Como essa história aconteceu? — II
Não leu a primeira parte? Clique aqui: Parte I
Quando passamos sob a ponte Rio-Niterói o luminoso sol daquela manhã de um perdido dia de março, talvez abril de 2001, jogava sobre a água salgada cinzenta do mar sereno pingos esfuziantes de luz. O céu estava um azul muito claro e com olhos curiosos, vi ficar para trás o portentoso castelo que me acendeu a curiosidade, mas, empolgada que estava por estar a caminho da Ilha de Paquetá, logo esqueci dele...
Passamos diante da Ilha do Governador e me disseram que ali fica o retiro de veraneio dos Governadores do Rio de Janeiro. Não sei se é verdade.
Quando pus os pés na pequena Ilha que se espalha em uns poucos quilômetros quadrados, vi longe a casa cor-de-rosa onde foi gravado o filme “A Moreninha” e, aproximando-me era como se eu visse naqueles jardins a festa de Santa’na onde os amigos de Augusto, Fabrício e Leopoldo o levaram ao seu destino: escrever o livro da história de sua derrota. Era como se eu visse o casal tomando a fresca, D. Carolina sentada numa cadeira, bastidor no regaço ensinando impaciente seu Augusto a marcar.
O outrora impávido, agora resignado e apaixonado aluno a dizer “Sim, minha bela mestra...”
Como é lindo e poderoso o poder da imaginação... Só fiquei muito, muito decepcionada porque a Casa estava fechada para visitação e, cabisbaixos, restou-nos conhecer os outros recantos e histórias da Ilha...
Tratou-se logo de alugar bicicletas. Na Ilha de Paquetá, ao menos quando lá estive, não era permitido a entrada de qualquer veículo, a não ser o do Corpo de Bombeiros.
Os habitantes de tão meigo lugar transitam por lá mesmo de bicicleta. Eu, que sou toda bucólica, achei o máximo isso... Mesmo porque não se demora mais que meia hora de bicicleta para volteá-la toda. Minha mãe levava minha irmãzinha, Babu, então de 4 anos na sua, e não me lembro se a outra irmã, Manu, a de nove ia com o pai ou guiava por ela mesma sua própria bicicleta. Eu ia com minhas ondas de empolgação no ventre, pedalando junto de todos os outros, por aquelas ruas centenárias.
O guia ia na frente contando muitas coisas, e eu ia sorridente, pedalando ainda, vento no rosto, saboreando cada lenda local com o sortilégio do encantamento da minha mente sempre ‘viajística’. Ia ele (ou seria ela? Ai memória!) dizendo que o gosto dos habitantes é preservar tudo como é, e que a preocupação ecológica é tão grande com esse patrimônio histórico e cultural, que é como se Paquetá tivesse parado no tempo. E é verdade. Me sentia tão feliz! Ela conservava em si tanta magia que foi como se eu estivesse mesmo num mundo a parte, numa outra época, longe de certas loucuras do mundo pra cá que tanto já me aborreciam e continuam aborrecendo.
Tiveram umas da paradas que marcaram minhas lembranças. E talvez, um dia, eu já seja muito idosa e me lembrarei como me recordo agora, que é como aconteceu naqueles momentos. A horda de turistas sorridentes parou as bicicletas diante de um cemitério. Mas não achem que seja coisa tétrica ou ideias mal-assombradas. Foi-nos dado a conhecer o único cemitério de passarinhos que já vi e tive a chance de conhecer. Cada ave que falece na tal ilha, seja dos habitantes ou encontrado em suas pequenas matas, areias e jardins tem lugar garantido ao pé das pequeninas lápides que guardam nelas a espécie que encasulam num relicário de meiguice. Sob árvores frondosas e as sombras muito frescas que dão. Eu já bem dizia que foi mesmo um lugar sem igual...
