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Lucíola
de José de Alencar

Um romance ardente... uma cortesã casta.


Tenho a mais maravilhosa das sortes. Moro a meio quarteirão da Biblioteca Pública da minha cidade. Se eu vivesse num palácio, tenho certeza que não estaria tão perto da biblioteca real, rsrs.. Sempre venho de lá com alguns tesouros. Dessa vez trouxe uma edição tripla, lá dos anos 70, de José de Alencar. Lucíola, Diva e Senhora — esse último eu já lera.



Quanto ao primeiro livro que devorei, ainda não entendi o porquê do título da história.

Claro, é por conta da protagonista, Lúcia. Mas porque “Lucíola”? Fiquei esperando que esse lhe fosse por apelido, mas não... Se não estou maluca ou distraída, “Lucíola” não apareceu nenhuma vez em todo o texto.

Mas não é a eterna dúvida a respeito do título que me faz esquecer a doçura encantadora dessa outra obra primorosa de José de Alencar. Ele só não é meu autor favorito, porque esse lugar sempre será do Erico.

Lúcia é linda, vaporosa, admirada, a mais bela e invejada da Corte (como ta maioria das mocinhas do autor). Mas é cortesã num país machista, religioso e preconceituoso — o Brasil do século XIX., onde os artistas exaltavam a pureza e candidez de suas musas.


Certas cenas até espantam. Existem certas coisas que não esperava ler em um livro desse autor, levando em conta seus outros livros como A Viuvinha, Sonhos d’Ouro e Cinco Minutos (lindos de viver). Não esperava mas gostei muito. Ele mais uma vez se superou. Achava que não poderia criar nada melhor e mais original que A Pata da Gazela.


Paulo é um recém formado em Direito na faculdade de Recife. Chega ao Rio de Janeiro para aí se assentar. Numa bela tarde na Glória, dia festivo!, conhece Lúcia e tudo aí já começa a se desencadear. As descrições são belíssimas, como de se esperar. Chega-se a sentir os aromas e sofrer os sentidos dos atores da trama.

Uma das cenas que não me sai da cabeça é a empáfia com que ela faz o retrato belo e desnudo que, vivido por ele de véspera, narra, com ares de mistério, aos convivas, num jantar em que se encontram.


Em mesmo tempo que Lúcia tem essa personalidade forte, arisca, orgulhosa, ela se torna, de um repente para o outro, meiga, submissa e doce. É famoso na Corte seu gênio inconstante e diz-se que ela não mantém nenhum amante por mais de quatro meses.


Mas Paulo é o homem que vai mudar sua vida. O caso de amor deles se inicia verdadeiramente nessa noite, do jantar, assim eu considero. Porque nessa noite, no breu dum lindo jardim, ela desnuda sua alma e, assim, sente-se mais exposta que despida.

As oscilações tempestivas do relacionamento deles que se afligem, em mesmo tempo, torna tudo emocionante. Quanto mais se no sem querer das situações se magoam, mais doentios um pelo outro se tornam.

E emocionantes são as metáforas que Alencar faz. Aliás, são elas o ponto mais marcante de sua obra. Mas nesse livro, em especial, creio que ele esmiúça isso a fundo, procurando por um modo de tornar o sentimento de Paulo e Lúcia ainda mais verdadeiro. Coisa que o leitor só entende no final. Considerando o tempo moralista que viveu, e a senda pela qual percorre o gênero de sua obra, ele consegue ao final do livro tornar inabalável a pureza de Lúcia, não escapando assim ao seu modus operandis como romancista romântico a cortesã se torna um anjo de candura e o leitor acredita que isso pode mesmo ter acontecido!



Aí está o poder de Alencar em sua narração em primeira pessoa. Convencer ao leitor.


Por conta de muitos motivos, dentre efusivas alegrias aparentes, desenrolar-se a história triste de Lúcia que a levou ser quem não gostaria, sua capacidade de, apesar de tudo, estar acima da mesquinhez do tempo, o seguinte trecho nunca esquecerei:


“(...) já a mais velha das moças se tinha aproximado, e arrancando a pulseira das mãos

de sua irmã, atirou-a por cima da grade:

— Não toques em coisa que pertença a esta mulher! É uma perdida!

Lúcia tinha erguido a cabeça no primeiro instante de surpresa; nada porém perturbava a serenidade e quietude de seu rosto iluminado por uma doce altivez; circulou com um olhar límpido os atores desta cena, como se lhes pedisse a explicação do desagradável incidente; e tomando Ana pela mão e passando o braço pelo meu, afastou-se com uma dignidade meiga e nobre.

Contudo pensei que esse sossego era aparente, e que sua alma devia ter sido traspassada por aquele ultraje. Ela respondeu à interrogação muda do meu olhar murmurando-me ao ouvido para que sua irmã não a ouvisse:

— Elas não sabem, como tu, que eu tenho outra virgindade, a virgindade do coração!

Perdoa-lhes, Paulo.

E o sorriso, que banhou estas palavras como de uma luz divina, parecia abrir o céu aos arroubos de sua alma."


Ainda por cima achei essa protagonista, em jeito de ser, muito parecida com alguém que muito amo. Quase morri do coração ao ver, em meio da história que ambas fazem aniversário no mesmo dia! 15 de Agosto!


Agora quem me espera é Mila. E o Dr. Amaral. O narrador, pelo que sei, é esse médico Amaral, que contará sua história com Emília ao Paulo, o moço a quem Lúcia amou no livro acabo de ler.


Aline N. - Corte midi

Comentários

  1. Lindo! Li seu post todo sem conseguir parar, e me deu uma grande vontade de ler esse livro, parece ser muito bonito! Amor de redenção! Porque afinal de contas todas as mulheres merecem ser amadas e merecem seus finais felizes com seus principes encatados, seja ela virgem ou não, seja ela rica ou pobre, branca ou preta. Também fiquei lisonjeada por você ter dito que a personalidade da protagonista a fez lembrar de mim, o que obviamente, aumentou minha curiosidade em relação ao livro, pois Lúcia parece ser uma leonina das minhas! Hahahaha... Te amo muito irmã, e como havia te prometido, aqui estou eu deixando meu comentário. Não desanime, o único lugar em que sucesso vem antes do trabalho é no dicionário! Não se esqueça disso. Um abração!

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