Trabalho de linha (da vida)
No fio do barbante ia puxando o tempo, não sabia se ele voltaria.
O tempo inexorável, saudoso...
Em cada laçada ia sonhando o futuro,
nas belas formas da estrela que ia surgindo
descortinava-se o porvir.
Vinha do fundo da alma,
a dorzinha incerta
a dorzinha da incerteza
"terei eu feito o possível de todo?"
Ela já via diante dos olhos,
sem perder a conta dos pontos,
o destino bom de cada um.
Ela estava certa,
cresceram bem.
Apesar dumas desventuras em que
des-filosofados
alguns se meteram.
Parou um pouco.
Acabara um novelo e ela precisava
de um bom café.
Se interrompeu a linha do trabalho
Mas não a linha da vida - ela teve também filhas,
que tiveram filhas, que tiveram filhas.
Olhou para o fruto de seu trabalho,
a bela toalha parecia renda,
já via que bela figura ela faria
sobre a extensa mesa para 15
a mesa dura, a mesa maciça
que seria eterna - e não.
Na trama do crochê
que herdaria alguma bisneta
ela desanovelava seus dias,
sua história.
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Aline N. T. -- 10h38min
Aline, você me fez lembrar minha avó Pepa que me ensinou a fazer crochê, no começo eu achava que nunca ia fazer uma toalha como ela fazia, eu errava nos pontos e na contagem das voltas da linha, eu tinha apenas 8 anos. O tempo passou, passou e passou, quando eu tinha 13 anos fazia crochê para vender às amigas, uma redinha para prender o cabelo; e minha avó já estava bem velhinha, quase não enxergava, tinha 83 anos, e seus crochês tinham falhas e pontos errados, mas eu sempre os achava divinos, maravilhosos, mesmo com esses erros, porque sabia que era a superação dela à doença e à vida.Beijos, felicidades e a paz!
ResponderExcluirQue lindo seu relato, Rita... nada é tão poético quanto nossas lembranças de menina. Eu também achava que nunca ia fazer crochê como minha mãe, e ainda não faço rsrsrs.
ResponderExcluirFiquei muito feliz em saber que te fiz lembrar de algo tão doce e intenso..
um bjo
Aline
É assim mesmo... enquanto faz-se o ponto, a mente trabalha também entre sonhos, realizações, esperanças... e de ponto em ponto, emoções a despertar. E quando o trabalho sai... mais um motivo para continuar... doar...
ResponderExcluirParabéns Aline, um conto que se repete, em mãos sábias e almas vivas!
Abraços