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Uma Pérola

O céu brilhava
azul, rútilo, lindo,
a perfeição!

Dentro de casa o calor era tanto que pareceu
muito apetecível esticar sobre o mato verde
o edredom...

E espreguiçar a morosidade
o mal estar
a torpeza que a alta temperatura do verão
causava na gestante avançada
nos meses de sua espera.

A filha adorou,
havia sombra fresca sobre a caixa de areia
havia uma brisa fresca do abençoado Sul
a brincar nos galhos da jabuticabeira,
nos galhos da amoreira
(quem planta uma árvore amou os descendentes que não conheceria!)

Anna Carolina refestelou-se
e virando de cá e lá
sorrindo pelas formas engraçadas que as nuvens branquinhas
formavam no céu
sorria no saborear do momento.

Raquel brincava dentro de si!
Feliz, pois se a mãe se sentia bem,
ela também não sofria no espaço limitado.

Anna Carolina virava-se de um lado a outro
gostando da frescura que experimentava.
A betoneira rugia, alto,
talvez fosse incômoda para alguém!
Para ela não.
Não a impedia de ouvir a canção do vento,
não a impedia de saber que sua companhia,
mesmo que ali há tantos metros
agradava e desvanecia a solidão
de José Vítor - ele construía o sonho deles!
O sonho primeiro.

Depois que se dissiparam as formas de helicóptero,
almofadões, e outras coisas sem definição das nuvens,
ela pensou:
que poderia haver depois do céu
no pensamento humano
caso a noite não fosse conhecida
e não pudessem ser alcançadas tais nuvens, tal firmamento
e não se pudesse espiar pela janela do planeta
o universo majestoso que nos espreita?

Pai Eterno - ela iniciou uma oração
esse mundo é tão lindo - observou sentindo
a brisa fresca e doce beijar sua pele até pouco cheia de calores no interior do lar
é tão gostoso! - pensava olhando as flores da jabuticabeira bem acima de seus olhos -
cheio de distrações maravilhosas
- as codornas cantava perto dali, os pássaros arrulhando sobre as copas das árvores
no seu inconsciente, pensava na água doce para beber com a qual o marido
matou a sede na mangueira que jorrava num tonel
o vento canta na condição perfeita para a vida
o temperatura exata, a gravidade, os elementos naturais
que garantem minha vida, veja só!
que engenhosidade os veios, nervuras, filamentos dessa pequenina folha
e esse perfeito momento
de silenciosa comunhão familiar...
Poliana enchia com água o baldinho e criava a semelhança de seu Criador
belas mirabolâncias com areia. -
Obrigada, meu Pai, por cuidar de mim e eu estar aqui, exatamente agora
assim...
Gostaria de estar aí, ir ao teu encontro, na presença da eternidade
mas enquanto não é apropriado,
simplesmente e com toda minha alma, obrigada!
Pelo mundo perfeito que planejou e executou,
onde o que estraga é tão somente a falta de amor
que há de uns para com os outros.
Que bom que cuidas de nós!
E não permita nunca que eu me entristeça
pelas coisas tolas que "eles" insistem em dizer serem tão importantes,
e que não passam de incômodos que afligem a carne e o espírito.
Que eu seja sempre, sempre agradecida,
que eu receba tudo que me der dando graças
que cada momento, sim, cada momento do presente
seja um suco delicioso e puro de uva que eu deguste sem sofrer pelo ontem
sem temer o amanhã...
Não permita que jamais qualquer dúvida floresça em mim
pois as obras de tuas maravilhosas mãos já me mostraram
que és um Pai amoroso, que zela e cuida
ama, sustenta e envolve com afetos e emoções.

Pai faze-me a cada dia sempre animada e obediente,
mais sábia que conhecedora,
mais simples, mais simples, mais simples...
Uma mulher
com carne e ossos,
mas cheia do espírito celestial -
sempre animada e obediente
ao amor.

Obrigada Pai de amor - onde eu encontraria outro
que me deixasse tão perto, tão a vontade? Que me criasse
em tanta justiça? -
por essa tarde, por esse frescor, por essa liberdade
por nunca ter-me deixado só!

Anna Carolina...
Sempre tão cheia de lembranças!

O sol ainda brilhava quando ela terminou a oração,
a filha ainda brincava,
o marido ainda trabalhava
e ela ainda estava agradecida por tudo de maravilhoso
que seu Pai lhe dera - depois de tantas incertezas e sofrimentos

Tudo era perfeito, agradável, inexplicável -
mas não hesitaria em deixar tudo para trás
quando - quem sabe, a qualquer momento? -
os céus se abrissem e eles vissem a glória
que os chamava:
um cordeiro muito alvo e terno,
forte e invencível, a lhes oferecer uma pérola
única, perfeita, de validade eterna.
Por essa pérola,
não hesitariam em deixar tudo que conheceram até
então para ir recebê-la!
De graça a receberiam daquele
amoroso cordeiro!


Aline N. T. -- 17h47min

Amém

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