Pode haver experiência mais gratificante que duas autoras trocarem de universo durante o período que a leitura de uma obra compreende?
Durante a leitura desse livro foi como se eu saísse do corpo e voasse até o universo criado pela Bruna Longobucco, e isso se deve, claro, ao modo tão próximo da oralidade mineira que ela lança mão para nos levar diretamente ao cenário de interior que explora com tanta propriedade.
Por isso gosto de ler autores que falam do que conhecem, que falam de sua terra, da gente com a qual nasceram. Uma escritora da ‘Bel’rzonte’ de Hilda Furacão que encheu a mão das letras certas para narrar os conflitos de uma família que não terminou, apesar de tudo.
Quem ler, entenderá que laços de afeto são tão ou mais fortes que os de sangue.
No seu romance o enfoque da narração está principalmente nos sentimentos e ralações de afeto e desafeto, protagonizados pela jovem Leninha que, ao longo de todo o livro, como eu digo, se encontra como gente, cresce em mesmo tempo que reencontra a criança que foi e ainda tem o fortúnio de viver um amor de salvação.
Aos dezesseis anos, Helena sofreu muito com a morte prematura da mãe e, também, a de seu amado e sábio avô, vitimado por um câncer. Esse incidente somado a misteriosos fatos que a envolveram mais de uma vez numa trama sórdida, ao invés de fortalecê-la, tornaram-na uma moça revoltada, aparentemente fria e muito vazia.
Vivia sua juventude Sem Destino — o que a trama questiona.
Tiago, um rapaz simples do interior, apesar de querer acreditar que sim, nunca esqueceu o namoro de infância que teve com Helena. Ele administra Embalança com inteligência e tem uma personalidade forte, valores morais rígidos e não aceita, como a maioria das pessoas aceitam, ser manipulado pela neta rica e única herdeira do finado dono da grande fazenda. Quando ela volta para a fazenda Embalança por determinação do pai, cansado de suas loucuras, Tiago sente tudo, todo aquele sentimento que dedicara à criança e adolescente doce pela qual se apaixonou se revolver dentro dele. Apesar de toda a mágoa que ela lhe causou, e do desprezo. Mas por detrás do visual e atitudes de gata arisca ele, quase não a reconhecendo, encontra uma fresta da menina para a qual fez uma promessa que não consegue fugir de cumprir.
Durante um período de cerca de dois anos, entre idas e vindas, acertos e patadas, Helena com a paciência inesgotável de Tiago recupera afinal a doçura de que, na verdade, é feita, e desde o início mostra em seus gestos que seu coração nunca deixou de ser puro e bondoso, apesar de ter permitido que as mágoas que a envolveram e superficialidade de suas companhias duvidosas, suplantassem essa beleza interior.
O casal se ama, mas é orgulhoso. É uma delícia vê-los, por várias vezes, abrir mão de tal orgulho em prol da relação conturbada. Aliás, quanto a essa relação, dá muita aflição, porque nunca sabemos o que pode acontecer, o que Helena teria coragem de fazer. E é no desfecho, quando drásticas revelações vêm à tona, que entendemos os porquês deixados ao longo do enredo.
Não posso deixar de mencionar as histórias paralelas como o triângulo Lisa, Rodrigo — impagável — e Candinha e Ana e Otávio que dão a história um sabor de novela das seis. Adorei o final que a autora deu para a Lisa. Algo drástico não caberia tão bem como o cômico infortúnio que ela, tão afetada, passou a ter de se dedicar.
E, principalmente, amei o modo que Tiago, correto nos seus argumentos, encontrou para restabelecer sua autoridade, dividindo com ela e o filho que tiveram um verdadeiro lar e a dignidade tão almejada.
Afinal, Sem Destino, fica que quer. Não sou alguém que conta com a sorte. Creio na providência do grande Arquiteto que me desenhou e reconheço que existem tantos mistérios inexplicáveis nessa vida como, por exemplo, o de não conseguir escapar de um relacionamento que parece ter sido traçado antes de nascermos.
Aline N. - às 15h50min

Querida Aline!
ResponderExcluirAo ler sua resenha, fui eu conhecer um pouco mais de "Sem Destino", que o seu coração de escritora viu em riqueza de detalhes e sensibilidade inestimável! E foi como sentar-me à rede e embalar meus pensamentos para a fazenda inesquecível do meu coração... Super beijo!!!
Que bom que gostou! Fiquei ansiosa, mas, depois, escrevia o filme que por sua causa pude assistir!
ResponderExcluirFoi marailhoso estar em Embalança.
BJS
Que lindo, diga a Bruna que quero um, como faço pra comprar? =)
ResponderExcluirBjs!
Que resenha mais completa Aline *-* Não há quem não queira ler, Sem Destino depois de passar aqui no seu blog.
ResponderExcluirAmei :*