Pular para o conteúdo principal

Poesia - Canção da Saudade

Escrevi essa poesia agora há pouco, num ataque terrível de saudade. Por isso o nome batido, mas que não poderia ser outro, já que é ele mesmo o único que pode nomear os sentimentos que me assaltam hoje...


Canção da Saudade


Houve um dia

E era vinte e quatro
Começou essa grande história
De um amor imortal

Um amor que ninguém pode abalar

Uma afeição santa e pura
A mais linda e una,
e que nunca há de falhar

Já viveu ou conheceu algo assim?

Duas pessoas que se amaram tanto
Que, na tepelapatia dos sentidos,
o sentimento que dividiam
Não conheciam nem a fronteira
Que um oceano separa?

O amor atemporal
Em que chega o dia que já não existe certeza
Sobre quando mesmo começou?
É possível que tenha fim?

Se sim, você é dono da fortuna
Conheceu o amor mais verdadeiro
Aquele que abnega
Aquele que se mata numa saudade
Dessas que queimam numa ardentia
Que não consome, mas flagela

Uma lembrança que te arranca lágrimas
E em sua tristeza você até se sente feliz
Porque esse choro ora convulso, ora tranquilo
é o sinal que tudo que viveram é mais forte
Mais intenso que as vãs picuinhas
Daqueles que não podem entendê-lo.

Um amor sem regras
Que se sustenta no simples fato de existir
Que está ao teu lado nos momentos bons
E, principalmente, nos ruins
Sabe o valor do ‘não’
E tem o cheiro doce da ternura
O cheiro suavíssimo
Que somente ela tem quando se banha a noite
Deita-se, dorme
E acorda pela manhã naquele perfume inesquecível
Que não sai da memória
Ainda que se consumam os séculos nessa terrível ausência

Que dizer de cada coisinha
Cada guardado inocente e bucólico
Aprumado nas caixinhas,
Guardando significados inimagináveis
Mas que você conhece bem a razão?
Ou do amor que se guarda no vapor
Do alimento quente, saboroso
Que tanto já partilharam juntos?
O leite gordo, o açúcar e a farinha
Farinha de milho amarela e biju Brasil
Tudo na proporção certa, a dela, a única
Nada me faz tão bem,
nem me acaricia mais o estômago
que todas as coisas que ela prepara.
O café com leite, mistura do olho
Mistura perfeita.
A massa singular do trigo e ovos e fermento
A mágica do pão macio inigualável
Passa a manteiga amarela
Que derrete, a fumacinha sobe
O paladar, na língua ansiosa
Agradece as mãos bondosas
A sopa rala de pedaços nos dias frios
Nos quentes também... porque
Porque nostalgia e gula não tem hora
Nem dia para bater na porta.

Não era bendito o fruto do ventre
Mas bendita a árvore que gerou o fruto
Que hoje é tudo que sou,
Um fruto que é a continuação dos anseios
D’outra alma sensibilizada de sofreres
Em cada vil atropelo que intentou nos separar

A fé que me guarda
É a lembrança da canção
“Um ano não é um século, voltarás”
Daí, nesse dia, nada haverá mais ouro
Que a mão delicada a me embalar
Na monotonia gostosa
Das lágrimas de minha mãe
A me lavarem os cabelos
No batismo da nova vida
Que viverei no pós saudade
Que sucede ao reencontro.


Dedico esse post a primeira Piúla.


Aline N. - às 10h35min

Comentários

  1. As lágrimas minhas e da manu nem me deixa pensar em que dizer sobre isso!!!
    Que diremos nós sobre estas coisas!?
    Nem o céu, nem a terra, nem o mar, nem as montanhas nem mesmo a morte ou a vida irá dividir nossa família que é dada por Deus Pai e nosso Senhor...
    Nós te amamos e as lágrimas de agora será risos e festa amanhã tão cedo....

    ResponderExcluir
  2. Aline, minha amiga querida
    Linda essa poesia que você fez do mais sincero e puro coração.
    Dói a saudade da pessoa tão querida e amada, mas fica a certeza pela resposta da mesma, que um dia tudo voltará ao normal e que o amor que une vocês jamais se acabará.

