Pular para o conteúdo principal

Feira do Livro de São José dos Pinhais - PR

A Feira ainda não acabou, vai até hoje à tarde, mas já era mais que hora de eu vir escrever esse post contando como foi tudo!

Antes vejam o slide show que montei sobre o livro na Feira de São José dos Pinhais - PR

Para ver mais depressa ajustar no canto esquerdo.

Acho que quando minha avó, Erondina Dissenha Negosseki, também professora, se casou, ali na Matriz de São José, não imaginava que uma neta dela, um tanto estranha, um dia, bem ali em frente (poucos passos da escadaria que desceu toda de branco e feliz ao lado do meu avô) e sob um sol semelhante ia falar para um tanto de crianças fofas, num microfone para quem quer que passasse no calçadão pudesse-a ouvir puxar demais nos erres e se emocionar com as coisinhas mais tolinhas do universo infantil. E me lembrei a primeira vez que falei com crianças no microfone. Tinha sete anos e porque eu era a aluna que lia mais desenrolada fui escolhida para ler a homenagem para as mães. 1993...

A vida de uma professora entre 1950 e 2010 mudou bastante. Mas ainda é um vocacionado.

Diante das crianças senti outra vez as melhores coisas em ser professora.
Confesso que, em princípio, fiquei um pouco nervosa quando todos aqueles olhinhos se colocaram em mim, desconfiados, decerto se perguntando "que é que ela tem de novo?"
Confesso que temi que os haicais não as interessassem, fosse algo etéreo demais para crianças de uma época de eletrônicos, modernidades, correrias e celulares (será que elas brincam na rua de passa-poste, bater figurinha, mês, salada de fruta e taco, como eu brincava até 12 anos atrás? Tô tão por fora...)
Mas afinal poesia é puro lirismo, e crianças são a materialização da poesia. Como haviam de não gostar?
Elas me ouviam. E respondiam entusiasmadas minha especulações provocativas!
Mas, depois de tudo, o melhor que tenho a dizer da experiência de levar o "Haicai Para Crianças — Sentidografias" para os pequerruchos expectantes foi que me lembrei porque escolhi a pedagogia quando ainda era criança e arrebanhava a molecada da rua para a escolinha que montava no quintal de casa.

Elas são curiosas, doces, puras e simples — como Haicais. Elas se empolgam com as coisas mais pueris!!! O que tantos sábios, nas mais diversas filosofias tentam com custo alcançar, para elas, as crianças, é natural como respirar.

"Tia, você já escreveu haicai de primavera? E de Branca de Neve?" — Foram algumas das perguntas que me fizeram! — “Quantas horas demora para escrever um livro?”

A experiência do primeiro dia foi tão linda que acabei por voltar no segundo, para conversar com outra turminha, ainda mais animada! E as fotos, a partícula de vídeo que postarei aqui num slide show, não puderam captar a magia que eu senti emanar delas enquanto me envolviam com toda aquela candura. Todas elas querendo falar (ao mesmo tempo e bem alto!! oh, me lembrei dos estágios! que saudades!). Os olharezinhos por vezes espantados, talvez por estarem ali, ouvindo falar de algo "desconhecido" demais, E depois, o encantamento delas, quando se familiarizaram com "o poeminha-fotografia", nunca vou esquecer.

E que adjetivo eu poderia usar, meu Deus, para comparar os olhares delas quando mostrei que havia um lugar no fim do livro para elas escreverem o próprio haicai e ilustrá-lo? Deslumbramento? É pouco! Parecia que tinha ali um portal e a passagem livre para o mundo da imaginação que, com custo eu tentava esboçar para eles. Então eu tive a ideia de fazermos, em conjunto, um haicai. Não dei o tema. Elas fizeram tudo e fiquei emocionada, como confessei-lhes, quando a segunda turma propôs o tema "Bíblia".
Feliz é aquele que aprende daquele que ensina!

5 Bíblia e oração;
7 Quando eu vou à igreja
5 eu oro de coração.
ou "me aperta o coração."

Disse-lhes, nesse meu arrebatamento não raro, que me embobece diante dos insensíveis a respeito da multiculturalidade, a respeito da literatura: "E eu que nunca tinha pensado em escrever haicais sobre religiosidade!"
É claro que na correria de tudo não dava para nos prender a bobeira de regras! Mas eles viram, sim, que envolta das 17 sílabas, podemos recriar lindos pedacinhos da gente mesmo! O último verso precisou ficar assim mesmo, com duas versões, porque dois meninos teimavam e não achei justo eleger um só. Os dois eram lindos!

