Sempre comento que se eu vivesse duzentos anos, não seria ainda suficiente para fazer tudo que deseja minha sede de vida e experimentações. Porque é tão vasta cada uma das formas de se expressar, existem tantas artes e tanto na natureza por descobrir. Para não mencionar o universo que está dentro de nós — terra desconhecida, em contrário do que se pensa.
Uma alma do ‘complexo’, do transdisciplinar sofre.
Existem, pelo menos, meia dúzia de cursos superiores que eu gostaria de fazer. Gosto tanto de História, de Idiomas, da estupidificante máquina que é o corpo humano e o funcionamento dos mecanismos físico-biológicos; expressar-se com palavras, música (sou uma gralha, nem penso em tentar), tintas (aí eu arrisco), dança... que, como eu disse, nem se o dia tivesse 60 horas ou fossemos afortunados como Matusaléns, seria suficiente para matar minha sede de abraçar o mundo e o conhecimento natural e humano com meus reles braços de mortal.
Entro na Biblioteca Pública do Paraná (a maioria pode até me achar boba por ser assim), mas, confesso que cada particular vez que entro lá, depois da onda de euforia que me toma, fico tonta, tonta como se tivesse me embriagado na esperança dum sonho impossível: ler tudo aquilo, saber de tudo... chega a doer, num lugar que não sei dizer onde, entre o espírito e a matéria, saber da limitação da carne!
Tento me contentar, corro às minhas preferências e sempre volto para casa com mais livros que, sei, dou conta de ler em quinze dias. Que alegria é, apesar de eu gostar tanto de romances históricos — distintos universos do meu convívio —, viver nos dias atuais em que o empréstimo é automatizado, por isso posso renovar via Internet, enfiada em pijamas quentinhos, cobertor no colo.
Se eu nascesse bicho, creio seria um carunchinho, tão caseira sou eu. Ficava lá, feliz, encravada num bom tronco de pau-brasil, araucária, manacá da serra (árvore mais linda...). Ouviria o murmurar das brisas ou o rugir das tempestades, o trinar feliz das andorinhas ou o grito agourento das corujas... e não seria assim, tão incomodada com tantas coisas.
Existe um lugar neutro, como trechos do alto mar que a nenhum país pertence, em que se encontram portais para muitos mundos, culturas, jornadas, sabedorias, verdades, encantamentos. Lá estive hoje. A Biblioteca. Estive por algumas horas e, livros (portais) escolhidos não via hora de me encasular de novo para, afinal, praticar o maior objetivo de uma ida a um lugar desse: ler! Recolher-se outra vez para, na verdade, não permanecer num só lugar... Mas viajar.
Só de tocar na matéria de um livro, dedicado a alguém no ano de 1928, a mágica parece acontecer. Quem dedicou imaginava que, mais de oitenta anos no futuro, uma ‘lunática’ tomaria empréstimo do livro e viria aqui devanear tanto em suas nostalgias excêntricas?

Mas, também há os dias que sinto saudade da vida. Ver a ‘cara’ da rua, de ver gente... É adorável observar de longe ou de perto como a vida é. É inevitável vê-la sem riscá-la no Word do meu pensamento. Nesses dias, seja dia de sol coruscante envolvido de mítico frio, ou garoa gélida, chuva torrencial, gosto mesmo é de ir à pé até a biblioteca daqui de perto.
Vão achar exagero. Mas voam borboletas dentro de meu ventre quando vejo a máquina de escrever que ainda usam. Espero que ela fique sempre, sempre por lá. Eu tive uma que herdei de alguém a quem muito amei. Uma Olivetti amarela do fim dos anos oitenta. E também penso nos autores que tanto admiro que tinham nela sua principal ferramenta de trabalho. Não dispunham dos recursos nossos, nova geração de autores dependentes do computador e seus recursos.
As bibliotecárias da Biblioteca Municipal Schaffenberg de Quadros são tão solícitas que me sinto dentro de uma casa amiga, onde me esperaram para visita. O encanto maior eu sempre encontro no mezanino — os romances.
O piso é rútilo de cera, a arquitetura da edificação — fora grande residência — me transporta a um outro tempo, ido, idealizado. A ala infantil é uma infinidade de encantamentos! Que alegria se derrama do rosto de minha filhinha quando anuncio que vamos até lá. E as poesias, mensagens, enfeites que apanho na saída?
Temo pelo futuro das bibliotecas. Independente de preservar o meio ambiente, de baratear o custo das publicações, de globalizar o conhecimento, quero mesmo é que elas e os profissionais do ramo jamais desapareçam.
Todas as vezes, cada uma delas, em que entro numa biblioteca, não evito o pensamento, ou sentimento: “Se um livro me parece encerrar os sentimentos do autor, que deitou ali naquelas páginas, com palavras, o suor de seus pensamentos, sentimentos, enfim, essência! quem dirá centenas, centenas de livros juntos?!”
Aline N. T. — às 22h42min
Ai Meu Deus! Será que é um post mais lindo que o outro? Me ví nessas suas descrições próprias. Rata de biblioteca por gosto e profissão, sempre quero carregar tudo pra ler, ao ver tanta coisa boa junta é uma vontade enorme que aparece de ler e ficar sabendo de tudo...
ResponderExcluirEssas Bibliotecárias de sua cidade honram o nome e o título que receberam, #Orgulho *-*
Beijos Aline, fiquei emocionada!
OLá Aline
ResponderExcluirSou bibliotecária por formação acadêmica, e já disse em um dos mais artigos que não poderia ter encontrado profissão melhor, tanto que o estar entre livro, já me confunde com eles, e eu mesma me considero o próprio livro, tanto os amo. A Biblioteconomia é envolvente a quem se envolve com o universo livro. Lindo seu artigo. Lindo seu carinho pelas bibliotecárias. Você se apresenta como uma pessoa linda no seu interior. Cultive esse lado sempre. / Um beijo / Inajá
=')
ResponderExcluirEsplêndido!