Pular para o conteúdo principal

Sobre Braille


Por que o meu interesse?



Foto: Aline Negosseki, Biblioteca CAE Anne Sulivan.
Clique nas imagens para vê-las ampliadas.

 Começou quando assisti ao filme A Primeira Vista, com Val Kilmer e Mira Sorvino. Um filme belo, dramático e emocionante, baseado em uma história real que, tendo-o assistido aos 14 anos, nunca mais o esqueci. Indico para todos que são sensíveis, românticos, ou simplesmente curiosos em saber como é a vida diferente da nossa.

Tenho um problema sério na vista direita. Oito graus de Ambliopia e 7 de Miopia. Quando fecho o olho esquerdo, meu olho bom, eu sei o que é me sentir desnorteada, sei como é a aflição de não entender nada do que fica além de 30 centímetros de mim. Para ler com a vista prejudicada, preciso da fonte, no mínimo 16. E os médicos, desde que aos 9 anos quando esse meu problema foi descoberto, sempre disseram: “Cuida bem do seu olho esquerdo, porque não há lente, cirurgia, remédio, qualquer tratamento para o direito.” Foi me conformar e aprender a viver sempre sob cautela com o olho bom.

Mas pensem que eu desisto fácil das coisas? Huá. Nunca.

Vamos chegar lá!

No 2º ano de faculdade meu interesse no Braille, que surgiu ao ver o filme, foi reavivado. Essa grafia é um sistema de leitura e escrita utilizada pelos deficientes visuais, e “aproveita-se da sensibilidade epicrítica do ser humano, a capacidade de distinguir na polpa digital pequenas diferenças de posicionamento entre dois pontos diferentes. um cego experiente pode ler duzentas palavras por minuto” (Wikpédia).

Ou seja, para ler os cegos usam o tato, passando as pontas dos dedos sobre o pontos em alto relevo e decifrando-os.

Não me lembro qual de minhas professoras levou a Professora Luciane Barbosa, que ficara cega aos quatro anos, para palestrar ali, no curso de Pedagogia, na Univap. Mas lembro que me encantei com sua história de vida. A lição viva que era. Formada em três faculdades (antes dos trinta anos), Luciane trabalha, cria materiais didáticos e está sempre envolvida em qualquer coisa para melhorar não só sua vida, mas a de outros tantos deficientes visuais.

O que mais me impressionou, foi o fabuloso amor de seus pais, sempre presentes, dedicados e amáveis. Fico tentando me lembrar dos detalhes, mas já fazem quase cinco anos... Mas marcou em mim o modo emocionado que a mãe de Luciane contou como foi sua trajetória, desde sempre, ao lado da filha a quem inspirou ser uma pessoa da qual, tenho certeza, o Brasil precisava de outras mil feito ela: perseverante.

Depois que li as minhas Polianas descobri que não basta sonhar. Temos de perseverar, dia após dia, não importa quão difícil tudo seja, não importa os obstáculos que surjam. Se perseverarmos e darmos o melhor que pudermos em tudo que fizermos, tudo dá certo, tudo dá resultado.

Foi pelo exemplo de perseverança da Luciane que deixou Taubaté (não tenho certeza se era essa a sua cidade) para ir até São José dos Campos palestrar para nós, que ficou semeada em mim a sementinha, que por um bom tempo ficou adormecida.

Na época, entusiasmada, eu queria fazer o curso de Braille que a Biblioteca Cassiano Ricardo oferecia, mas eu tinha aulas aos sábados na faculdade, e não foi possível.

Quando me graduei, com tempo de sobra, nas lembranças das impressões que o filme e a palestra me envolveram, escrevi um romance, que deve ser publicado no início do ano que vem. O protagonista é cego, bem humorado e independente e, conhecendo a doce Júlia, ele de suas próprias experiências e aprendizados, em exercícios de sentidos, leva-a a redescobrir-se, fazendo-a mergulhar num auto conhecimento que a transforma  e é tão grande essa transformação e envolvimento emocional de ambos que ela chega a temer tanta perfeição, outra vez, ser tragicamente interrompida em sua vida.

