Parte I
É perfeitamente normal que as pessoas estranhem eu ter uma ovelha em casa, no meio da cidade, em pleno ano de 2010. E fico muito contente quando elas querem saber porque, como, que coisa louca é essa!
Como toda "excentricidade" tem uma história... Vou contar aqui nosso "caso" com as ovelhas.
Tentarei resumir o melhor que puder.
***
Ovis aries, ou em nome comum, ovelha. Teria vindo do muflão, e é o animal que tem acompanhado o ser humano desde a remotíssima Idade do Bronze, isso há mais de cinco mil anos. De suma importância de sobrevivência e economia, oferecendo a nós, seus domesticadores, lã, leite, carne e couro, ainda hoje no pleno do século XXI é de grande destaque ecônomico para ao menos cinco países do hemisfério sul, tendo grande relevância no Sul do Brasil onde se espalham inúmeras cabanhas, como chama-se o lugar onde as criam, com suas mais variadas raças.E não é sobre dados que vou falar, já que para isso tem as enciclópedias a disposição de quem tiver curiosidade sobre cada raça, usos de acordo a cada região do mundo, entre outros detalhes.
Vou falar de minha experiência pessoal.
Primeiro, se quiserem, vejam o FOTO SHOW que montei. Assim, poderão visualizar melhor a história.
Sabrina. Era um pouco feeinha a primeira vista. Mas todos que a conheciam se encantavam.
Elas, além de lindas no geral, são incrivelmente dóceis, inteligentes, se considerarmos que pertencem a Família dos bovinos, e companheiras. Pude observar que ovelhas aprendem. Que são medrosas e extremamente afetuosas. Extremamente necessitadas da proteção humana. Indefesas por total, diante do predador tudo que lhes resta é correr ou se entregar. Sei, por experiência prórpia que ela tem conhecimento, sabem, quando chegou sua hora de ir para abate. Talvez seja uma memória milenar que carreguem que são presa fácil, seja do homem, seja de outros animais.
Eu ainda não era casada e nem vegetariana quando tive vontade de conhecer um carneirinho de perto. Estava viajando e parei num Graal da Rodovia Castelo Branco, e soube de uma exposição de animais que ali acontecia. Também soube que ali serviam carnes exóticas e sempre tive muita vontade de experimentar coelho, o qual ouvia dizer possuir uma carne muito macia.
Fui ver os animais antes de almoçar e lá estavam alguns carneiros e ovelhas, além de outros que não me recordo porque meus olhos só sabiam ver aqueles animais fofos, tão mansos como nada igual. Queria ver de perto, tocar, interagir, mas não era possível.
Quando pûs a carne de coelho no prato, fiquei olhando para ela um tempo e não tive coragem nem de experimentar. Não sei se porque já tivera uma coelhinha, a Nana, que se afogara em nossa piscina ou se porque tinha visto os animais há pouco e pensava nos olhos tristonhos deles ali, naquele cativeiro. Não tive coragem de comer carne de coelho.
O tempo passou e ficou guardada em mim aquela vontade de um dia interagir com com as ovelhas, as quais tanto me aguçavam a curiosidade.
Um dia vi a notícia em algum portal da internet de uma moça que, na Inglaterra, criava uma ovelha dentro de seu apartamento. Passei a pesquisar a respeito. Queria saber tudo sobre ovelhas, porque me encantara com o fato de saber que a tal ovelha de estimação atendia a sua dona e, às vezes, confundia-se com um cachorro. E, como sempre escarafunchadora, fiquei sabendo tudo sobre elas. Fiquei louca para ter um contato real com elas, porque nas fotos e vídeos elas tinham olhos doces, carregados de um ternura recoberta de medo. Isso muito me comovia.
Pela época do natal, passava pela avenida, perto de nossa casa, num dia de feira de domingo (feira em SP é quase um evento cultural que a gente gasta nossas horas para curtir a manhã com a família, saudades!...), e vi o cartaz na frente de uma loja de aquários: “Vendo carneiros e ovelhas”. Fui lá importunar, com o Matheus, o moço.
Tinha uma ardente esperança que elas estariam ali, em pleno Jd. Satélite, em algum lugar. Leda ilusão. O moço moreno disse com ares de normalidade: “Quantos quilos vão querer?” Nós já éramos vegetarianos há dois anos e meio e sorrimos ao lhe dizer. “Não... é para estimação.” Ele sorriu e, simpático, esclareceu tudo que queríamos saber sobre ovinos. Era criador.