Passamos também diante a Pedra dos Namorados, da qual mais tarde pudemos todos nós cinco nos divertir a cerca dela. É uma rocha imensa que repousa perto da praia, mas ainda abraçada por águas salgadas, rasas e tranquilas; mornas, deliciosas como meus pés puderam perceber ao ali brincar acompanhada de minhas irmãs. Tem uma lenda inspiradora, e essa ainda não me há de escapar, que diz que uma moça, ou um rapaz que, estando de costas e a certa distância dela, puder atirar uma pedra que caia sobre ela e ali permaneça, sem deslizar para a água, esse rapaz ou essa moça terá sorte e muita felicidade quando se casar. Eu fiz e minha pedra ficou ali e eu, nunca dada a superstições, por ser bem religiosa, não dei crédito. Apenas sorri.
Mas, “como há mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia”, é verdade que isso veio mesmo a acontecer! E sei que foi para compensar todo o resto e outras desilusões que não têm relação com romance, mas outras afetividades...
Já era o entardecer e o sol se punha dourado no horizonte, além e além da Ilha do Governador. As águas estavam plácidas e belas, como um espelho e, para tristeza minha, era quase hora de ir embora. Quando anoitecesse a última barca partiria. Depois do lanche num boteco muito familiar e encantador com música ao vivo, e muitas fotos no rolo de trinta e seis poses, fomos embora. Porque se a barca nos esquecesse, por termos dela nos esquecido, teríamos de dormir ao relento, bem ali, a menos que um dos meigos e solícitos habitantes, tão bons de conversa nos desse pouso.
Ainda hoje tenho raiva de mim por ter esquecido no banco da barca a máquina de fotografias, que não era minha e ouvi muita bronca por isso. Mas, como não foi apenas eu quem se encantou com tudo vivido na Ilha de Paquetá, foi bom tê-la perdido (porque lembro que ela se chamava Le Click?) voltamos a Ilha num outro dia para repetir tudo e tirar novas fotos com uma máquina que comprei numa feira duvidosa embaixo de uma ponte a caminho da cais. Lembro que o moço, muito prestativo, colou a tampinha onde se põe as pilhas com fita isolante a garantiu que ela tiraria fotos ótimas. Fiquei ressabiada e minha mãe me tranquilizava. E foi verdade. E são elas que postarei aqui Fotos, para vocês verem e ficarem com muita vontade de ir lá também, porque, contando essa história, estou doida para voltar lá um dia. Quatro anos depois estaria eu, conversando num inglês muito engrolado, num avião da British Airways, com uma turista inglesa que, companheira de cadeira, me perguntou qual o lugar que não deveria de deixar de conhecer no Brasil. Respondi sem pensar “Paquetá Island, Rio de Janeiro”.
Não leu a primeira parte? Clique aqui: Parte I
Quando passamos sob a ponte Rio-Niterói o luminoso sol daquela manhã de um perdido dia de março, talvez abril de 2001, jogava sobre a água salgada cinzenta do mar sereno pingos esfuziantes de luz. O céu estava um azul muito claro e com olhos curiosos, vi ficar para trás o portentoso castelo que me acendeu a curiosidade, mas, empolgada que estava por estar a caminho da Ilha de Paquetá, logo esqueci dele...
Passamos diante da Ilha do Governador e me disseram que ali fica o retiro de veraneio dos Governadores do Rio de Janeiro. Não sei se é verdade.
Quando pus os pés na pequena Ilha que se espalha em uns poucos quilômetros quadrados, vi longe a casa cor-de-rosa onde foi gravado o filme “A Moreninha” e, aproximando-me era como se eu visse naqueles jardins a festa de Santa’na onde os amigos de Augusto, Fabrício e Leopoldo o levaram ao seu destino: escrever o livro da história de sua derrota. Era como se eu visse o casal tomando a fresca, D. Carolina sentada numa cadeira, bastidor no regaço ensinando impaciente seu Augusto a marcar.
O outrora impávido, agora resignado e apaixonado aluno a dizer “Sim, minha bela mestra...”
Como é lindo e poderoso o poder da imaginação... Só fiquei muito, muito decepcionada porque a Casa estava fechada para visitação e, cabisbaixos, restou-nos conhecer os outros recantos e histórias da Ilha...
Tratou-se logo de alugar bicicletas. Na Ilha de Paquetá, ao menos quando lá estive, não era permitido a entrada de qualquer veículo, a não ser o do Corpo de Bombeiros.
