se notava algumas cúpulas escuras, a torre quadrada do convento de Oiseaux, as próprias igrejas, tudo lhe parecia cousas inferiores, terrestres e humanas [lembrei-me de Estevão, o primeiro dos mártires, cheio de emoções, dizendo aos principais sábios, sacerdotes e políticos, que o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens, como diz o profeta: O céu é o meu trono, E a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor, Ou qual é o lugar do meu repouso? Porventura não fez a minha mão todas estas coisas? E me lembrei das concepções de Aidan de Henriques ;)]. O mistério do céu estrelado arrebatou sua alma, qual um sonho divino. E pela primeira vez sentiu que a verdade pairava lá, em cima; que ninguém a encontrou cá em baixo; que as religiões são tentativas incompletas, e que si uma dentre elas pretendesse confiscar Deus - das Estrelas, seria vítima de infantil puerilidade. [Isso é bem verdade. A verdade não mora nessa ou naquela religião. Mas toda crença tem seu fundo de verdade. Surgiu de algum lugar. Todas as principais crenças do mundo relatam histórias parecidas, ocorridas em épocas iguais. Como o dilúvio, por exemplo, gigantes e até mesmo "visitas do Rei Salomão" a reinos distantes, estão registradas em outros livros sagrados que não os rolos hebraicos. Contudo, de que me adianta saber as maravilhas do Universo, física  números? Nada disso me satisfez. Uma breve história do tempo e tantas outras teorias cientificas não tem satisfeito a humanidade. Mas o Messias, o Salvador Ungido, esteve cá, a verdade encarnada, que disse tudo que ninguém havia dito, e nunca foi esquecido, por dois milênios tem espalhado pelo mundo testemunhos de satisfação e regeneração intrínseca, nas mais absurdas situações, nas mais diferente culturas. E é tão fabuloso que, embora cá embaixo, está também lá em cima, em todos os lugares. A fé, contudo, é algo grandioso demais, para mentes que não sonham além do que é visível conceber.]

Agora vem o trecho, que profundamente eu me identifiquei. 
Sou uma pessoa de muita fé, tenho sido desde que nasci. Embora questione desde meus oito ou nove anos de idade sobre questões de ciências e fé, eu jamais havia duvidado. Nem com leituras, nem na escola, nem em documentários. Diante das teorias contemporâneas  a maioria tidas por verdades incontestáveis pela maioria, eu em posse de experiencias inegáveis, ao menos para mim, sabia por colocação para a Criação, tão poderosa, em todos os meios. A evolução é fato? Houve um big bang? Logo, meu Criador quis que existíssemos por meio dela e todo o universo assim. Mas depois eu soube das teorias que as negam tanto de religiosos quanto de céticos, mas que, quem sonda o motivo, rs, a mídia nem o sistema educacional  NUNCA divulgou. Entrei nos últimos anos, estupidamente, em debates com quais, não satisfeitos com a própria vida e suas crenças (ou não crenças!) querem convencer os que as tem a qualquer custo! E, depois de uma situação muito medonha e terrivelmente triste, eu, como nossa mocinha, como a Stella, duvidei. Pela primeira vez, em 26 anos de existência, duvidei. Foi uma noite terrível. Nem como escritora, não há como explicar. Foi a pior dor que já passei. A sensação de solidão foi aterradora. Eu poderia perder meus amigos, minha família, a humanidade toda desaparecer e me ver perdida numa ilha distante, escura e assustadora, mas com a fé que sempre tive, não seria tão terrível como me foi aquela noite... O sofrimento que experimentei não tem explicação. O vazio tremendo. Horrível! Cruel!
O Matheus, que já foi ateu, e hoje é uma das pessoas de mais fé que conheço, me consolou, me amparou e me deu força, mas era pouco... pouco... Eu orei e pedi.
Depois a minha fé voltou. Ela foi devolvida e eu entendi como é terrível o vazio que experimenta que não a tem. Uma existência sem propósito, sem esperança, sem porque... Tudo isso teve de acontecer e aconteceu, para eu amar ainda mais, e dar mais valor naquele que amorosamente me criou, me cuidou e ainda tem muitas promessas guardadas para mim. Mas, vamos ao trecho!

[Stella] Sentiu sua alma elastecer-se verdadeiramente e elevar-se no Espaço, rumo das culminâncias puras do éter, e pareceu-lhe receber um novo batismo, que se tornava neófita de uma religião nova - que não tinha  nada de terrena, e, ainda, que planava nas regiões sublimes em que brilhavam as estrelas gêmeas de Castor e Polux. Depois, experimentou a sensação de estar só no mundo; de que o universo inteiro era demasiado imenso; de que o silêncio da noite estrelada era apavorante; de que Deus, inacessivel, a abandonara. Ao entusiasmo e a contemplação do céu sucedeu a emoção de uma imensidade grande demais para suportar e foi invadida por uma profunda melancolia [eu soube, o que realmente, significa a melancolia, aquela noite, como a Stella!]. E porque continuasse a contemplar as estrelas, seus olhos se velaram de lágrimas. E permaneceu muito tempo assim, de cotovelos apoiados á janela. E quando se retirou, o crescente bem tombado para a direita, já desaparecia atrás das árvores e continuava a descer na noite, levada no inexorável movimento dos astros e das cousas.

