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O Último Baile do Império

Como essa história aconteceu? — III

Não leu a primeira e segunda parte? Clique aqui: Parte I ou Parte II

Em dezembro do mesmo ano em que fui a Paquetá, entre o natal e o ano-novo conheci o Matheus, e antes que 2002 chegasse começamos a namorar. Nos anos que se seguiram, noivei, conheci o Erico Verissimo quando me obrigaram a ler Um Certo Capitão Rodrigo (hoje agradeço tanto!), conheci O Tempo e o Vento e Clarissa, casei numa festa com quase tudo que sonhei, entrei na faculdade para cursar pedagogia, me tornei vegetariana, tive minha ansiada filhinha, virei uma d. Bauducca/Menina da Cesta/Chapéuzinho, conheci a transdisciplinaridade e o complexo – ufa! Todas essas coisas que, em particular, mudaram minha vida eu consegui resumir num único parágrafo ou escreveria um livro de post em post se fosse contar em detalhes! Todas essas são outras histórias.

Em julho de 2007, estava no terceiro ano de faculdade e eram aquelas férias de inverno um tanto aborrecidas. Com pouco mais de um aninho a Sarah dormia algumas horas no meio do dia e o Matheus, saindo para trabalhar, me via ficar em casa “mofando” pelos cômodos. Como eu andava há muito sem ânimo para bordados e pinturas andava pela casa entediada, com saudades de ir às aulas. Depois do almoço de um dia friorento e ensolarado ele me disse: “Porque você não escreve um livro? Agora você tem tempo para começar.”
Disse isso porque sempre me ouvia comentar sobre meu desejo de escrever um romance e desde que éramos noivos que eu não lhe escrevia uma poesia que fosse. Afincava todos meus esforços nos artigos e trabalhos da faculdade e nos planos que nunca iniciava para a minha monografia.

Quando ele saiu, fiquei pensando em sua sugestão e nos meus sonhos antigos de escrever uma história de amor. Sem pretensões liguei o laptop que sempre afanava da minha mãe e escrevi rapidamente sem pensar muito: “Parecia, para Angelina, a única Sinhazinha da extensa Fazenda Ouro Negro, que já não poderia mais suportar a inalterabilidade...”
Meus dedos voavam pelo teclado e eu assustava-me com o que estava acontecendo bem ali, mas não ousava parar nem para respirar, de medo que aquilo, aquela onda de turbilhão que dominava minha imaginação e espírito, terminasse e eu voltasse a esterilidade criativa literária que me envolvia já há alguns anos.
Quando muito tempo se havia passado a Sarah chorou, lá no bercinho e, entre espantada e excitada, contemplei as várias páginas que tinha escrito. Um capítulo inteiro e me perguntava de onde tinha vindo aquela cena misteriosa do estranho a invadir o aposento da Angelina. Porque um mascarado? O que era afinal a estranha cena da pintura e tudo o mais?
Quando, mais tarde naquele dia, mostrei para o Matheus ele sorriu e me incentivou a prosseguir e os dias que se seguiam eu avançava sempre um pouco na narrativa. Lembro-me de, às vezes, acordar no meio da noite com uma cena pronta na cabeça e correr para escrevê-la no computador ou, se o frio era muito, fazia deitada mesmo no meu caderno de anotações.
Conforme a história desenrolava e eu fazia pesquisas históricas, tinha cada dia mais certeza que queria que o desfecho da trama coincidisse com a proclamação da república que, tola, eu enxergava como um dia de liberdade para o Brasil. Não foi só divertido escrever esse livro. Aprendi muito também. Descobri que o poder mudava de mãos, mas a elite ainda perduraria. Os interesses não eram idealísticos, e os Barões que mantinham o império foram os mesmos que o fizeram cair, mantendo-se assim, por ainda um bom tempo, imperativos. E isso me deixava assombrada. Como o conhecimento se constrói mais claro em nossa mente quando a pesquisa tem um fim, no caso, o livro! E não sem nexo como costumava ocorrer nas escolas em que estudei.
De pesquisa em pesquisa, sites aqui, livros ali, revistas de história (adoro) acolá, soube que dias antes da proclamação da república houvera um grandioso baile para comemorar as bodas de prata de Isabel, A Redentora com seu esposo, o Conde d’Eu e também homenagear o navio chileno que no Rio de Janeiro aportara. Pronto. Apesar de não saber bem o que, nem como seria, sabia que o grande desfecho haveria de ser nesse baile. Eu queria que fosse num baile. E, para grandes sorrisos meus, nessas pesquisas super empolgantes, desvendei o mistério que faltava para, na mente, fechar a trama. Tal festa ocorreu no mesmo palácio que eu vira em 2001, quando voltava da Ilha de Paquetá. O castelo da Ilha Fiscal. Tenho uma foto dele, mas está perdida por aí, porque a usamos para fazer banners de divulgação do livro.
Por isso, o título em Times New Roman cresceu de “O Último Baile” para “O Último Baile do Império” em alusão ao momento histórico envolvido e a ser nesse último baile a derradeira noite de refém de minha protagonista.