No final de tudo, depois de eu falar pelos cotovelos, e ver os olhinhos deles brilharem outra vez (admiração e consternação?) ao se depararem com a escrita a branco para as outras crianças que, diferentes deles, não podem enxergar, para quem originalmente foi redigido o livro, elas me perguntavam doçuras, me rodeavam e queriam dizer pessoalmente (depois dos berros e levantações de mãos) que gostam de ler e escrever. Que também gostam de amoras como eu... Foi aí que conheci a Tácia, de olhinhos tão ternos (parece que só sei falar nos olhos das crianças! mas é que olhos de criança, ah! são tão, mas tão puros!) que acabou por merecer não sei porque, foi meu coração quem me disse? um exemplar dedicado à ela.

Quando não havia mais nem uma alminha no "auditório" sob a tenda da praça 8 de janeiro, fomos embora e, passando por elas que já estavam assistindo outra apresentação (música) viravam daquela arquibancada para me enviarem mil tchaus, jogar mil beijos e sorrisos que guardo aqui dentro do peito esquerdo: são pérolas que ninguém me tira.

Estou absolutamente encantada com a Feira do Livro, não só porque eu vi uma partícula minúscula do trabalhão que deu para o pessoal montar tudo, mas porque está sendo um evento totalmente cultural. E não Mercantil.

Vejam bem por que:
Porque aproxima qualquer cidadão da leitura, da cultura. Por acontecer no meio da praça central da cidade. Em frente às igrejas católica e protestante, ao comércio popular, à biblioteca pública, a Sec. de Educação, ao terminal rodoviário etc. etc. Em frente disso tudo e...
É de graça! Não tem essa de estudante paga meia, e um monte de burocracia para provar e entrar, baa! É de graça. E os livros? Baratos. Livros bons, para todos os gostos entre 1 e 10 reais. Novos e usados. Sim, tem estande para sebo, tem estande de brincadeiras, tem Caravana Cultural, gente que ensaiou 4 meses para se apresentar. Fantoches lindos, muito mais baratos, criativos e fofos que vi por aí. Livros de graça para doação. Vi guri pré-adolescente guardando na sacolinha Machado de Assis. Talvez fique uns anos encostado, como ficou também o meu Dom Casmurro e minha Poliana por longo tempo depois que os ganhei, mas quando ele descobrir, será um dia fenomenal. A palestra sobre o "livro viajante" até me emocionou (mas o que é que não me emociona, meu Deus, quando a conversa é cultura???) O Brasil está em 17º lugar em fazer movimentação de livros viajantes (bookcrossing, booktour) no mundo. Se pensarmos que existem mais de 140 países... Estamos muito bem!

Só teve um momento que me cortou o coração: quando eu tive que arrastar a Sarah para casa (aos berros) por que ela estava toda atenta com seu picolé de coração ouvindo uma bruxa boazinha, contadeira de histórias, encantando as crianças com a história da Moura Torta. E lembrava-me da minha mãe me contado essa história, tantas vezes, quando eu era pequena. E eu a obrigava a contar tantas histórias que ela teve que inventar um "joão-histórião que pega mães que não sabem a hora de parar de contar história" para eu lhe dar paz. Ai, ai...

O evento dura pelo dia afora, céu dum azul belo e brilhante até a noite. É uma pena que não dá para aproveitarmos cada segundo disso, porque a vida além de diversão, tem obrigação. Mas bem que eu gostaria!

Eu levaria muitas horas contando aqui cada detalhe... Espero que essa pincelada ajude a quem leia a ter uma ideia de quão empolgante é participar de eventos culturais. De quão importante é para as crianças e o futuro delas levá-las a participar de coisas assim e a ler muito, ler o que lhes agrade. São sementinhas que plantamos e que, fazendo isso, também nos torna tão completos quando da contemplação das primeiras folhinhas que surgem — e isso eu tenho presenciado minuto a minuto com minha cobaizinha-Piúla que, às vezes, some e eu grito por ela preocupada pela casa, e a acho em algum cantinho “lendo” gibi, ou na beira de uma janela “lendo” história para os cachorros e a ovelha dela, que ficam paradinhos escutando.