Muitas pessoas que leram a novela e muito gostaram, me perguntavam “Mas porque escrever um livro sobre um cego?” ou “Você tem algum cego na família? Porque descreve a situação tão bem!” E eu só respondia: “Pela cega que há em mim e o receio que isso se torne um fato, um dia.”

Ninguém pode prever o dia de amanhã, com precisão. Você sabe o que será de você daqui um mês, uma semana, um dia? Ninguém pode sabê-lo. O tempo de agir é sempre agora. O único tempo que realmente existe, é o presente. Passado é feito de lembranças, e futuro de conjecturas.

E então, muito depois, morando em São José dos Pinhais, lembrei-me do Braille e pesquisei na internet cursos em Curitiba e na minha busca rápida não achei. Estava, em outra ocasião, olhando a página da prefeitura para ver se abria concurso esse ano para lecionar e eis que vejo a reportagem sobre o curso de capacitação de professoras do CAE Anne Sulivan, para a Educação Inclusiva, o Braille.

Liguei para saber quando teria inscrição e ainda demorava. Disse para quem me atendeu que sou escritora e que, além de ser pedagoga, muito queria ver meus livros transcritos e acessíveis a todos.

Passou-se um tempo e ela me ligou, a vaga era minha. Exultei. Só o Matheus sabe minha alegria naquele dia. Torrei todo mundo que conheço com isso.

Já fui a umas quatro aulas desde que iniciou o curso. Minha ansiedade é grande, sou afobada, quero fazer tudo logo, treino em casa. Se treino em casa é porque enfim tenho minha reglete, punção e prancheta. Vocês não imaginam a tortura que foi esperá-la chegar depois que a encomendei.

Veio de Pernambuco. Não é fácil encontrar esse apetrecho que serve para escrever manualmente em Braille. Além de não ser fácil, não é barato.

Enquanto qualquer pessoa precisa de um lápis e um papel, não mais que 1 real para se expressar escrevendo, o cego precisa de no mínimo 50 reais, que foi o que custou meu kit. Uma máquina de escrever em Braille? Na faixa de dois mil, e uma impressora, que tanto facilita, otimiza o trabalho não sai por menos de vinte mil reais. Ainda tem o papel, que precisa ter mais gramatura, o que fica mais caro. Cerca de R$3,50 o bloco com 50 folhas de 120grms.

Execução do material e foto: Aline Negosseki
A professora Cristina nos vendou os olhos, e nos levou para andar pelo prédio, pelo pátio, pelas escadarias, usando a bengala, a fim de entendermos como é estar cego, e seu cotidiano. Junto da professora Neuzira, conta-nos histórias, umas comoventes, outras engraçadas, faz-nos perceber as reais dificuldades do deficiente visual, em todas as idades, tanto escolar, como adulta, e são tantas as coisas que eu aprendi em apenas 4 aulas que, maquinando tudo o que queria acrescentar ou modificar no livro por pensar no tanto que eu aprenderia em todo o curso, que decidi não publicá-lo agora, mas no ano que vem, adiantando assim a publicação de Por Falar em Disputa...

Vou vendo cada aula que dura 3 horas como que passar em 3 minutos... E que dizer da satisfação dos intervalos alegres?

Por causa desse curso também, indicada pela professora Cristina, que com exercícios de estimulação conseguiu melhorar muito a visão de sua avó de mais de noventa anos, cheguei a uma oftalmologista que acredita na cura, ou ao menos melhoria do meu problema de Ambliopia. Pediu exames que nunca, nenhum outro médico pediu. Gostei dela já quando me disse que se fosse para nos contentarmos com um olho só era assim que nasceríamos. Não é? Afinal não somos ciclopes. Vou fazer de tudo.

Ao que tudo indica, meu olho é fisicamente perfeito. Apenas por eu ter nascido com um alto grau de miopia, o cérebro o ignorou e jogou toda a responsabilidade de ver no esquerdo. Mas isso, os exames vão dizer. Estou fazendo exercícios em casa (ocluindo o bom e esforçando o preguiçoso) e muito empolgada com as perspectivas. Se nada disso der certo, se eu tiver mesmo um problema irreversível, não ficarei me descabelando, nem aflita, ou coisa que valha. Abatida, a um primeiro momento, talvez. Mas afinal, para quem já sabe viver assim, e já o faz há 24 anos, não vai mudar nada.


