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Rute (da Cachoeira)

Entre tantas ideias... pouco tempo para escrevê-las.
A Sarah quer brincar, o bebê chora, quer colinho.
Vota às aulas, fraldas para trocar, beijinhos para dar, apoio necessitado, almoço e arrumações por fazer, nunca termino nada, quase nada e vejo (feliz) projetar-se no chão as sombras da Casa de Pedra e Palavra.


- Vamos plantar uma bela araucáuria em frente! - eu determinei, pois gostaria, um pouco sonhadora, um pouco egoísta, mas muito romântica, que essa casa durasse para todo o sempre.
- Vamos. - ele concordou. Mas, duas... elas precisam estar juntas e darão fruto.
Eu já posso ver, diante de meus olhos, as gralhas azuis a pousarem nos galhos negros dos pinheirinhos-do-paraná, a recortarem o poente, o lindo sol que se vai deitar por detrás da casa...


A linda araucária que tinha aqui em casa. 
Houve época que havia uma araucária plantada aqui em casa. Quem foi que a derrubou?
Eu não sei. Há tanta coisa que eu não sei. Mas é cada felicidade particular, um presente, quando diante de meus olhos elas se desvelam.

Em breve eu vou conhecer no Sítio da Cachoeira esse lugar terno onde todos nasceram, e desses todos, todos nós que por aí estamos espalhados, a D. Rute. E eu, aqui de volta, investigando paciente, passiva, e também escarafunchadora as relíquias que guarda cada cabeça que daí veio.

Fiquei tão feliz com o telefonema da Rute, irmã da Raquel, da Bernadete, filhas de Alexandre e Dasda, afilhada de meu avô David. "E claro que ela haveria de querer conhecer mais uma parente, filha da prima querida, minha mãe, Rosemary." Há! Ela já me conheceu, no velório do meu avô, eu estava no ventre de minha mãe... Foi ali que ela me viu, é verdade. Eu a vi. Minhas janelas, eram os olhos doces de minha mãe.

Há uns dias eu pesquisava para meu novo romance, que em breve espero publicar, a respeito do barão e baronesa do Serro Azul, ilustres, estimadas figuras desse estado. Soube de uma carta de indignação que a baronesa enviara as autoridades de Curitiba, por conta do vil assassínio, a sumária execução de seu esposo, quando da Revolução Federalista de 1894, aquela mesma sobre a qual Erico Verissimo narrou, sitiando os Cambarás no sobrado, e estava emocionada da leitura, quando a deixei para outra hora, pois eu precisava cuidar da Raquel. Me ocorreu a conversa que tive há mais de um ano com a D. Ruth Garbi, minha querida amiga-parente, alma-irmã. 
Edelweiss
Ela contara que quando minha trisavó, bisavó dela, Marianna Slewinska Roesler e o esposo, José Roesler vieram da Austria para o Brasil, para Curitiba, faleceram e deixaram 3 filhos. Um menino e duas meninas. O menino não sabe quem adotou, já minha bisavó foi adotada pela família Hauer, de Curitiba, que depois lhe deu dote e vestido de casamento, quando ela desposou André Nogosek, filho de polacos residentes da colônia Zacarias, em São José dos Pinhais, e foi viver na Cachoeira. Aurélia, a outra menina, ficou com uma família de poloneses em Curitiba, até que foi adotada por ninguém menos que o barão e a baronesa de Serro Azul. Quando ele foi preso ela levava comida para ele e que foi muito, muito triste o fato de seu bárbaro assassinato na Serra do Mar, mais precisamente, Morretes. Quem lhe deu dote e vestido de casamento fora a própria baronesa, mulher na qual já pude encontrar uma coragem formidável, pelas primeiras poucas linhas que li de sua carta (e pretendo continuar a leitura).
Será que minha querida bisavó Anna conheceu a baronesa? Pois sei que ela e a irmã não perderam o contato como se pode ver no lindo retrato que tenho das duas (D. Ruth me presenteou com essa preciosidade), numa épica pose para o "photo Curityba".

Antes de pensar em tudo isso a respeito do barão e sua triste morte na Serra, sua esposa exilada num anexo de sua própria casa pelos inimigos duma revolução que ainda desconheço os pormenores, eu a pensar na minha deslumbrada Serra da Estrela fictícia, mas tão verdadeira, como poderá testemunhar a madrinha deste blog, Ialy, com a qual troco mensagens inspiradoras do que ando matutando para as verdadeiras novelas que crio aqui na minha cabeça muito viajadora. Que aventuras viverá nela Fabrício, que já vive, existe em letras, e sonha com a bela Amélia, resguardada sublime no casarão de Crisóstomo?

Eu quero muito escrever.
Preciso escrever!
Mas antes, percebi, preciso sair a campo. Eu nem creio que vou pisar na terra da Cachoeira onde parte de mim foi concebida! Tomara faça logo um lindo dia de sol. Eu mal posso esperar para ver o sorriso que desconheço dessa outra Rute a quem eu tanto queria e que, também, me ligou tão interessada em mim, antes que houvesse tempo e modo de eu procurar-lhe.

Colcha de Retalhos

Tenho de ir a campo,
no campo, Cachoeira, São José,
verei a essa Rute, irmã de Raquel,
afilhada do vovô.

Tenho de ir a campo,
em Umbará,
Lúcia mui lúcida,
inda vive lá, 
o ventre aberto da Anna
tão viva como outrora,
Lúcia, lúcida
o seu nome, tão lindo,
foi um bom presságio
ela se avança no tempo
como a bisa, que me fascina.
única deles todos, os irmãos,
e as irmãs, eles, da Anna e do André.

Tenho de ir a campo
a saudade há tempo fala, grita alto,
D. Ruth, tão viva,
tão presente
em todo o meu pensamento
em todos os meus pensamentos.

Todas as histórias que eu leio
nos sorrisos delas todas!

Tudo começa
na chama de um pensar...
"A vovó cozinhava para mim..."
disse a Helena, que aproximou-me elas todas,
elas todas enfim!
Agora vou ao campo
em busca dos fiapos sem fim
e fiarei a linha de coser
essa colcha, de um romance estopim.


Aline Negosseki Teixeira -- 20h04min




Comentários

  1. Ai que história!
    Já até parece o romance *-* mas não é assim que acontece? Realidade se misturando com ficção, casamento perfeito :D

    Chega deu vontade de sair pesquisando meus antepassados também.
    Desejo que você pise logo em Cachoeira e aproveite cada segundinho com D. Rute. Uma parte do resultado desse dia vamos conferir no romance, outras tantas ficarão para sempre com você :)

    Abraço apertado querida!
    Leve e traga ótimas inspirações na mala, pois só para não perder o costume, já estou muito ansiosa por maaaais :*

    ResponderExcluir
  2. Realmente uma bela história... a vida é repleta de histórias maravilhosas, só que muitas vezes nos falta a sensibilidade do olhar para percebê-las.

    Eu sou fã de carteirinha do Barão, desde criança (tinha dez anos quando meu pai me levou passear de trem e eu fiquei procurando a cruz do local do seu assassinato!). Primeiro era apenas o encantamento heróico, mas quanto mais conheço sobre sua vida, mais o admiro. O mundo sempre necessitou de pessoas como ele, pena que sejam tão poucas.

    Beijos,
    Cris

    ResponderExcluir

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