Porque nesses tempos de inflamações políticas, é mais que nunca importante disseminar e ensinar as nossas crianças a não se contentar com engana-bobo. Ensinar que nós, que "o povo não quer só comida..." "o povo quer comida, DIVERSÃO e ARTE".
Mas aí nem vou me aprofundar. Um artista tenta (é difícil resistir) não se envolver com variáveis tão complexas que o deprimam e tolham seu geniozinho criador que mora em algum lugar entre o ventre e o coração.


*Citação:
"Quem sabe quantos futuros grandes homens estão agora sentados aqui nos bancos, de língua de fora, procurando imitar no caderno a paisagem que a "fessora" riscou no quadro negro?"
Clarissa Divagando em Música ao Longe"


Minha amiga Marcela quando viu as fotos das crianças assistindo meu tro-ló-ló, lembrou-se desse trechinho do Erico. Para que dizer outra vez que me emocionei!!
Porque exatamente me lembrei de quando eu era criança e assistia boquiaberta quando uma professora me apresentava algo novo.  E isso me perseguiu por toda a adolescência e é até hoje. Me sinto muito honrada em, agora, como escritora  poder ser alguém que pode levar algo para as crianças.


Aline N. T. - 08h39min

Comentários

  1. Fiquei encantada.

    Que delícia poder contar com um evento cultural na porta de casa. Poder compartilhar toda a sua sabedoria com quem está interessado e curioso. Quanto mais com crianças. Se há um público que te avaliará melhor do que qualquer outro é o infantil, pois quando eles se interessam, eles REALMENTE se interessam. Não mentem, e se eles gostaram, foram sinceros. É tudo tão mágico, tão esplêndido e... simples. Rico e Simples, como vc mesmo disse, nada de mercantilização. Quem dera se a cultura fosse semeada assim em todos os cantos do Brasil. Quem dera se todos os que estão a frente do governo se interessassem em formar futuros pensadores, e não cérebros pré-programados, robozinhos alienados. Gostei bastante Aline, você foi esplêndida, sem contar que estou sem palavras com sua iniciativa do Braile. =]

    Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Aline, sua vocação é hereditária. Nesse depoimento você mostra o quanto ama a arte de contar 'estórias'. Clarissa Pinkola Estés diz que as Mulheres Selvagens são 'cantadoras', porque passam em tradição a arte de contar estórias - você realmente é uma dessas pessoas. Parabéns pelo seu trabalho, pelo seu dom e pela sua atenção para com as crianças. Nada vale ter o dom de cantadora e não saber interagir com ele. Você é ótima, continue na sua missão.
    Felicidades e a paz!

    ResponderExcluir
  3. Ter algo a ensinar, ter algo a dizer, um outro olhar que desenha sentimentos, redesenha a vida, atribui cores aos sentidos, vê além da superfície... Você tinha mesmo que estar ali a distribuir sementes, porque é, sem dúvida, uma pessoa especial. Para mim, professor existe por vocação, por paixão, o que você falou envolve tudo isso e muito mais. Super beijo carinhoso! Obrigada por compartilhar uma experiência tão bela!!!

    ResponderExcluir
  4. Gente essa é a minha amiga Aline.
    Ai que orgulho desta moça dedicada e esforçada.
    Parabéns!!!
    Deus te abençõe sempre e continue colhendo todas essas bençãos.
    Orgulho-me demais de você.
    beijão!!!!

    ResponderExcluir
  5. Obrigada, Rita, pelas lindas palavras. Vou pesquisar sobre Clarissa.
    Por vezes esse caminho de escrever tmb machuca. Os espinhos são muitos. Mas,
    como li escrito não lembro onde, os espinhos da rosa podem ser uma escada
    para chegar ao ninho de seda das pétalas. Chegar lá, creio eu, é receber
    palavras como essas, o que faz tudo valer.
    No sábado, 3 dias depois, voltei a feira, não como 'palestrante' mas como
    passeadeira com a minha filhinha. Pois uma garotinha de seus 8 anos me
    cutucou perguntando se eu era eu quem gostava de poesia e que tinha ido ali
    "ensinar sobre Haicais". Eu "Sim, fui eu, você gostou?". Ela apenas me
    esticou o cederno de poesias que ela escreve ("eu mesma quem escrevo, tia") e queria muito que eu visse.
    Fiquei sem palavras. Coisas assim que dão ânimo para pelo menos tentar ser
    forte como Aninha.


