
Você precisa LER, meu querido, se não quiser parar,se não quiser se enganar, nem ser enganado. — disse a velha sábia,
antes de morrer, analfabeta, ao seu bisneto preferido.
Como a senhora sabe, bisa? A senhora não lê...
Pensa que não, menino?
Ler é o que tenho feito por toda minha vida:
a fisionomia das gentes,
o clima, os sentimentos dos meus,
a confiança que inspiram, ou não.
Os rumos da política que passa na tv,
as picardias dos grandes,
e o sofrimento dos pequenos
no jornal que teu bisavô lia,
ele nunca soube, mas ler lábios,
é um dom que desenvolvi,
curiosa para saber que é aquelas letrinhas negras,
que nunca entendi,
tinham a revelar.
O locutor do rádio tentando comover,
tentando motivar,
os gestos do pregador no templo,
os gestos da moça solteira
a procurar pretendente,
a pergunta despretensiosa de menino matreiro,
tudo, tudo, tudo
eu li,
e só me arrependo
de não ter ido às classes de alfabetização para jovens e adultos
da D. Sara Ferreira em 1956
— a vida teria sido bem melhor.
O vô Dito, que sabia ler, — devolveu o garoto —
e lia um montããão de livros da biblioteca do prefeito
disse que ler dá sofrimento no coração!
Sim, pode ser,
Mas ainda tenho pra mim, querido,
melhor a verdade que machuca,
que as mentiras dos olhos das gentes
que enganam!
Mas, bisa, livros são caros!
papai e mamãe não têm dinheiro para comprar!
Por isso inventaram, meu neto, bibliotecas municipais.
Vózinha, com todo respeito,
Fica tão longe!!! Não tenho dinheiro para o ônibus!!!
Sempre se tem um vizinho, um amigo,
um parente, qualquer um, que goste de ler!
Quando o papel parar de falar, olhe as pedras,
as árvores, os montes,
olhe os bondes,
as placas sob as pontes,
os muros, o grito dos ambulantes,
olhe as gentes, meu filho, faça metas
siga-as, sim, ouça a bisa, siga tuas metas!
Jamais desista, até se canse, é compreensível!
Mas, por favor, não desista!
E, por favor, prometa para a boa avó aqui,
que vai ler, que vai ler, que vai ler,
mas, jamais, achar que sabe demais,
certo que deve buscar, buscar muito mais.
Eu te quero livre, mesmo quando cativo,
meu bem!
Liberdade, liberdade, liberdade!
Não importa que seja do lixo,
ou da mais elegante livraria...
De terno ou em andrajos,
prometa que vai ler, vai analisar,
e obedecer com a bondade de seu coração!
Eu prometo, vózinha! — O menino afirmou convicto da promessa
e, carinhoso e firme, abraçou a bisavó!
Ela olhou os cabelos castanhos no bisneto
e, expirou, pondo fim a uma odisseia de 114 anos
que empreendeu nessa terra.
E o neto, um dia escritor, sempre se lembraria
do amor, tão grande da boa bisa,
e do modo aflito que ela lhe arrancou aquela promessa, quando moribunda
e falecera em seus frágeis bracinhos de 9 anos.
Mas, depois que ele entendeu cada palavra da cartilha
e entrou nos mundos dos autores infantis daquelas obras
(portais em páginas amareladas!)
que ela lhe legara como herança,
ele soube,
não era sacrifício algum!
E jamais seria!
Aline N. T. -- 15h01min
Muito lindo o texto Aline, Parabéns!
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