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Prateleira da Piúla — Dito e Feito

"O que será que tem na prateleira de livros da Sarah?"


Dito e Feito
Jennifer Armstrong — Kimberly Bulcken Root


Postado originalmente em Poetas de Marte


Hoje quero falar de uma leitura muito profunda que a Piúla e eu fizemos. Fala sobre o valor verdadeiro da amizade. Sobre a perseverança incessante que, afinal, acaba por nos levar a outros eldorados, ainda mais lindos que aqueles que, no princípio da jornada, porventura imaginávamos.
BRINQUE-BOOK é uma editora de livros infantis que gosto muito!
Conheci-a em 2009 quando passei a frequentar a Biblioteca Municipal Scharffenberg de Quadros, aqui em São José dos Pinhais.
Sabem por que eu gosto tanto dos livros dessa editora?
Porque suas ilustrações são verdadeiras obras de arte, de uma beleza doce, real e, em mesmo tempo, lúdica. As crianças merecem o que é melhor. O papel das publicações é de qualidade admirável e é uma alegria saber que tudo isso é patrocinado pelo Ministério da Cultura, segundo as etiquetas que encontrei nos livros. Quando o governo faz coisas boa também temos que comentar.
São muitos os títulos com os quais a Piúla já se encantou, como Pedro e Tina (pegarei ele outra vez qualquer dia e conto a vocês, é lindo!!!), e alguns que os títulos me fogem, mas as histórias estão marcadas em nosso coração, como aquela de uma velhinha que aprende a amar um cachorro de rua e faz tudo para reavê-lo quando a carrocinha o leva embora.
As histórias são mesmo assim, simples. Histórias que já ouvimos em outras situações ou personagens. Mas sinto que é o modo como são contadas e as ilustrações que tornam esses livros fabulosos para mim e para a Sarah.