Stella é da aristocracia, rica, bela, popular, e depois de fugazmente entrar numa biblioteca e ao acaso pegar num livro para ler, de um autor desconhecido, vê todas suas crenças e ideias de vida revolvidas. Depois dessa leitura os meses passam, embora não haja seu consentimento expresso, as famílias já a consideram a noiva do Duque de Jumiéges. Jovem, belo, mais rico ainda, mais nobre ainda, e mais popular ainda. Ela começa a vê-lo com outros olhos, já não a encanta mais como antes. E a situação se deteriora cada vez mais. A cada sarau ou baile, nas conversas e declarações do "noivo" tudo que vê é vazio e frivolidade. Depois de Stella, em vão, especular ao tio, do qual subtraiu os volumes do Solitário à sua biblioteca, qual a identidade do idealizado autor, [!!!] chega a estação das viagens. Vão todos para os Pirineus, próximo a fronteira com a Espanha. Flammarion coloca as indagações da donzela, seus pensamentos pós leitura, suas considerações ante o comportamento de sua classe. Ela e os tios, Conde e Condessa de Noirmoutiers, visitam um barão, que sublimes as descrições do autor dessas paisagens. Ela passeia, vai conhecer uma aldeia espanhola, e sente um inegável prazer ante ao contraste cultural. A leitura é prazerosa por cada detalhe, cada pequeno fato. Então, ela vê uma torre. Uma torre!

"Retomaram o caminho de França, para não chegar muito avançada a noite, e a tempo também de aproveitar a brisa da tarde. E porque os cavalos subiam a passo a estrada espanhola de Portillon, nas proximidades do ponto mais elevado, que forma a fronteira, Stella assinalou, para além de uma clareira, velha torre que dominava o vasto e grandioso panorama do vale de Oran e que, iluminada pelos raios do sol poente, se destacava em vermelha sombra pela floresta. Interrogou o Barão de Castevieil:
- É a Torre do Solitário, respondeu. É habitada por um famoso original.
Esse nome - Solitário - sulcou o cérebro da jovem, qual um relâmpago.
- O senhor disse a Torre do Solitário, repetiu. De que Solitário?
- Um filósofo, um astrônomo, um sonhador. Vive ali inteiramente isolado, entre o Céu e a Terra. Sabe que estamos aqui a 1300 metros de altura? E veja, a sua Torre ainda domina bastante a eminência.
- O Solitário! repetiu por sua vez o Conde de Noirmoutiers. Escute, não é um escritor, um autor? Não tem publicado vários livros?
- O Domínio do Desconhecido, acrescentou vivamente Stella [hahaha, imaginei a cara dela], A Aurora do Novo Dia, Cosmas e muitos outros...
- Justamente, é ele. Leu então essas obras, senhorita?
- Como! exclamou Stella, o Solitário reside lá? Oh! parem a carruagem para que eu possa observar! É uma torre em ruínas! exclamou.
- Sim, replicou o Barão. Não se sabe verdadeiramente como póde alguém morar ali, exposto a todos os ventos. E no inverno não é nada divertido, senhorita; só se encontra neve...Entretanto, esse filosofo instalou um observatório munido, dizem, de excelentes instrumentos, e passa a vida estudando o céu." [*------*]
Puzeram-se novamente em caminho os excursionistas, conversando mil cousas diversas, que a alma da sonhadora não ouvia."

Se tiver alguém aí, com paciência de ler tudo isso que postei, por favor, me conta, se sou só eu, ou se a imaginação chega a ser palpável ao extremo para imaginar essa cena, com riqueza dos detalhes, até os laranjas e negros de sombras brincando no rosto de Stella enquanto a carruagem corre e ela sonda em seu coração (o coração de uma mulher é cheia de sextos sentidos e sempre se conecta a outros por sinergia de palavras mesmo escritas)?

Eu disse que havia grifado muito! E nem transcrevi tudo. Hahahah.
Daqui a pouco colo o livro inteiro. E ainda não li um terço!

Bem, por hoje sem mais, que quero ir ler o próximo capítulo: Crítica e Discussão, e ficar imaginando como será a primeira vez em que eles vão se encontrar.





Comentários

  1. Aline, uau....estou sem palavras, ou melhor, precisarei reler a parte do livro para entender melhor.
    O que escreveu sobre sua experiência, de vazio, sofrimento e fé...é muito tocante, e nos faz refletir a importância de olharmos para o alto.
    Quanto ao escritor, foi um cientista espiritualista e espirituoso. O que ele diz
    sobre a humanidade...tantas coisas.
    Como escrevi noutro dia, somos só um "pó" neste universo incrível e as preocupações vãs aumentam.
    Realmente sempre existiu e existirá o duelo da ciência e da religião....e o que fica é a fé.
    E como ele escreveu:
    "Vimos nascer á alvorada de um novo dia. Abramos nossas asas. Voemos na luz e no infinito."
    Muito lindo tudo.
    Beijo e até mais.
    Denise L.

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