Mas se já sabia como seriam os fins e a resolução dos mistérios, pouco sabia dos comos da narrativa e havia ainda um longo caminho de escrita para a inexperiente escritora.
Entre alguns franzires de rosto, muitos "repeats" das Polonaises, Nocturnes e Walts de Chopin e os Fados doces e dramáticos de Madredeus de fundo, eu ia página a página desvendando as inquietações que, indagando-me sempre, tantas noites me afastavam o sono.
Ainda tenho na memória, também, com perfeição, a tarde que minha mãe comprou na Siciliano meu amado volume FAZENDAS – Solares da Região Cafeeira do Brasil Imperial que tanta inspiração meu deu para o livro. Ela me comprara para um trabalho que fiz para a faculdade sobre os pintores que retratam o Vale do Paraíba. Fiz um retrocesso histórico abordando José Villarongo e os afrescos com que esse espanhol minuciosamente decorava as paredes dos palacetes dos nobres da região cafeeira. O livro se tornou e ainda é fonte inesgotável de inspirações e cada foto (são muitas) de solares e seus interiores que estão em suas páginas me inspiram enredos inteiros.

Logo começaram as aulas e meus dias de pasmaceira de férias de julho ficaram no passado. Muitos trabalhos, provas, artigos, estágio, planejamento de monografia e capítulos do mesmo para redigir, casa pra cuidar, filha, biscoitos e alfajores para fazer e vender no intervalo das aulas, mãe e sogra para visitar, meu querido romance ficou de lado e era de semanas a semanas que tocava nele. Acontecia naqueles surtos incontroláveis de inspiração em que temia que as personagens que rondavam meu sono ou minhas lavações de louça sumissem com as ideias que vinham me trazer.
Largava disso e ia lá escrever. E, enternecida, não era raro a Sarinha vir nos seus passinhos trôpegos pedir colo ou atenção. Lá deixava eu de lado o momento férvido de criação, tomando o cuidado de anotar em garranchos para ser bem rápida os tópicos principais das ideias que me ocorriam.

Em dezembro, janeiro e fevereiro seguintes tive muita folga para escrever. Dividia o tempo para escrever a monografia e o livro já que não tinha outras preocupações com a faculdade.