Os habitantes de tão meigo lugar transitam por lá mesmo de bicicleta. Eu, que sou toda bucólica, achei o máximo isso... Mesmo porque não se demora mais que meia hora de bicicleta para volteá-la toda. Minha mãe levava minha irmãzinha, Babu, então de 4 anos na sua, e não me lembro se a outra irmã, Manu, a de nove ia com o pai ou guiava por ela mesma sua própria bicicleta. Eu ia com minhas ondas de empolgação no ventre, pedalando junto de todos os outros, por aquelas ruas centenárias.
O guia ia na frente contando muitas coisas, e eu ia sorridente, pedalando ainda, vento no rosto, saboreando cada lenda local com o sortilégio do encantamento da minha mente sempre ‘viajística’. Ia ele (ou seria ela? Ai memória!) dizendo que o gosto dos habitantes é preservar tudo como é, e que a preocupação ecológica é tão grande com esse patrimônio histórico e cultural, que é como se Paquetá tivesse parado no tempo. E é verdade. Me sentia tão feliz! Ela conservava em si tanta magia que foi como se eu estivesse mesmo num mundo a parte, numa outra época, longe de certas loucuras do mundo pra cá que tanto já me aborreciam e continuam aborrecendo.
Tiveram umas da paradas que marcaram minhas lembranças. E talvez, um dia, eu já seja muito idosa e me lembrarei como me recordo agora, que é como aconteceu naqueles momentos. A horda de turistas sorridentes parou as bicicletas diante de um cemitério. Mas não achem que seja coisa tétrica ou ideias mal-assombradas. Foi-nos dado a conhecer o único cemitério de passarinhos que já vi e tive a chance de conhecer. Cada ave que falece na tal ilha, seja dos habitantes ou encontrado em suas pequenas matas, areias e jardins tem lugar garantido ao pé das pequeninas lápides que guardam nelas a espécie que encasulam num relicário de meiguice. Sob árvores frondosas e as sombras muito frescas que dão. Eu já bem dizia que foi mesmo um lugar sem igual...
Passamos também diante a Pedra dos Namorados, da qual mais tarde pudemos todos nós cinco nos divertir a cerca dela. É uma rocha imensa que repousa perto da praia, mas ainda abraçada por águas salgadas, rasas e tranquilas; mornas, deliciosas como meus pés puderam perceber ao ali brincar acompanhada de minhas irmãs. Tem uma lenda inspiradora, e essa ainda não me há de escapar, que diz que uma moça, ou um rapaz que, estando de costas e a certa distância dela, puder atirar uma pedra que caia sobre ela e ali permaneça, sem deslizar para a água, esse rapaz ou essa moça terá sorte e muita felicidade quando se casar. Eu fiz e minha pedra ficou ali e eu, nunca dada a superstições, por ser bem religiosa, não dei crédito. Apenas sorri.
Mas, “como há mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia”, é verdade que isso veio mesmo a acontecer! E sei que foi para compensar todo o resto e outras desilusões que não têm relação com romance, mas outras afetividades...
Já era o entardecer e o sol se punha dourado no horizonte, além e além da Ilha do Governador. As águas estavam plácidas e belas, como um espelho e, para tristeza minha, era quase hora de ir embora. Quando anoitecesse a última barca partiria. Depois do lanche num boteco muito familiar e encantador com música ao vivo, e muitas fotos no rolo de trinta e seis poses, fomos embora. Porque se a barca nos esquecesse, por termos dela nos esquecido, teríamos de dormir ao relento, bem ali, a menos que um dos meigos e solícitos habitantes, tão bons de conversa nos desse pouso.
Ainda hoje tenho raiva de mim por ter esquecido no banco da barca a máquina de fotografias, que não era minha e ouvi muita bronca por isso. Mas, como não foi apenas eu quem se encantou com tudo vivido na Ilha de Paquetá, foi bom tê-la perdido (porque lembro que ela se chamava Le Click?) voltamos a Ilha num outro dia para repetir tudo e tirar novas fotos com uma máquina que comprei numa feira duvidosa embaixo de uma ponte a caminho da cais. Lembro que o moço, muito prestativo, colou a tampinha onde se põe as pilhas com fita isolante a garantiu que ela tiraria fotos ótimas. Fiquei ressabiada e minha mãe me tranquilizava. E foi verdade. E são elas que postarei aqui Fotos, para vocês verem e ficarem com muita vontade de ir lá também, porque, contando essa história, estou doida para voltar lá um dia. Quatro anos depois estaria eu, conversando num inglês muito engrolado, num avião da British Airways, com uma turista inglesa que, companheira de cadeira, me perguntou qual o lugar que não deveria de deixar de conhecer no Brasil. Respondi sem pensar “Paquetá Island, Rio de Janeiro”.