Recomendou que tinha a raça certa para nós. Coisa de vendedor? Seria a Santa Inês, que não tem todo aquele pelão fofo e macio. Eu fiquei decepcionada porque fazia ideia nos meus meigos sonhos de uma coisinha como aquelas dos desenhos e livros infantis, e as que pulam a cerquinha, quando se perdeu o sono, e que a gente pode abraçar se amarfanhando em toda aquela maciez de nuvem. Fomos para casa e eu batia o pé que queria a peluda. O Matheus me convenceu que se arrumassemos uma dessas, que nem se encontrava na região, seria para fazê-la sofrer porque o calor era muito.
Às vezes, nos olhavamos e ríamos de nós mesmos. Discutindo sobre arrumar uma ovelha para criar em plena cidade grande. Nossa alma é de interior...
Aceitei a pelada (tô sorrindo para escrever isso), afinal. Porque tudo que eu mais queria era ter uma ovelhinha perto de mim e bem logo. O Matheus ligou para encomendá-la e ele, o moço dono da loja de aquários, disse-nos que demoraria ao menos uma semana para que fosse a Salesópolis, no sítio onde as criava. Fiquei numa febre infantil. Parecia que eu tinha cinco anos, querendo muito e para logo minha ovelha. Pegamos o carro e fomos até um outro criador na Rod. dos Tamoios, não muito distante de onde morávamos. Chegando lá, não valia a pena o preço que eles faziam para pessoa fisíca, visto que eram uma grande empresa. Fora que não seria filhotinha, como queríamos.
Matheus entrou, outra vez, naquele mesmo dia, em contato com o rapaz da loja de aquários e, sabendo que ele estava para ir para a roça, foi até a loja encomendar nosso bichinho.
É claro que a família inteira achou loucura, mas estava feito e foi uma tortura esperar os dias passarem para que ela chegasse.
Foi o presente de natal que demos para a Sarah naquele final de 2007 e ainda me lembro exatamente como foi o momento em que a Sabrina chegou. Esse nome escolhemos porque eu adorava o seriado da aprendiz de feiticeira e quase demos esse nome para a Sarah... Mas como queríamos para ela um nome bíblico... Enfim, voltando a chegada da fofilda, ouvimos o barulho da campainha e já sabíamos: chegou! Era uma tarde de sol de verão, entre o natal e o ano-novo, e do outro lado da rua, dentro de um gol bolinha, ela estava com as pernas amarradas e cruzadas deitada no assoalho traseiro.
Só vivenciando para entender o que senti dentro do peito quando a vi ali, olhos medrosos, toda amarradinha, esperando por seu destino. Não, não seria o de suas “parentes”: prato principal numa mesa de ceia de ano-novo.
O Matheus ficou até alta noite amamentado-a (ela estava em pleno desmame naqueles dias) e derretíamos, nós três, de amor pela ovelhinha, embora todos achassem que ela parecia uma cabrita! Cautelosos, a pusemos para dormir na lavanderia. Nos três primeiros dias ela berrou o dia inteiro, andando de um lado para o outro pelo terreno. Achei que os vizinhos reclamariam, mas, ao contrário, todos ficavam curiosos e queriam saber se íamos prepará-la no ano-novo, e queriam conhecê-la. Quando o Matheus chegava, de tarde, do trabalho e ia levar nossa cachorra, a Hannah, para passear, que também era um animal bem estranho para os demais por causa da raça diferente, Bull terrier, não raro algum vizinho mais distante perguntava “Você que tem um bode?” ou “Mas seu cachorro se dá bem com sua cabra?”. Hoje rimos disso, mas ficávamos bravos, embora respondessemos com polidez: “Não; é uma ovelha. É da Sarah...”
Mas a grande verdade é que a Sabrina era de nós três.
No começo a Hannah, a Bull terrier, era um pouco bruta com ela. Queria brincar, fazer as loucuras de cachorro dela com a nova companhia e a ovelhinha se encolhia toda de medo. Um dia ela até machucou o focinho e precisou de curativo. Fiquei exaperadíssima, acreditando que não se dariam. Mas, em uma semana, a ovelha queria comer a ração da Hannah, e essa, por sua vez, queria comer a ração ovina. Ambas saltitavam pelo quintal como se fossem da mesma espécie. Já não sabíamos quem agia como cachorro ou ovelha. Ambas confundiam-se. Dormiam juntas e só faltava a Sabrina latir e a Hannah balir. Eram melhores amigas e a Sarah, muito Felícia, abraçava, beijava, e puxava as orelhas da “bé”, porque com um ano e meio, era assim que chamava a “oeinha”. A primeira coisa que fazia quando chegava visita era querer mostrar a “oeinha” dela.
Às vezes, levávamos a ovelha para pastar na casa da minha mãe, que possuía um gramado enorme e a Sarah se divertia como ninguém, e a “vêlhinha” enchia a barriguinha de pasto novo.
