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Aquarela - Hortênsias

Alguém aí já reparou que adoro artes? E fazer minhas próprias artes? Mesmo que amadoras sejam...
E alguém aí já reparou que amo hortênsias? Só que eu não amo as hortênsias. Eu amo quem as ama.
Na verdade a flor que eu amo é o girassol.






Hortênsias, Aquarela, Aline Negosseki Teixeira, 18.09.2011

No início de O Último Baile do Império se descreve uns aforismos dessas flores.
Para mim são cheias de significados.
Outro dia falarei dos amados círculos cáusticos, girassóis.
Sabe quando você ama alguém, e não pode estar perto dessa pessoa, então se rodeia das coisas que sabe que ela gosta como se, assim, a trouxesse mesmo para perto de você?

É o meu caso com as hortênsias.

Vou contar uma história.

Era uma vez uma garota que quando era pequena via sua mãe pintar em tecido e morria de vontade de pintar também. Mas ela não sabia e tinha medo de estragar os materiais. E sua mãe adorava hortênsias. Ela gostava de pintá-las em lindas toalhas de mesa... vivia riscando-as pelos cadernos, e pequenos papeis quando falava ao telefone.
Essa mãe tinha amado muito o pai dessa garota. No dia que eles paqueram (era assim naqueles tempos) com aqueles olhar fulminante na escola, pela primeira vez, ela tinha hortênsias enfeitando seus cabelos, presas em sua orelha. Ele se apaixonou e eles tiveram uma linda filha, a garota.
O relacionamento acabou, houveram perdas e feridas emocionais. Não se sabe quem sofreu mais. A mãe, ou a garota. Mas talvez tenha sido isso que tornou o laço entre eleas inigualável. Impossível de ser quebrado. E ela sempre pedia a mãe: "Conte sobre o dia em que conheceu meu pai?" E ela contava, todas as vezes, como se fosse a primeira vez.
As hortênsias, que a mãe tanto gostava, tornou-se quase seu símbolo aos olhos da filha. Aquela era uma mulher muito feminina e doce. Sua cor favorita era o lilás. A cor das hortênsias.
A garota crescia tentando pintar e não conseguia. Odiava tudo que fazia em se falando de tintas e pincéis.
A garota encontrou o amor de sua vida. E mãe desse amor era muito meiga como a mãe da garota. "O que ela gostaria de ganhar de natal, meu filho?" A garota ganhou a cesta maravilhosa, decorada de fitas, laços e flores, um caprichoso trabalho das próprias mãos da mãe do amor-de-sua-vida. Ali dentro havia telas, pinceis variados de muita qualidade, dezenas de cores de tinta óleo, materiais outros de pintura, básicos como: secante, óleo de linhaça, terebintina, carvão e até uma bela paleta de porcelana. Quem poderia descrever a alegria da garota? Foi muito especial. Um presenta para toda a vida. Ela começou suas tentativas em pintar. Ganhou da mãe umas revistas de pintura. Já tinha 16 anos mas... Tentava desde os 5... Mas... Mas nada. Tudo ficava carregado, escuro, sem traço. A mãe pintou uma tela, um dia. Um vaso caramelos com... hortênsias. A filha ardeu querendo conseguir também. Até que a mãe, num ato de extremo amor, assistindo o afã da garota em querer pintar, cumpriu a antiga promessa. Matriculou-a num curso não muito distante da casa delas. O zeloso namorado ia junto com ela, todas as quintas e ficava-a assistindo ter aulas. É que na escola de artes havia um curso de história em quadrinhos que, basicamente, era frequentado só por rapazes e ele era muito, muito ciumento. A garota fez uma amiga, a professora de pintura. Era sensível e a fez descobrir que o que a garota  detestava em sua pintura era o fato dela ser chapada e escura e lhe ensinou técnicas, maneiras de aprender a ver e localizar o traço. De por em prática o que "via" em sua mente. A professora desenterrou de dentro da garota o talento, e o namorado, com a cabeça bem exata, posto que cursasse engenharia, dava seus palpites de proporção, espaço... Havia os chás deliciosos com biscoito no meio da tarde e as conversas descontraídas. Quando a garota pintou a primeira tela ficou indecisa. Mas, afinal, deu naquele dia das mães a linda marinha para a sogra querida que muito contribuiu para o desenterrar do talento. A garota nem acreditou que ela mesma pintara a pela marinha... O próximo foram margaridas que se esparravam sobre uma mesa. Eram brancas e o fundo em cores quentes que ia do vermelho vivo, ao laranja, vinho e uns claros que constratavam. Dedicou-o à mãe. Só então, foi pintar algo para si, belos girassóis amarelos, imensos, que punham fogo belamente na tela. A mãe o quis para si, como todos os outros que vieram depois até que a filha saísse de casa. E depois também.
Um dia eles, a garota e o amor-de-sua-vida, se casaram e muitas outras coisas aconteceram, como a faculdade e a casa para cuidar, e a garota não pode mais frequentar o curso. Ela continuou pintando... e sentia falta da professora, mas o contato havia se perdido. Ficou na sala de jantar o quadro da mestra como uma lembrança amorosa. Quando sua primeira filha nasceu não pintou mais. Não havia mais tempo. Uma vez até tentou. Mas aqueles dedinhos preciosos futricaram a tela (que leva mesmo anos para secar) e deixou sua marca por toda a casa.
O tempo passou ainda mais e a garota, já uma mulher se apaixonou por outra técnica de pintura: a aquarela. Sempre havia gostado, mas nunca tinha ousado. Como agora vivesse na era do compartilhamento mundial de vídeos (experiências) ela assistia um sem fim de outros apaixonados pintando paisagens e flores. Ganhou do-amor-da-vida, de aniversário, um estojo profissional de aquarela e ficava olhando para ele, com medo e cheia de vontade de tentar. Depois de uns meses de planejamento, arriscou e amou já na primeira tentativa. Não que tivesse ficado nada profissional. Mas a experiência foi tão livre, divertida, que enquanto fazia sentia a alegria que uma criança tem quando experimenta coisas maravilhosas. Ela se entrega completamente. Depois, pintou mais e mais, e quanto mais pintava mais gostava.
Por causa da internet ela reencontrou a querida professora, conversaram feito maníacas por e-mails textos quilométricos e descobriram mais de um milhão de outras coisas que tinham em comum como o dom de escrever que a professora também tinha e o profundo interesse por literatura, filosofia, religião e alimentação saudável. E até se reencontraram, o que foi uma experiência para se lembrar para o resto da vida, dado as circunstâncias.
A professora entrou na internet e viu a última aquarela que a aluna-amiga pintara.
E, mais uma vez, trouxe a luz coisas que a aluna nem imaginava...