Pesquisando descobri algo que doeu em mim e cheguei a pensar em deletar o livro, o que o Matheus me persuadiu em contrário. Os milhares de contos de réis que foram gastos para construir o palácio e realizar a festa com seus aparatos vindos da Europa especialmente para a ocasião seriam, na verdade, destinados a amenizar o flagelo que uma terrível seca causara no Nordeste. Contudo a monarquia do Brasil, que já se sabia lá mal das pernas, precisava de algum modo reafirmar-se perante todos tentando garantir, em vão, com ostentação sua soberania.
Então pensei: a história que estou contando é sobre os dramas e conflitos de Angelina. Os fatos históricos são o pano de fundo e cenário. Decidi-me focar nela e principalmente nela a narração. Por isso continuei e depois de reler o livro pude notar a sutileza que ocorreu para, por meio de Manoel Sá, imagem de Barão cafeeiro que tomou prejuízo ao ver seus escravos serem libertos, contar a caminhada naquele ano de 1889 do Brasil rumo a república que, se antes eu via glória nisso, passei a ver apenas trâmites de interesses.
As aulas voltaram e com elas toda a minha correria. Era o último semestre de faculdade e eu sabia que se não acabasse logo o livro, só no outro, após a formatura é que poderia fazê-lo. Apesar de não ter de me preocupar mais em fazer meus deliciosos e almejados biscoitos de polvilho por que finalmente o Matheus conseguiu outro emprego eu ainda tinha muitas horas de estágio para enfrentar, a monografia que andava pela metade com suas entrevistas, aplicação prática e tudo o mais que abocanha o acadêmico nos seus últimos meses de curso.
Lembro-me que por alguns dias seguidos, todas as noites, sentei por horas diante do laptop e me empenhei a escrever a história que, se estava viva em minha mente e alma, ainda não estava pronta aqui fora. Lembro com perfeição a noite em que cheguei ao Capítulo XIV. Tinha lúcido e claro na mente que a grande revelação da história pedia os versos que sempre ouvia minha mãe dizer desde que me entendo por gente. Os bíblicos e os populares. Sabia como era, consegui esboçar, mas precisava das palavras certas, as que ela sempre me dizia. Não gosto de telefones. Detesto. Mesmo falar com pessoas tão próximas como minha mãe eu fico aflita. Mas eu precisava das palavras certas. Por isso liguei para ela que me esclareceu que eu as acharia na bíblia e que as outras, eram sabedorias que ela tinha ouvido dizer por aí; com a mãe dela, em algum livro ou revista, quem sabe?
Procurei na bíblia e isso levou algumas horas. Mas quando finalmente encontrei exultei e me pus a transcrever tais sentenças:
“Porque nada há encoberto que não haja de ser manifesto; e nada se faz para ficar oculto, mas para ser descoberto.” (Mc. 4:2)
E a sabedoria popular eu escrevi de acordo ao que me lembrava das palavras de minha mãe:
“A verdade é como o azeite. O azeite, adicionado a água, não pode ser dissolvido. Ainda que se tente escondê-lo sob a água, ele sempre vem à tona. A verdade não pode ser misturada. Não existem meias-verdades. A verdade, ainda que demore, sempre emerge. (Sabedoria popular)”Depois, mais uma ou duas noites eu terminava de escrever o livro e o Matheus surpreendeu-se e sorria muito feliz porque eu realmente havia conseguido! Ficou até “futricando” o arquivo para ver quantas páginas teria em padrão de livro. Se ele estava alegre por isso, imaginem eu! Às vezes, ficava namorando aquelas páginas que despretensiosamente começara a escrever, lendo meus trechos favoritos e pensando: “E agora, eu faço o que?”. Apesar de eu gostar do que tinha escrito, não era o bastante. Muitas vezes em que eu relia, ao invés de gostar, achava infantil. Tinha vontade de deletar ou ficava mudando trechos, como é o caso do primeiro parágrafo que citei no começo do post e, se forem ver, é hoje diferente do primeiro que escrevi.
O Matheus comentou: “Alguém que goste bastante de ler deveria ser uma cobaia.” Não era o caso dele que, indivíduo das exatas, detesta ler.
Lembrei-me do meu professor de literatura. Adorava suas aulas (oh, porque será? Acho literatura tão chata...) e bailou na minha mente um dia em que conversamos sobre os livros do Erico. Eu elogiava “Clarissa” e ele me recomendava que lesse “Noite”. Aí pensei: “Puxa! O professor Cláudio gosta de ler, e também romances. Ele, com certeza, me daria uma opinião verdadeira.” Sempre falava a verdade mesmo, pois me lembro das minhas primeiras avaliações todas riscadas de vermelho e suas críticas educadas e construtivas — é um professor paciente e nos devolvia os textos para reescrevê-los várias vezes, até que chegassem “no ponto”. Alegava que assim é a vida do escritor, pouca inspiração e muito suor são necessários para um bom texto. E dizia-nos para ler muito para melhorar a escrita e que, ainda, quem lê fica sexy.
Quando propus se ele não poderia ler meu romance para dar uma opinião sincera, visto que eu me sentia insegura, ele sorriu e disse-me que faria com o maior prazer. E nunca vou me esquecer disso, já vou explicar por que. Era último semestre para ele também. Tinha muitos, muitos, muitos trabalhos (equivaliam a livros maiores que os meus!) para corrigir, apresentações para assistir, monografias para orientar, eventos para participar, aulas para dar, tudo isso em mais de um campus. E ele não só leu, como corrigiu meu original enchendo-o de adoráveis vírgulas e outras correções.
Fui três vezes procurar por ele. Na primeira disse que estava lendo e gostando muito, ansioso por saber o desfecho. Na segunda, semanas depois, fiquei muito triste por ele porque o encontrei abatido, sua mãe estivera internada e falecera há poucos dias. Disse-me que nem cabeça tivera para quase nada. Comovida, lhe desejei conforto e só o procuraria semanas depois.
Enquanto isso eu fazia com o pessoal do curso de Artes Visuais uma matéria para repor outra que deixara de fazer por ocasião do parto da Sarah em 2006. Como já contei em outro post extravasei pegando dos meus rabiscos que fizera no tempo de criação do romance e utilizando-os para fazer arte!
Então procurei o Professor pela terceira vez. E ele tinha terminado sua grandiosa gentileza, a qual contarei como foi na próxima postagem porque já ultrapassei há muito o limite de duas páginas que havia pré-estabelecido por mim para cada post!