Os meses passaram... Sabrina cresceu e defecava mais que davamos conta de limpar. Excremento de ovelha não tem cheiro. Não incomodava ninguém. No oriente médio sabe-se que até chá disso fazem (eca, eu que não experimentaria nem que me pagassem). Mas ninguém quer andar no quintal pisando num tapete de cocô de ovelha. Ela já tinha devorado todo o gramado e minha horta e eu havia entrado no meu último semestre da faculdade que, só quem conviveu comigo, sabe como fiquei doida escrevendo meu livro e TCC. Quase não tinha tempo para me dedicar a ela.
A solução foi levá-la para a casa da minha mãe que, sorrindo e feliz da vida, aceitou-a na mesma hora. Nós ficamos muito felizes também porque quase que diariamente poderíamos vê-la e a Sarah continuar a se divertir com a “Sabina”.
Minha mãe adorou a companhia. Acordava cedo para dar água fresca e os restos do jantar para ela. A Sabrina não poderia estar mais feliz. Banqueteava dia após dia e tinha o carinho tanto da minha mãe, quanto de minha irmã caçula, a Barbara, na época com dez anos.
Mas um fato triste, chocante e decepcionante aconteceu.
O bairro que minha ´~ae morava era residencial, um dito “classe alta”. Um dia ela recebeu a viatura de dois poiliciais ambientais em sua porta. Ligou para mim, toda afobada. Uma denúncia de algum vizinho a respeito de “maus tratos contra um bode”.
Ai meu Deus! Nem tenho palavras para falar sobre meus sentimentos naquela situação. Os policiais entraram e minha mãe esclareceu que não era nada disso. O animal era de estimação e pertencia a sua netinha. Eles, tendo entrado, puderam averiguar que se tratava de uma ovelha, muito bem cuidada, com a melhor das sortes que, um animal usado para gado que estava a ser vendido por quilo, poderia ter.
Não havia o que discutir quanto a beleza (estava gordinha!...) da bichinha e, quem afinal, pode definir o que é animal de pet ou não? Há países que nossos queridos cachorrinhos são gado. A Sabrina deitava no gramado e parecia observar o movimento da rua, parecia fitar o mundo filosoficamente e era a gente chegar, ela levantava para vir comer os agradinhos na nossa mão.
Como tem gente mesquinha nesse mundo! Fazerem minha mãe passar aquele nervoso todo. Porque, juro, depois dos três primeiros dias que ela baliu o dia inteiro, e nenhum vizinho de nossa rua reclamou, coisa rara era ela omitir qualquer som. Era silenciosa e reservada. De barulho ninguém poderia reclamar. Em contrapartida, aquela cachorrada da vizinhança da minha mãe, criada somente para ataque de possíveis ladrões, latiam em nossa orelha sem cessar fosse por um passarinho que pousasse no muro, ou um gato que passeasse no telhado.
A gente simples da rua que morei nunca reclamou. Em contrário. Ou sorriam ternos, ou cheios de graça como que a dizerem: “Gente estranha, esse Matheus e essa Aline.” Meses com a gente e nenhuma reclamação!... Já na minha mãe, em poucas semanas, inventaram essa denúncia mentirosa, preconceituosa, e totalmente esclarecedora de como o coração dessa pessoa (ou dessas pessoas) que denunciou (ou denunciaram) deve ser, para sua infelicidade, vazio.
Se o único motivo que realmente havia para querer se ver livre da nossa ovelhinha na vizinhança fosse a breguisse que talvez possa ter achado nela estar ali num barro de “alta classe”, pois que não passava de um desinformado, sem cultura! Sim! Pois nos países de primeiro mundo, e aqui no Sul, eles usam os ovinos para manter o gramado baixo, em mesmo tempo mantendo o solo rico com os excrementos que rapidamente desaparecem entre a grama ou capim. Economiza-se trabalho, energia elétrica (ou seja, recusos naturais) e ainda dá a chance do animal seguir seu instinto primordial: comer e comer e permanecer vivo.
A Sabrina não precisaria ir embora. Não havia motivo para isso. Além disso, os policiais até se emocionaram com o modo que alguém amava os animais, bem ali, diante de seus olhos. E, depois, os descobrimos muito tementes a Deus.
A pessoa malvada denunciadora proporcionou um encontro para falarmos sobre a palavra do Pai. Já não diz as escrituras? Que até os espíritos malignos trabalham para o Criador?
Mas minnha mãe estava enojada do “vizinho” intriguento entre outras coisas. Queríamos evitar que passasse outros nervosos, porque isso ataca lhe a pressão. Por isso a Sabrina foi para a roça, em Paraibuna. E só podíamos vê-la duas vezes por mês. Que triste para nós.