Dito e Feito conta a história de Hugo, “pobre como um coelho”, porém rápido, astucioso, inteligente, prestativo e solícito. Vagava por aí, até que um dia avistou uma cidade e disse: “é ali que vou ganhar a vida! é uma cidade ótima para um rapaz como eu...” Nos simpatizamos logo por ele. Sua falas são alegres e divertidas.
Chegando na ponte que dava acesso a cidade, havia um pedágio a ser pago, e como é suspeitável, ele não tinha um tostão furado. Faz um trato com o Guarda do Pedágio. Está com fome. Hugo deve arranjar-lhe pão em troca da passagem.
Hugo corre à vila vizinha e depois de uma lábia, e um diálogo bem divertido, que nos deixa ansiosos por saber se ele conseguirá entrar na cidade, descobrimos que o que o Padeiro mais quer é que seu trigo seja moído. Hugo vai ao moleiro, e depois de algum diálogo se vê indo ao Alfaiate. O Alfaiate precisava que seu avental fosse remendado! O alfaiate só remendará as roupas se Hugo lhe arrumar ovos. Ninguém trabalharia de graça, é o que todos dizem... Hugo a cada vez chega a se entristecer, mas obstinado, depois do tapa no joelho em que diz “Combinado!” vai atrás do destino. Chega a Menina dos Gansos que, por sua vez, só lhe dará ovos se ele lhe conseguir uma poção do amor. Lhe fala sobre uma velha bruxa, que mora na beira do rio.
A Sarah Piúla, até então curiosa e empolgada com tudo que vinha acontecendo, num modo tão veloz e cheio de ação e lindas imagens ilustrativas, franziu seu delicado cenho. “Não gosto nada, nada de bruxas!”
Vamos ver o que acontece, disse eu. Virada a página, encontramos Hugo, junto da cabana da velha. A tal só lhe dará a poção se Hugo lhe conseguir nada menos que “algo de valor, algo que mais prezo, rapaz” e rindo e dançando diz que ele terá o que pede: a poção.
Hugo se afasta muito triste. Como ele poderia saber o que seria isso? Fica olhando ao longe a bela cidade lhe acenar com suas bandeiras e esforçava-se por pensar, o que ela poderia querer. “Ela é perita em mágica, uma campeã em feitiços. O que ela poderá querer que não consiga num passe de mágica?” O que a feiticeira poderia querer que Hugo pudesse lhe dar? O pobre Hugo?
Ele pensa, sofre, trava diálogos silenciosos, se angustia. Até que descobre e corre para a cabana da velha!
Vou confessar que nessa parte eu não gostei do livro.
Hugo lhe oferece a amizade. Exclama em rompantes afobados de quem descobriu a pólvora. Estendendo a mão e sorrindo diz “essa é minha oferenda, lhe ofereço minha amizade, um aperto de mão e minha ajuda sempre que precisar. Sou pobre como um coelho, mas pronto a dividir com você tudo que eu tenho”.
Como assim? A amizade é algo que se compre?
A bruxa diz “ótimo, é isso que eu chamo de um presente maravilhoso!” e lhe dá a poção.
Se fosse presente, não seria em troca da poção, certo? A amizade teria sido em troca da amizade. Que contradição é essa que se está passando para crianças?
Fora essa coisa de poção do amor... Que eu saiba, amor como a amizade, é despertado, conquistado, cultivado...
Enfim, não tinha mais esperança quanto ao desfecho do livro, mas não é que me surpreendeu?
Hugo faz uma correria louca e entrega a poção a Menina dos Gansos, os ovos ao Alfaiate, o avental remendado ao moleiro, o trigo ao padeiro, felicíssimo tomas os pães e corre para a ponte, e quando chega lá... o Guarda do Pedágio é outro!
Ai.
O tal diz que com ele não tem trato. Que não vai poder passar e pronto. E Hugo está triste, mastigando o pão. Desolado! Quem não ficaria? De volta ao nada, sem poder atravessar uma ponte capenga. Bolsos vazios e nas mãos, pães que acabarão.
Eis que surge uma carroça! Cheia de uma gentarada risonha... Hugo vê logo aqueles que gritam seu nome. O Padeiro, o Moleiro, o Alfaiate, a Menina dos Gansos!
Ainda bem que não tinha nenhuma bruxa embusteira, pensei.
Alegres e felizes eles, que estão indo à cidade, convidam Hugo para ir com eles, assim poderá atravessar a ponte! Hugo dá um tapa no joelho (como sempre fazia diante de uma nova tarefa) e exclama, como sempre “Combinado!”
Pronto. Ela tinha de estar ali.
Hugo vê a bruxa ao longe, que lhe joga um beijo e pensa no futuro que lhe soa brilhante e consumado em relação ao sucesso.
Muito interessante os seguintes pontos: qualidade do texto, maravilhosas gravuras, legitimação de valores como perseverança, ambição em melhorar na vida (que é diferente de ganância), boa vontade, otimismo, raciocínio lógico, socialização, diálogo. Mas para mim não colou esta história de “vender” a amizade em troca do pedágio (ou da poção do amor, que seja).
Por outro lado, é de se observar: quem faz algo nesse mundo a outra pessoa sem esperar algo em troca, mesmo que seja, no mínimo, amizade? Quem faz é chamado de idiota ou benevolente. Eu prefiro chamar de benevolência. E assim, também, ensinar. Fazer algo por alguém, mesmo pensando que talvez nunca mais vejamos esse alguém é um ato muito amável de quem semeia carinho.
Quem faz isso certamente não vive solitário numa cabana.
Ou talvez eu esteja levando esta história a sério demais, com essas análises.
Para concluir, achei que o livro vale a pena sim, ser lido, mas com a postura de conflitar e estabelecer valores com as crianças. Indagar sobre a leitura é muito importante. Isso é estabelecer senso crítico. Como dizia um professor meu, bem querido, “o papel aceita tudo”.
— Você dará sua amizade a alguém somente em troca de algo? Ou o sorriso desse alguém e a companhia já te bastam?
Como disse no início, percebemos que a viagem é melhor que a chegada. O eldorado não está num ponto específico, mas no caminho. Está com aqueles que convivemos. Está no modo que semeamos. Se semearmos querendo frutos materiais, é eles que teremos. Eles são perecíveis. Se semearmos numa esperança de provocar um sorriso, esse sorriso — tantos sentimentos — será eterno dentro de nós.




Aline Negosseki Teixeira — 17.06.2011, 18h49min


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