    Bjs
    Aline

    ResponderExcluir
  6. Marcela,
    foi isso que eu temi. As crianças são tão sinceras que não maliciam e podem perguntar qualquer coisa. Podem facilmente embraçar o mais sapiente dos adultos. Quem dirá eu. Mas elas são doces, sedentas de fantasia, senti isso. E é um trabalho eterno, longo e maravilhoso.
    E obrigada a vc, Marcelitcha, por me escutar sempre, me aturar, todo dia, toda a vez =']
    bjs
    Aline


    Bruna,
    eu quem agradeço por ter outra semeadora tão sensível e auscutadora como leitora das minhas aventuras que a literatura proporciona viver.
    Que seja apenas o início de tão linda jornada, trilhada lado a lado.
    bjs
    Aline

    ResponderExcluir
  7. Danny,
    obrigada, irmãzinha minha.
    Grande é o tesouro que se chama "amigo". E nos achamos por Jesus.
    Que saudades!...Fico muito feliz que, depois de mais de dois anos, a leitura e a escrita ainda nos una.
    Tmb é só o início.
    bjinhos
    Aline

    ResponderExcluir
  8. Obrigada a todas (os). Esse incentivo me dá cada dia mais força e os pensamentos que já tive sobre desistir estão a cada dia que passa, mas longe no tempo e no espaço infinito.
    A energia que move um autor idealista é inesgotável e não caminhar sozinho é júbilo sem tamanho.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Oficina de Haicai - Escola Rural Caetano da Rocha

No dia 26 de Setembro mediei mais uma proveitosa Oficina de Haicai. Que satisfação! Participaram crianças entre 5 e 11 anos, conheceram o Haicai ou Haiku, o qual como eu esperava jamais haviam falar, e foi, como esperava, uma experiência maravilhosa. Quando eu cheguei em casa eu estava tão deslumbrada com o resultado, com o brilho que acendeu-se nos olhinhos das crianças, que escrevi o seguinte: "Só tem uma coisa que eu quero fazer na minha vida profissional e o farei com todo meu amor, sempre e sempre: incentivar crianças (grandes ou pequenas) a não só lerem e escreverem, estarem em contato com a arte literária, como se abstraírem  para a poesia... a poesia quem em tudo está! Foi maravilhosa a Oficina de Haicais que mediei hoje na Escola Rural Caetano da Rocha! O que era aquele brilho nos olhos das crianças quando me despedi delas?... ♥"  26 de Setembro  de 2012, 18h09min A bela lua encimava o dia, e nisso não há contradição, assim ela quis nesse di...

As Artes e o Processo Criativo

Frederick Leighton Inglaterra 1830 - 1896 O estilo desse pintor é o 'Acadêmico'. Embora meu estilo predileto seja o impressionismo de meus queridos Renoir, Mary Cassat e Berthe Morissot, eu não deixo de admirar o sentimento com que tantos gênios impregnaram a arte plástica nas mais variadas escolas artísticas. Todas elas grandemente, profundamente, suspirosamente me inspiram para escrever. Vamos olhar cuidadosamente para cada tela? O que sente, o que imagina, para onde seu pensamento 'viaja' com cada uma das telas? "Casado" A acima me faz pensar no rei Davi. "A lua-de-mel de um pintor." Essa pintura do artista e sua esposa me dá ensejo para mil fantasias que eu poderia tornar em enredos. Históricos, claro. ;) Como mil questões passeiam em minha mente quando me deparo com qualquer manifestação artística, as respostas acontecem artisticamente na literatura... a arte com a qual mais me identifico desde ...

Lançamento! Um Farol Para Meu Amado - Novela

Uma surpresa que venho preparando para vocês, leitores e leitoras! Escrevi essa novela em 2010 e estive ultimamente preparando-a para uma publicação exclusiva para mídias digitais, inclusive PC. Espero que gostem... A história de Luís e Ana me faz literalmente andar por onde eu ando, porém num outro tempo! Um tempo em que amar demais não era exagero, era esmero! Um abço a todos, Aline! ;* “O que ilumina a jornada daqueles que se aventuram a amar? Há aqueles que diriam: a fé.”  Aninha nunca se esqueceu de Luís, seu amor de adolescente, que deixou a fazenda Simão para nunca mais voltar e lhe dar um de seus inigualáveis sorrisos. Sedenta em conhecer outro modo de viver, ela deixa aos 16 anos a Colônia em que nasceu, no interior do Paraná para, um enigma que não revela a ninguém, buscar uma faísca de destino no tempo. Em pleno período da Segunda Grande Guerra, ela vai para a Capital estudar enfermagem, na esperança de reencontrar seu grande amor que, an...