A mais doce e inesquecível visita...
Fui amiga de mim mesma e estava tão eufórica que não conseguia falar do que me aconteceu, até que a calma me chegou. Falei de Bolo de Cenoura, e meu coração se acalmou. Agora saibam o que foi que me aconteceu.
Você já gostou tanto, mas tanto de uma pessoa que sentia uma dor aguda apertar em seu peito porque não podia abraçá-la?
Teve um desejo ardente de tocar em seu rosto e conhecer como eram seus trejeitos, suas expressões? Ouvir sua voz e partilhar de uma refeição mui doce com ela?
Até mesmo recostar tua cabeça no colo caloroso, sentir as carícias que ela lhe faria nos cabelos, ouvir uma canção antiga solfejar pelo ar silencioso, embalando tua alma e te fazendo feliz, das criaturas todas, a mais feliz, naquele momento?
Mas essa pessoa, para tua melancolia desmedida, morreu muito antes de você nascer?
Como eu sou esquisita, não tem problema eu confessar que sinto uma saudade sem igual de meus antepassados. E a palavra saudade tem um significado muito profundo que, se eu me aventurasse agora a dissecá-lo, eu prolongaria demais a postagem. Por isso, vou pular essa parte que me tenta a divagar.
Como eu ia dizendo, já até mesmo andei sonhando com todos eles, e quando era criança até chorava por suas mortes... Não me envergonha revelar.
Agora, você imagina o que é “reencontrar” alguém assim, que você sempre amou, conheceu muito bem por histórias, mas nunca esteve face a face com ela?
Eu tive esse reencontro... Depois de muitas décadas de separação.
Uns dias antes de meu aniversário eu reencontrei minha bisavó.
Não pensem que foi lá uma experiência sobrenatural, porque minha verdade diz que todo aquele que morre descansa no Senhor.
Eu sei que as cadeias do DNA são infinitas e a memória é um campo cientificamente pouco desvendado. Se as memórias são transmitidas aos descendentes, ficando neles adormecidas, imagina quantas histórias não carregamos?!
Penso que assim se pode compreender muitas simbioses e inspirações repentinas inexplicáveis.
Penso que assim se explica uma intimidade tão profunda que não só vou travando com aqueles que antes de mim viveram, como os encontros providenciais que em minha vida se vai traçando.
Tenho encontrado pessoas como eu nos últimos anos, e por isso sou feliz. Não sou uma estranha solitária...
Mas dentre todos, uma mais me impressionou.
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| As irmãs Aurélia, avó da D. Ruth, e Anna, minha bisavó. |
Na foto, no início da postagem, estou com D. Ruth Garbi Assumpção, neta da irmã de minha bisavó Anna, que muitos, ainda mais aqueles que leram meus livros, sabem quanto me inspira.
Nós duas, A D. Ruth e eu, somos um enigma, pelo espelho que nos descobrimos uma da outra. E como nos conhecemos é uma longa trama que me deixa ainda mais perplexa, cada vez reflito sobre isso.
Não tenho as palavras perfeitas. Só que é incrível que tenhamos os mesmo ascendentes diretos, Marianna e José, e tenhamos tanto em comum. Isso era desconhecido para mim, até agora que ainda não tinha ganhado o maravilhoso livro-museu que ela escreveu com todo o empenho de seu coração, obstinada, enfrentando todos os obstáculos para consegui-lo!
Parece alguém que eu conheço, que mais doce riso isso me causa.
Mas ela tem 79 anos, e a força, a vitalidade que não vejo em muitos “jovens”.
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| Meus avós, Erondina Dissenha, e David Nogoseke (filho de Anna Roesler), no dia do casamento. |
Seus olhos amorosos desejaram tão logo ser vovó da Piúla. Ela que há mais de cinquenta anos, frequentou a casa de meus avós, viu a mãe de minha mãe grávida, cheia dentro de si de minha Madrinha, e guardando em si o óvulo que um dia geraria minha mãe, tornando possível minha existência; ela, que lá esteve muitas vezes e guardou saudosas e boas lembranças, hoje assistiu a bisneta deles e teve o coração cheio de amor por ela, e a cordialidade e o mimo para com seus desenhos foram imensuráveis. A Sarah que não teve... e agora a tem.
Fica essa pequena crônica, de grande emoção, em homenagem a ela, D. Ruth (Hetele), que cumpriu uma fabulosa missão – manter viva a memória que nos constrói. A história dos Roeslers, tão humildes numa terra estranha, quando desceram do Vandália, há cerca de 130 anos. À ela que em pouco e não precisa contar, se vê a mãe, avó dedicadíssima. A artista – das palavras e plasticidades. A artista das palavras do cotidiano como minha querida Cora.
Obrigada, D. Ruth, por me receber em tua casa e teu coração, sessenta anos depois.
***
“Anna (Roesler) Nogoseke, André Nogoseke e a família moravam em Cachoeira que ficava uns 5 km de São José dos Pinhais.
Era imensa a nossa alegria, quando íamos passar o fim de semana lá. O rio Miringuava passava na terra deles e íamos pescar, mas o melhor de tudo era o bom café, com fartura, naquela enorme mesa para quinze filhos. Produziam todo o alimento na chácara, trigo, arroz, feijão, erva-mate, galinha, porco, salame, boi, vaca, leite, queijo e requeijão que ficava pendurado na área, num saquinho para escorrer o soro. Compravam só café, açúcar e sal.
Meu pai adorava aquele arroz com uma listra vermelha.”
(...)
Trecho das memórias de D. Ruth, Hetele, conforme seu apelido carinhoso desde a infância.
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| Minha bisavó Anna com o esposo André, e 13 de seus 15 filhos. |
Minha mãe, Rosemary Negosseki, e eu...
A ser sonhado,a ser dito e versado,a ser... dolorosamente...deliciosamente... fabulosamente...desvendado;ainda há muito,verdadeiramente.
"Que artista poderá reproduzir os novelos que acumulam as emoções duma vida?""Viver e morrer tentando é a maior das alegrias!"
Aline Negosseki Teixeira - 09h52min





Senti toda essa emoção aqui, do outro lado dessa telinha e a tantos quilometros de distância!
ResponderExcluirFico muito feliz por você Aline é uma história verdadeiramente incrível e você sabe como eu também tenho um coração que anseia pelos conhecimentos passados...
Te Gosto Tanto *-* que é como se já nos conhecêssemos!
Abração :*
Fiquei feliz junto com você! Como é bom reencontrar pessoas queridas e também 're-conhecer' outras pessoas queridas que ainda não conhecíamos!
ResponderExcluirBeijos.