"A aquarela é uma das técnicas mais difíceis em pintura, primeiro porque é em papel e depois porque muitas vezes foge do controle. A fluidez da tinta é muito boa mas não dá para "consertar" nada depois de pintado como na técnica à óleo. Por isto que é mais fácil e comum encontrar somente aulas em óleo sobre tela. E pensar que a aquarela era uma forma de arte "menor", sem muito valor, meramente usada para exercícios de estudos das grandes pinturas dos grandes pintores. Acho que somente no século XX foi valorizada. E depois nas importantes exposições, todos os estudos e esboços sao valorizados tanto quanto as obras acabadas, ou seja, os quadros propriamente ditos, em tela ou painel de madeira."


A Professora


Depois disso a aluna se empolgou ainda mais e pintou e pintou... Ela crê que a alma se liberta do corpo por uns momentos quando se faz arte. Ela sabe que o trabalho que faz é amador. Ainda sonha com aquelas aguadas incríveis que vê os pintores experientes fazerem. Mas se contenta só pelo fato de ter a oportunidade de fazer e ter acesso a rede que não só estimula, mas divide o conhecimento que por séculos foi privilégio de poucos. Ela pensa nos bilhões de pessoas que nunca tiveram a chance de fazer arte, qualquer que seja. Que têm suas vidas consumidas nas infinitas jornadas de trabalho - escravos modernos, em troco de umas poucas dezenas de reais por mês e pensa como o mundo seria mais bonito e feliz se as sociedades se preocupassem em fazer arte ao invés de fazer guerra e fortuna. O libertador é fazer o que se gosta.  Ver que o resultado é bom, contemplar, mas o fabuloso é o fazer, a caminhada, a diversão que a criação envolve, as descobertas - da técnica e de si mesma.
E as tintas, as flores e, principalmente, as hortênsias, a fazem não só lembrar-se da querida mãe, que um sortilégio nefando distanciou-a de si, como faz com que a sinta perto de si.

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Essa é a história.
E sabem porque mais eu gosto tanto, tanto de flores, dentre as tantas coisas que gosto demais?

Que mecanismo, na evolução, disse a uma planta que ela deveria ser uma hortênsia e não uma rosa? E não uma samambaia, e não uma erva daninha? Como ele diria, no ele de transformação, "tenha centenas de pequenas e delicadas florezinhas que compreendem do branco, ao azul, ao rosa, nas mais variadas nuanças, de acordo com o ferro em que achar no solo, e juntem-se nesse maço gordo, belo, com suas folhas brilhantes, que do caule trazem água e nutrientes para tudo e encha de beleza os olhos do ser humano" ao invés de "seja um mato".

O Criador do céu e da terra e de todas as coisas que neles existem é muito mais original que a vã imaginação humana. É mais habilidoso, engenhoso e criativo. Aliás, é perfeito. É o Inventor. O Criador é um artista. E quando criou o reino vegetal mostrou-nos sua essência e deixou impresso em cada pedacinho de matéria orgânica que Ele É. E, mais uma vez, demonstrou seu imenso amor por nós ao nos legar o vasto e variado, complexo, ao invés do simples e meramente necessário.

As flores são a poesia da criação.

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*Dedico essa postagem com todo amor à Profa. Denise.

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Aline N. T. -- 18h39min



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