Tinha sido sempre uma boa filha.
Fora as normais mudanças de humor que a puberdade e a imaturidade causam na adolescência, ela nunca dera dera nenhum desgosto significativo para sua mãe.
Ela amava tanto sua mãe, que naquelas épocas que ainda não tinha sua família, desejara falecer, num hipotético dia vindouro, antes dela, para não ter de padecer o sofrimento da sua ausência. Depois, bem depois, quando se tornou mãe, compreendeu que era uma dor muito maior perder um filho ou filha, e imaginou o que sua mãe sentiria, casso fosse assim, e, por isso, esqueceu esse temor tão comum na infância.
Sua mãe era bem doce, disponível, cheia de sabedorias as quais a filha apreendia bem, guardando-as no relicário de seu coração quais pérolas únicas, raras.
O cheiro dela era tão delicioso, o modo que sorria tão cativante e o afeto que despertava tão imenso que o sonho dessa filha era morar ao lado de sua casa, no quintal quem sabe. O mais próxima possível. Tinha seu quarto, mas dormia mesmo no calor do lombo da progenitora, numa boa canseira de conversas cheias de sorrisos ou profundidades as quais jamais deparou-se em igual. Até o dia de seu casamento, o quarto dessa filha era um mero enfeite, lugar de guarda de matéria.
Depois que se casou, e quando esperava a netinha tão querida dessa avó, ia todos os dias comer o almoço bom que a mãe fazia com amor e dormia o gostoso e abandonado sono da tarde naquelas preciosas costelas, embalada pela voz aveludada que fazia planos e ensinava.
Muita coisa aconteceu depois. Maravilhosas, doloridas, tantas, tantas...
Os anos trouxeram o futuro que chega nos resvalar da continuidade dos dias.
O bebê adorado da vovó crescia, doce netinha, e, distante dela, ansiava por uma companheira, uma amiga, uma coisinha terna, uma filhotinha. Queria uma irmã. Ela ajoelhava-se e pedia ao Criador, que lhe concedesse uma sementinha que fosse abrigada no ventre de sua mãe e, um dia, seu desejo foi atendido.
Já houvera tantas saudades, tantas saudades... Enfim um consolo! Não seria o motivo perfeito para o regresso daquela amada que partira para onde as aves não gorjeiam como cá? Sim! Era certo que isso aconteceria, cada dia, cada semana, os planos, as providências. Mas, quem pode compreender o propósito das folhas caírem das árvores? Nenhuma cairá se não for pela vontade d'Aquele que as criou.
As situações já tinham ensinado a filha a não depender do que a mãe fazia por ela. As situações muitas vezes são doloridas, mas são para o crescimento interno e externo de um filho. É dolorido como a morte, mas útil como o trabalho.
O Pai do céu abençoou, e em toda sua compaixão, compensou a filha por tantas coisas que o vil livre arbítrio de alguns lhe fizeram. Como explicar? Os detalhes perdidos ofuscariam o fabuloso desnovelar da história. Comparável ao amor sem igual da mãe pela filha, havia apenas a do esposo por ela.
Contudo, pessoas são insubstituíveis. A sensibilidade de quem sentiu uma falta na carne e na alma, sabe disso. A presença do esposa a enchia de plenitude, a ausência da mãe a conturbava e sangrava suas emoções. Pessoas não são substituíveis.
E, então, as solicitudes da vida nos fazem fraquejar, sofrer.
Uma barriga de muitos meses de gestação, os sentimentos controversos exacerbados pelo efeito dos hormônios e do mistério de outra vida, contraditoriamente interligada e individual, sendo criada dentro de si causam as mais impressionantes reações. Só quem as vive pode sabê-lo.
Por mais que uma pessoa compreenda que é certo que a vida contém aflição e se console nas maravilhas que o Criador lhe dá, por vezes ela se entrega a sentimentos humanos, frutos da carne, causadores de tanto sofrimento.
Ela queria sua mãe, que queria cuidar dela e de seus sintomas que a enchiam de carência e fraqueza. E havia quem não permitisse. Como descrever a injustiça? Senti-la é mais que o suficiente para saber a dor que ela causa. Sente-se, por vezes, presa com ela, nessa cadeia aparentemente eterna. Quem pode compreender como se ligam dois seres que estão ligados, posto que um foi formado dentro do outro? Soma-se mais. As solicitudes da vida causam canseira física, mental. As tarefas se acumulam. Já não é possível completar os intentos das necessidades que se impõem. Os dias são implacáveis. O calor atormenta. Ferve o ânimo. O esposo, tão querido, faz o que está ao alcance para tornar tudo mais fácil, justo. Porém, algumas coisas escapam por entre os dedos. Entraves emocionais não permitem que a alegria tão grande que, em contraste a difícil situação, escorrem pelas fresta do lar, seja completa em cem por cento.