Foto: Aline Negosseki, O Tempo e Vento,
Biblioteca CAE Anne Sullivan

Mas vou levar comigo, a cada dia da minha vida, a lembrança de meus olhos terem até umedecido quando, já na primeira aula a professora, sem saber da minha profunda admiração por Erico Verissimo, disse que a biblioteca do instituto possui uma versão de O Tempo e o Vento em Braille em mais de 80 de volumes! O qual, claro, quis conhecer de perto. Mas antes disso, levarei na alma os textos de Hellen Keller que conheci graças ao amável “boas-vindas” que as professoras nos deram. Vou levar comigo a lição que é essa escritora exemplo de vida, superação e inteligência, que era cega, surda e muda, ter aprendido a ler e escrever através do tato, quando tocava a garganta de sua professora, Anne Sulivan; isso no início do século XX, num tempo em que não havia tanta tecnologia como se tem hoje, tanta acessibilidade.


Foto: Aline Negosseki, Biblioteca CAE Anne Sullivan

Não cabe eu contar a extraordinária história de vida dessa mulher não só a frente de seu tempo, mas até mesmo a frente do nosso tempo. E só a citação que está, decerto, em uma de suas obras que muito quero ler, nos fala sobre quem ela é: “Nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar”. Depois de ler um único texto completo dela, posso pedir: Pesquisem sobre ela e descubram um motivo para jamais se deixar abater por nada nesse mundo! Um motivo para tentar fazer algo por si e pelo próximo. Aprender a ser Poliana, como eu digo, a Polianar. A se superar. E dar amor.

Vou deixar aqui a frase com a qual nos presenteou as professoras, além do gracioso caderno que nos confeccionou, que me marcou:

“Não há melhor maneira de agradecer a Deus pela visão, do que dar ajuda a alguém que não a possui.” Hellen Keller

Agradeço ao Senhor por me ter deixado ter uma visão quase perfeita e não é sacríficio nenhum, é antes divertido regletar meus textos para o Braille e que seja só o começo de tudo! 

Já escrevi um livro de Haicais em Braille, adicionando uns que eu já escrevera, e uns que inspirada por tudo isso, compus especialmente para o volume. Depois de tudo pronto, normatizado espero vê-lo publicado também. Mas o primeiro exemplar, será com muito carinho para o Instituto, para o qual também inclusive já consegui uma versão em áudio de O Último Baile do Império que será gravado a qualquer momento pelo Instituto Sal e Luz, no Rio de Janeiro. Que engraçado como a vida é uma teia complexa e maravilhosa! Descobri o Instituo sal e Luz por um e-mail de encaminhamento de uma doutoranda da obra do Erico Verissimo que conheci no Grupo desse autor!

Agora minha luta é conseguir alguma Organização ou Instituto que o possa transcrever e imprimir em Braille. Vou tentar de todas as formas, se não conseguir, vou até a Biblioteca Pública do Paraná datilografar, ou nem que que tenha de regletar a mão e leve um ano, vou ter meus três exemplares: um para a BPP, outro para a Biblioteca Municipal de São José dos Pinhais Schaffenberg de Quadros, e outro para o Instituto, onde a professora Cristina disse haver outra como eu, uma devoradora de livros — mas ela precisa de que eles sejam em Braille.



Aline N. T. - 11hrs30min.







Comentários

  1. Bela iniciativa, vou ficar torcendo para que consiga fazer as transcrições e impressões dos livros.

    Sucesso!

    ResponderExcluir
  2. Linda postagem! Tenho certeza de que há algo maior que nos leva a trilhar certos caminhos... Seu curso será útil para você, as pessoas com quem se relaciona e tantas outras que ainda nem a conhecem. Você não é só uma escritora talentosa e sensível, você é uma pessoa iluminada e especial. Deixo minha admiração e carinho!!! Super beijo!!!

    ResponderExcluir
  3. Uma bela lição de vida, partindo de uma mulher tão jovem! Parabéns e muito sucesso!