    Deus te abençõe!

    ResponderExcluir
  3. Desculpe, Mãe, não queria fazer vcs chorarem. Só queria desabafar e espero ansiosa por esses risos e festa do porvir! Todas juntas outra vez...


    Danny, obrigada por seu apoio e carinho e benção que nunca me faltam.


    Obrigada por lerem...

    ResponderExcluir
  4. Olá Aline!
    Que nunca falte inspiração e sensibilidade, romantismo e poesia, saudade e reencontro... Abraços, Bruna!

    ResponderExcluir
  5. Obrigada, Bruna...
    teus votos são sensivelmente recíprocos.

    Que nunca falte tua presença por aqui..

    Abçs, Aline

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Oficina de Haicai - Escola Rural Caetano da Rocha

No dia 26 de Setembro mediei mais uma proveitosa Oficina de Haicai. Que satisfação! Participaram crianças entre 5 e 11 anos, conheceram o Haicai ou Haiku, o qual como eu esperava jamais haviam falar, e foi, como esperava, uma experiência maravilhosa. Quando eu cheguei em casa eu estava tão deslumbrada com o resultado, com o brilho que acendeu-se nos olhinhos das crianças, que escrevi o seguinte: "Só tem uma coisa que eu quero fazer na minha vida profissional e o farei com todo meu amor, sempre e sempre: incentivar crianças (grandes ou pequenas) a não só lerem e escreverem, estarem em contato com a arte literária, como se abstraírem  para a poesia... a poesia quem em tudo está! Foi maravilhosa a Oficina de Haicais que mediei hoje na Escola Rural Caetano da Rocha! O que era aquele brilho nos olhos das crianças quando me despedi delas?... ♥"  26 de Setembro  de 2012, 18h09min A bela lua encimava o dia, e nisso não há contradição, assim ela quis nesse di...

As Artes e o Processo Criativo

Frederick Leighton Inglaterra 1830 - 1896 O estilo desse pintor é o 'Acadêmico'. Embora meu estilo predileto seja o impressionismo de meus queridos Renoir, Mary Cassat e Berthe Morissot, eu não deixo de admirar o sentimento com que tantos gênios impregnaram a arte plástica nas mais variadas escolas artísticas. Todas elas grandemente, profundamente, suspirosamente me inspiram para escrever. Vamos olhar cuidadosamente para cada tela? O que sente, o que imagina, para onde seu pensamento 'viaja' com cada uma das telas? "Casado" A acima me faz pensar no rei Davi. "A lua-de-mel de um pintor." Essa pintura do artista e sua esposa me dá ensejo para mil fantasias que eu poderia tornar em enredos. Históricos, claro. ;) Como mil questões passeiam em minha mente quando me deparo com qualquer manifestação artística, as respostas acontecem artisticamente na literatura... a arte com a qual mais me identifico desde ...

Lançamento! Um Farol Para Meu Amado - Novela

Uma surpresa que venho preparando para vocês, leitores e leitoras! Escrevi essa novela em 2010 e estive ultimamente preparando-a para uma publicação exclusiva para mídias digitais, inclusive PC. Espero que gostem... A história de Luís e Ana me faz literalmente andar por onde eu ando, porém num outro tempo! Um tempo em que amar demais não era exagero, era esmero! Um abço a todos, Aline! ;* “O que ilumina a jornada daqueles que se aventuram a amar? Há aqueles que diriam: a fé.”  Aninha nunca se esqueceu de Luís, seu amor de adolescente, que deixou a fazenda Simão para nunca mais voltar e lhe dar um de seus inigualáveis sorrisos. Sedenta em conhecer outro modo de viver, ela deixa aos 16 anos a Colônia em que nasceu, no interior do Paraná para, um enigma que não revela a ninguém, buscar uma faísca de destino no tempo. Em pleno período da Segunda Grande Guerra, ela vai para a Capital estudar enfermagem, na esperança de reencontrar seu grande amor que, an...