Planejávamos levá-la de volta para a casa quando eu me formasse, dentro de um ou dois meses. Mesmo que tivessemos de comprar-lhe feno. Mas solta no pasto, no meio de outros animais, logo voltou a ser selvagem. E vimos, o quanto era ela feliz em todo aquele mundão verde de Deus, bebendo água no arroio, comendo aquele pasto sempre fresquinho e gorduroso.
Mas eu estava decidida. Teria outra ovelhinha. Mas quando acontecesse seria num espaço maior e haveria de ser peluda, como sempre sonhei.
Minha resolução não talhava meu coração de sentir falta da Sabrina como sinto ainda hoje; às vezes, até suspiro. Não me impediu de me emocionar quando assisti o filme do porquinho que tinha ovelhas, ou os desenhos da Sarah que esboçavam só um minímo de como esse animalzinho pode ser maravilhoso. Ah, quem dera todas as crianças pudessem ter a alegria da Sarah. Ser o melhor amigo de uma ovelha. Nenhum brinquedo pode substituir a grande dádiva de uma amizade e do aprendizado do amor.
O tempo passou. Nos mudamos. Adversidades vieram e se foram, e vieram outra vez. Mas a saudade da Sabrina e o amor por ovelhinhas cresceu e cresceu em nós. E não desistimos. E não nos curamos dessa nossa doce excentrecidade. Dois anos depois que vimos a ovelhinha Sabrina ficar para trás, em Paraibuna-SP, pela última vez, arrumamos sua sucessora.
Se chama Dupi, é também meiga, mas peludona. Contarei a bela história dela no outro post, porque como sempre, tenho dificuldade de atalhar um história.
Aline N. T. - 12h34min
Aline N. T. - 12h34min
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Oi, Aline! Tudo bem?
ResponderExcluirVim agradecer pela visita e comentário no meu blog :)
Interessante você ter uma ovelha em casa. Eu não sou muito fã de bichos, aqui só tem uns passarinhos, mas eu acho covardia deixá-los presos.
Beijos
Oi, sempre pensei em te perguntar sobre isso de criar ovelhas... mas deixava para quando te encontrasse pessoalmente... Em cidades menores é até mais fácil ( pensei isso por causa de Pinhais), mas nem imaginava que tinha começado em SJCampos.
ResponderExcluirBeijos
Adorei!!!
ResponderExcluirOi amiga, tuso bem?
ResponderExcluirAcabei de ler a história. Linda de emocionar muito.
Parabéns pelo carinho com a ovelhinha. Amei os vídeos postados.
Beijos!!! Saudades
Ei Aline! Como já sabe, passei grande parte de minha infância e adolescência na fazenda de meu pai, foi lá que aprendi a amar os animais, aprendi a respeitá-los e deles cuidar com carinho. Quando falou da carne de coelho, pensei nos muitos e adoráveis coelhinhos que tive... nossa, nem posso pensar neles como alimento. Sei também como são doces as ovelhas (meu pai as criava). Sua história me emocionou e, ao mesmo tempo, me deixou feliz por saber que há quem fale tão lindamente de uma ovelhinha. Você é ainda mais especial por isso. Enorme beijo!!!
ResponderExcluirOlá, Aline.
ResponderExcluirAchei fantástica sua experiência com a ovelhinha.
Tenho procurado características sobre ovelhas, é uma pesquisa que tenho feito sem muito êxito na internet. Se possível, gostaria de sua ajuda para enriquecer meus conhecimentos sobre o comportamento, necessidades e demais coisas sobre ovelhas.
Pretendo visitar bibliotecas e ver livros sobre o assunto.
A única dificuldade real é a de visitar um aprisco (sou de Salvador-BA) pois teria que viajar para uma cidade do interior e não tenho oportunidade para isso agora.
Nada melhor do que uma experiência "in loco", mas esta terá que esperar.
Espero poder contar com sua ajuda.
Suzana Bispo
Olá Suzana, eu peço mil perdões pela demora em responder.
ExcluirAconteceram tantas coisas em minha vida recentemente, o que não é pretexto, mas quero que saiba que seu comentário e interesse nesses seres tão inigualáveis me deixou muito contente...
Claro que ajudo. Tenho aqui mesmo no blog outra postagem sobre ovelhas.
http://www.alineteixeira.com/2013/08/sobre-ovelhas-ii-veganismo.html
Tenho experiências viva com elas. Um dos meus livros, que publicarei em breve, eu expresso todo meu profundo carinho e admiração por esses animais tão queridos e puros.
Espero que ainda esteja em tempo de falarmos dessa riqueza do universo, as ovelhas.
Que legal saber que vc é da Bahia, de onde tenho raízes.
Shalom para vc,
Aline