    ResponderExcluir
  4. Combateremos no ar, no mar, de porto em porto, de cidade em cidade, de rua em rua, de esquina em esquina, de casa em casa, nunca nos renderemos - palavras dias pelo Primeiro Ministro inglês, no auge da guerra e que tomei como lema. Nunca nos renderemos. Vê-la com essa mesma disposição chega a dar alegria aos seus amigos, eu pedindo permissão para me incluir entre eles

    ResponderExcluir
  5. Aline sempre consegue me levar as lágrimas! Que post mais lindo, cheio de dedicação e coragem que salta a cada palavra...
    Só para poder ler o seu livro de haicais comecei a procurar aulas de Braille aqui em PE.
    Parabéns por toda determinação minha amiga, que você alcance todos os seus objetivos, eu estarei por aqui sempre lhe acompanhando e na sua torcida.

    Obs: Eu realmente lí isso? Meu Devooon vai ser públicado próximo ano? Mal posso esperar OMG *-*

    Com todo meu carinho e admiração, um abraço beeem apertado,

    :*

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Oficina de Haicai - Escola Rural Caetano da Rocha

No dia 26 de Setembro mediei mais uma proveitosa Oficina de Haicai. Que satisfação! Participaram crianças entre 5 e 11 anos, conheceram o Haicai ou Haiku, o qual como eu esperava jamais haviam falar, e foi, como esperava, uma experiência maravilhosa. Quando eu cheguei em casa eu estava tão deslumbrada com o resultado, com o brilho que acendeu-se nos olhinhos das crianças, que escrevi o seguinte: "Só tem uma coisa que eu quero fazer na minha vida profissional e o farei com todo meu amor, sempre e sempre: incentivar crianças (grandes ou pequenas) a não só lerem e escreverem, estarem em contato com a arte literária, como se abstraírem  para a poesia... a poesia quem em tudo está! Foi maravilhosa a Oficina de Haicais que mediei hoje na Escola Rural Caetano da Rocha! O que era aquele brilho nos olhos das crianças quando me despedi delas?... ♥"  26 de Setembro  de 2012, 18h09min A bela lua encimava o dia, e nisso não há contradição, assim ela quis nesse di...

As Artes e o Processo Criativo

Frederick Leighton Inglaterra 1830 - 1896 O estilo desse pintor é o 'Acadêmico'. Embora meu estilo predileto seja o impressionismo de meus queridos Renoir, Mary Cassat e Berthe Morissot, eu não deixo de admirar o sentimento com que tantos gênios impregnaram a arte plástica nas mais variadas escolas artísticas. Todas elas grandemente, profundamente, suspirosamente me inspiram para escrever. Vamos olhar cuidadosamente para cada tela? O que sente, o que imagina, para onde seu pensamento 'viaja' com cada uma das telas? "Casado" A acima me faz pensar no rei Davi. "A lua-de-mel de um pintor." Essa pintura do artista e sua esposa me dá ensejo para mil fantasias que eu poderia tornar em enredos. Históricos, claro. ;) Como mil questões passeiam em minha mente quando me deparo com qualquer manifestação artística, as respostas acontecem artisticamente na literatura... a arte com a qual mais me identifico desde ...

Lançamento! Um Farol Para Meu Amado - Novela

Uma surpresa que venho preparando para vocês, leitores e leitoras! Escrevi essa novela em 2010 e estive ultimamente preparando-a para uma publicação exclusiva para mídias digitais, inclusive PC. Espero que gostem... A história de Luís e Ana me faz literalmente andar por onde eu ando, porém num outro tempo! Um tempo em que amar demais não era exagero, era esmero! Um abço a todos, Aline! ;* “O que ilumina a jornada daqueles que se aventuram a amar? Há aqueles que diriam: a fé.”  Aninha nunca se esqueceu de Luís, seu amor de adolescente, que deixou a fazenda Simão para nunca mais voltar e lhe dar um de seus inigualáveis sorrisos. Sedenta em conhecer outro modo de viver, ela deixa aos 16 anos a Colônia em que nasceu, no interior do Paraná para, um enigma que não revela a ninguém, buscar uma faísca de destino no tempo. Em pleno período da Segunda Grande Guerra, ela vai para a Capital estudar enfermagem, na esperança de reencontrar seu grande amor que, an...