Num dia terrível tudo culmina.
A fúria vence em lugar de todos os aprendizados de mansidão e longanimidade.
A despeito da fraqueza, do peso no ventre, as roupas precisam ser estendidas, a louça lavada, a comida feita, o dia superado e ela ergue-se na raiva incalculada da sensação de injustiçada e vai lá fora para estender as roupas. Pragueja as injustiças. As lembranças perdoadas de um passado remoto voltam com a fúria de uma catarata selvagem. Ela sofre. Pragueja. O esposo faz o possível para acalmá-la, para aliviar o "peso" duplo que ela carrega. Um peso tão grande que ela insiste em carregar vez por outra. Ele é tão amigo e gentil. Mas os olhos dela estão nublados, a dor torna sua percepção deficiente.
De seus lábios discorrem um vendaval. Ela não está conformada com a injustiça.
E, por conta disso, não consegue, em sua cegueira de angustia, enxergar o arco-íris que seu Pai há muito lhe dedicou. Sofre o esposo, sentindo-se sem saída, sem meios de aliviar tudo aquilo, ajuda-a na tarefa de pendurar as roupas e diz verdades que ela ouve, mas não escuta.
Havia sob o mato, escondida uma madeira e um prego enferrujado o qual ela em seus caminhares confusos até a bacia de roupas, fincou o pé e o grito escapou estridente, sofrendo duplamente agora: na alma e na carne. O sangue jorra do buraco que ficou e o marido aproxima-se ligeiro, com desespero. Aflito, diz que ela não poderá tomar vacina, o bebê, a dor... ai, ai, ai! As lágrimas femininas. Alma e carne feridas. A providência nem é refletida, é instantânea. Sua boca se aproxima do pé da amada, que tenta impedi-lo. Ele ignora, ela teima, objeta o fato de o que ele pretende ser nojento. Ele mal escuta e, arrancando-lhe o calçado, encosta os lábios em seu ferimento e suga qualquer coisa que possa ser maligna à saúde daquele ser que ele sabe, foi tirada da sua própria costela, certa vez, milênios atrás. Não sobra nada. Apenas a ordem que ela vá fazer a assepsia devida na pequena ferida que já não dói.
Tudo passou.
Ela caminha para casa e, sob o olhar preocupado da filha, lava o machucado com álcool experimentando, agora, uma dor boa. A dor do verdadeiro amor.
A despeito de tocas as coisas, todas as injustiças que aqueles deficientes de amor causam, ela experimenta o que é a misericórdia.
Ouve a velha e boa voz falar dentro de sua mente:
- Não vê como te amo? Como sempre cuidei de você? É assim que eu cuido daqueles a quem amo. Dando-lhes amor.
Ela conhece aquela voz muito bem e sabe, que ninguém a arrebatará dEle.
A revolta desaparece do coração, muitos diriam, como por mágica. Mas não é. É revelação. Às vezes, é de dor que precisamos para enxergar. Às vezes, o colírio necessário para que vejamos é a compaixão.
Diante do amor, da compaixão o resto se acaba, desvanece, desaparece... restando a gratidão que nunca será o suficiente.
A pequena ferida no meu pé, jamais poderá ser comparada àquela chaga que o Salvador recebeu, suportou e perpetuamente levará em si, por amor tão grande de mim, de nós. Mas foi um mínimo, do ínfimo, do menor reflexo do que Ele sentiu para que hoje eu fosse habitante da luz, liberta de minhas próprias prisões.
Tudo que eu peço é que esse Pai amoroso, presente, Salvador justo e bondoso me ensine como a amar assim. No repente da situação, e na terrível tortura que a distância impõem.
Aline N. T. -- 15h20min
Saudade de suas postagens!
ResponderExcluirMas sei que está ocupadíssima, principalmente agora com a chegada da Raquel.
Lindo texto, cheio de reflexões para mim...
Acho que esse trecho de Erico Verissimo resume um pouco do que eu gostaria de dizer.
Beijos querida.
"Olha. Os grandes arranha-céus têm a capacidade de oscilar com o vento... sabias? Pois é. Se não oscilassem viriam abaixo. Assim é a fé. Uma fé dura e inflexível pode transformar-se em fanatismo ou então quebrar-se. A fé que se verga como um junco quando passam as ventanias, essa resiste intata. Portanto, não te preocupes. Continua a duvidar. Deus está acostumado a essas nossas fraquezas.” -
(Irmão Zeca no Diário de Silvia) - O Arquipélago v.3.
Que linda postagem Aline e só hoje eu vi.
ResponderExcluirAmor, amor, a maior e mais bela lição que o Cristo ensinou. Sem preconceitos, sem templos, apenas sentimento, compreensão, humiladade e luz. Super beijo!!!
Com certeza...
ResponderExcluirCom certeza...
Apenas e completamente o mais puro amor!
bjos