O segundo dia de passeio acabou de maneira surpreendente, inesquecível. O dia muito belo de sol, de súbito, e lá pela tarde, se fez temporal. Nos abrigamos no mesmo bar da outra vez, ouvindo o aguaceiro lavar o mundo, do outro lado da rua revolver o oceano e nas caixas de som, tenho vontade de chorar só de lembrar, tocava Ave Maria de Gonould, versão chorinho-cavaquinho de Jorge Aragão. Essa música, nessa versão, me faz lembrar os momentos felizes da minha infância que, apesar dos meus sonhos românticos, durou tantos anos, muito além do que dura para a maioria das adolescente. Talvez eu ainda tenha muito de infantil e sou feliz por isso. Essa música puxa um nó da minha garganta, me comovendo, porque me faz pensar nos momentos felizes, tão fabulosos que tive com a minha família. Tanto, apesar de tudo o mais, que me fez sonhar em ter a minha própria.
Todo o passeio, durante os dois dias, eu sentia o fogo da inspiração a me queimar. Tinha de escrever um romance. Uma história de amor bem enredado e de um amor bem grande, que fosse devotado como o do estudante de medicina Augusto por Carolina. Não pensei duas vezes em batizar o meu protagonista como o do Macedo, que não devia imaginar que bem mais de cem anos depois tanto encantaria uma jovem da mesma idade de sua Carolina. Tinha de ser um romance de adulto (ai de mim). Não a coisa tola e infantil (eu acreditei na época) com que eu enchia a grafite o referido no post anterior caderno de 200 folhas. Minha Angelina surgiu, com seu nome e índole angelicais, por causa da magia de A Moreninha e sua Ilha tão encantada como um conto de fadas, e tão real quanto meus dedos que digitam para vocês essas dulcíssimas lembranças pueris.
E, completando, ver nas duas vezes, na ida e na volta, o Castelo um tanto gótico, mas muito principesco da Ilha Fiscal se erguer tão soberbo e inspirador que me deu os primeiros ensejos e esboços mentais para meu romance O Último Baile do Império. Vendo-o, ansiando em explorá-lo, quase numa divagação aérea, um torpor inexplicável, eu perguntava de mim para eu mesma: Que terá acontecido ali? Um baile? Um romance? Que história contam aquelas paredes, que coisas testemunharam essas faustosas palmeiras tão imperiais como o idealizador de sua construção?
Quando finalmente escrevi o primeiro capítulo do livro, alguns anos depois, descobri tudo. A verdade crua e a ficção poética, dramática e suave que nasceu de uma lembrança imaginativa que tive dum longínquo ano de 1889...
Isso, e ainda mais, haverei de contar na próxima postagem. Aguardem!
Aline N. T. - 12h28min
Que relato lindo! Fiquei até arrepiada de tanta emoção que emana dessas palavras!!!
ResponderExcluirImagino alguém ficando feliz porque perdeu uma câmera... só para ter que voltar e refazer o passeio!
Lindo o texto!
Ah... e as fotos ficaram lindas *-*
ResponderExcluirObrigada por ler e pelas palavras, Nanie... Essa daí de ficar feliz é uma tentativa 'Polianistica' de tocar a vida. Vale sempre a pena! Vc me parece muito meiga...
ResponderExcluirAssim que a inspiração vier eu escrevo o resto.
;*
Pois, que a inspiração venha *-*
ResponderExcluirSó esses relatos lindos, que lí em um fôlego só, me deixaram com uma vontade imnesa demais! Parece até que estou lendo um livro...
:*
Ly,
ResponderExcluir"Lendo um livro" ^^
Vc sempre foi uma grande incentivadora...
Já escrevi! Vou dar uma revisadinha e logo postarei.
;*