Agradeço a paciência dos que têm acompanhado a história e tranquilizo-os, a próxima postagem será a parte final!


Aline N. T. - 18h39min

Comentários

  1. Aline *__*
    Seus relatos por sí só são um romance! Eu não consigo desgrudar os olhos enquanto leio post, igualmente quando estou lendo uma maravilhosa história, nem vejo o tempo passar e choramingo por mais a cada vez que se encerra... Você sabe como envolver e prender o seu leitor por aqui!
    É mágico ficar sabendo todos esses processos de criação e agradeço suuuper ao Matheus por não permitir que você deletasse o arquivo do livro, Ufaaa!

    P.S: Somos duas então, tenho pavor a telefones. Secret! hahaha

    Anciosa demaaais pela parte IV.

    Abraço apertado, :*

    ResponderExcluir
  2. Aline, você descreve o próprio cotidiano de uma forma deliciosa de se ler. Já pensou em escrever um romance na primeira pessoa?
    Aguardo o final...
    Marion

    ResponderExcluir
  3. Tenho a cada dia encontrado mais pessoas do meio literário que detesta telefones! Puxa, deve sar da veia de letras então!

    Ai, Ialy, vc que é sempre um exagero maravilhoso de incentivo e sempre muito meiga. Agradeço pelo comentário super fofo e uma doce abraço "marciano" pra vc ^^
    ;*
    Aline


    Obrigada de novo, Marion!
    Eu já pensei sim, mas me sinto insegura. Comecei esses dias a rabiscar um conto em primeira pessoa, inspirado num sonho que tive, e sabe que estou gostando muito da experiência? Últimamente que eu tenho lido vários romances em primeira pessoa tem me despertado algum gosto e planos em fazer isso! Coisa antes impensada já que adoro sondar os pensamentos de todos as personagens do texto, rsrs.
    Abçs
    Aline

    Estou escrevendo o final e logo que terminar e revisar postarei^^

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