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A Epopeia de Massada



por Erico Verissimo 

O drama de Massada começou no ano 66 da Era Cristã, quando na Judéia a resistência dos judeus ao jugo romano tomava o caráter de guerra revolucionária. Tendo compreendido a importância deste penhasco como fortaleza natural de alto valor estratégico, um grupo de hebreus comandado por Menachen Ben Yehuda assaltou-o e conquistou-o, liquidando a guarnição romana que aqui se mantinha desde os tempos de Herodes, o Grande.

No ano de 67 Nero incubiu Vespasiano de reprimir a revolta dos judeus. Em 68 este comandante havia já completado a conquista da Galiléia, da Transjordânia e do litoral da Judéia. Os judeus, porém, haviam reconquistado Jerusalém, instituindo um governo nacional, que proclamou os objetivos de sua guerra. Eram contra o imperialismo e colonialismo de Roma, contra a idolatria e tráfico de escravos. Inspirados na justiça de Jeová, o Deus único, queriam estabelecer em sua terra um regime em que se respeitasse a dignidade tanto moral como física do homem.

Morto Nero, Vespasiano tomou a Roma, onde foi coroado imperador, deixando seu filho Tito no comando das forças romanas que ocupavam a Judéia. Como é sabido, no de 70, após um cerco de cinco meses, as hostes de Tito recoquistaram e saquearam Jerusalém, ateando fogo ao Segundo Templo. Para escaparem ao massacre ou à escravidão, muitos judeus fugiram para o Deserto da Judéia e alguns deles, em companhia de suas famílias, buscaram refúgio na fortaleza de Massada, então sob o comando de Eliezer Ben Jair.

Senhores agora de toda a Palestina, os romanos poderiam tranquilamente permitir que os defensores de Massada, imobilizados no alto de seu rochedo, se cozessem no próprio caldo, sob o sol do deserto. Era-lhes porém incômoda a idéia de que novecentos e sessenta e sete pessoas pertencentes ao partido religioso dos zelotes – homens, mulheres e crianças – continuassem livres, recusando submeter-se à autoridade do mais podereso império do mundo. Ademais, consideravam um perigo deixar vivo aquele foco de insurreição e esperança. Era preciso consquistar Massada!

Com oito acampamentos fortificados, os soldados romanos estabeleceram metodicamente o cerco da fortaleza dos rebeldes. O sítio durou vários anos. O ataque final começou em fins de 72 e foi levado a cabo pela Décima Legião romana, forte de dez a quinze mil homens.

O que se sabe desse dramático episódio nos é narrado de maneira magnífica por Flavius Josephus no seu livro A Guerra dos Judeus. Tendo perdido toda a esperança de continuar a resistência e vendo que os romanos estavam prestes a derrubar e transpor as muralhas de Massada, Eliezer Ben Jair reuniu seus companheiros e falou-lhes assim: Nós que nunca pudemos suportar nem mesmo a menor das servidões, não nos devemos desonrar com uma escravidão que significará sem dúvida o mais terrível sofrimento, se cairmos nas mãos dos romanos. Penso que Deus nos faz um favor particular colocando-nos numa posição de morrer como homens livres.

Segundo ainda Flavius Josephus, todos os homens de Massada aceitaram e cumpriram o pacto de morte que seu chefe lhes propôs. Cada um deles liquidou com as próprias mãos sua mulher e seus filhos. Depois amontoaram as coisas que possuíam e atearam-lhes fogo. Dez deles foram sorteados para executar os demais companheiros. Cada homem deitou-se ao lado do cadáver da esposa e dos filhos, abraçou-se com eles e ofereceu a garganta aos executores. Os dez sobreviventes então liquidaram-se a si: o nono matou o décimo, o oitavo matou o nono e assim por diante, até que restou um único homem no topo de Massada. E essa personagem de tragédia grega se pôs a vaguear por entre os corpos, para verificar se em algum deles restava ainda algum vestígio de vida, caso em que ela lhe daria o golpe de misericórdia. Terminada a horrenda missão, o sobrevivente incendiou o palácio da fortaleza e por fim suicidou-se, tombando ao lado dos membros de sua família.

Penso nessas nove centenas de cadáveres sobre a rocha manchada de sangue, ao sol cru do deserto. E imagino que o silêncio desses mortos deva ter pesado como uma derrota no espírito de Flavius Silva, o procurador romano na Judéia.

Texto extraído de Israel em Abril, 1966
(Nissan 11, 5726) Página 191

Tenho planos de inaugurar alguns marcadores mais, são muitas novas ideias.
Quero começar com esse texto, do Erico. :) Vou postar alguns pequenos textos ou trecho de obras que me marcaram.
Eu me emocionei muito quando li esse texto, enquanto devorava seu relato da viagem que escreveu da Pesach de 1966 em Israel, a convite do governo daquele país.
O que você faria para impedir de ser escavizado, e que sua família fosse violentada, e escravizada ou morta?
Quantas misérias mais, e nenhuma é pior, gera mais horror, que a guerra entre povos, a humanidade terá de enfrentar até que venha o dia da justiça?


Aline N. T. -- 20h15min

Comentários

  1. Aline, querida, iniciei por esses dias a revisão de seu livro. Vou lentamente, mas vou... mergulhando na suavidade de seu texto. Deus abençoe os romancistas e os universos que se criam entre as páginas que percorremos com ansiedade. Bjss

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  2. Ahhhh, que texto tão reflexivo!
    Adorei a escolha, não poderia ser mais perfeita para iniciar este novo marcador no blog :D
    Erico sempre maravilhoso e você com sua costumeira sensibilidade encantadora *-*

    Beijinhos :*


    P.S: Saudade sem dimensão de Fabrício e Amélia!

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