Boa noite, queridos (as) leitores (as)...
Na reformulação do Site perdi todos os posts e comentários!
De qualquer maneira, espero recolocá-los aqui aos poucos.
Já tiveram a sensação de terem nascido em uma época errada? (Pergunta batida, mas que marca fundo).
Eu tenho seeempreeee!
Não digo que gostaria de ter vivido nos 70, como essa banda aí junto do texto (adoro), mas já é rotina essa sensação de nostalgia que me rodeia...
E "Chiquitita... tell me what's wrong..." não deixa de ser pinceladas da minha infância...
Por hoje tenho esses parágrafos que soltei-os no editor de texto com notável emoção.
Gosto de pensá-lo como um esboço a carvão da 'sensibilidade'. Outra hora, com mais razão procurarei elaborar algo mais 'arte final'.
Crônica — Jovens Idosos
Há pedaços de vida que é impossível fotografar. Como segurar o vento entre os dedos? Seu mistério e beleza foram feitos para sentirmos... Como descrever o fascínio que a luz invoca? E explicar a agonia que a percepção de trevas causa com toda aquela atemorização? Existem certas lembranças, certos sentimentos — doces ou amargos — interpretáveis.
Dentro, lá no mais profundo dos seres, há o recanto inatingível. Ninguém lá pode pisar. Nem eles mesmos. E, apesar de estar tão inalcançável, todas as dores são sentidas, todos os amores que lá vivem. Tudo responde na superfície e na carne.
Afinal, do que estou falando?
Sobre ela... tão estranha, incompreendida, controversa.
Ela, que é tão sensível, nunca soube por que não podia ser “normal”. Chegou, mesmo, a lastimar tal fato. Não podia compreender a rudeza do mundo e o fato dele ser assim tantas vezes a magoou. Aproximava-se de outros seres, abertamente, com seus pensamentos, dúvidas, anseios; eles não a entendiam, ou zombavam, ou não se interessavam.
Tentou ser como eles... E não conseguiu. Bancou a boba.
Chegou a achar que a vida não valia pena por conta do mistério, por conta da incompreensão e da dor diária que tanta coisa assim lhe causava. Desejou que o dia do fim chegasse.
No implacável, mas lento, passar do tempo sofreu cada arrastado minuto em que perdeu a esperança. Seus interesses não eram compartilhados por seus “semelhantes”. Um dia, acreditou que não poderia haver comunhão entre as almas. Entre os seres. E isso lhe era dolorido. Dava uma descomunal sensação de solidão. Mesmo entre muitos.
Essa dúvida ainda a assola, às vezes.
A aflição sempre descia sobre seu espírito quando, apesar de falar de várias maneiras, se expressar de todos os meios, arder em desejos que a compreendessem, que entendessem o quanto amava, ou o quanto ansiava saber mais das coisas que interessavam a poucos, percebia que nem mesmo escutavam suas palavras, não liam suas expressões, ou gestos, ou lágrimas.
Buscou na solidão seu equilíbrio; mas ali ele não estava.
Procurou num propósito a moderação para seus dias; a obstinação não a refrigerou.
Continuou a vã jornada na busca de confraternização.
Até que descobriu que pertencia a uma espécie em extinção. Ou ainda, uma espécie incomum, mas muitíssimo preciosa. Apesar de seu corpo muito jovem, era toda feita, alma e coração, de nostalgia. Tudo que a completava só interessava aos que viveram ou já viviam há muito antes que ela.
Ela descobriu que era uma jovem idosa. O que a vida impõe muitos anos para que se alcance, ela já nasceu com o dom. O dom de a tudo render valor.
E quando ela o encontrara, notara inconscientemente que ele também sofria do mesmo mal (ou bem?).
Ambos, no verdor daquelas carnes, uniram-se. Na inocência daquelas almas, uniram-se. E, apesar de tudo, ficaram juntos. E por muito tempo erraram. Mas, perseveraram. E, apesar de ser duro, difícil, tiveram humildade de, muitas vezes, rever seus conceitos. Abandonar certos costumes. Adquirir outros. E os sonhos cresceram. Alguns se perderam; já não eram tão necessários como antes parecera incrivelmente imprescindíveis. Outros, para o espanto de quem já nem mais os esperava, se realizaram.
E mesmo sendo sofríveis com seu modo de ser, aceitaram de boa vontade a sina de serem assim. Descobriram que, mesmo causando dor, ser um jovem idoso é uma fábula real muito venturosa. E passaram a carregar tal estigma como um Bem de imensurável valor.
Assim, todas as coisas que lhes foram por se depositar valor já nem eram mais as pueris que acreditavam antes. Criam que na solidão e retiramento aí o encontrariam. Mas felizes, se descobriram enganados por si mesmo, na ingenuidade inevitável.
Sim, no mundo existem outros como eles. Encontrá-los foi estranha surpresa. Deliciosa surpresa. A ansiedade, pouco a pouco, foi sendo vencida. A rotina estabiliza e proporciona a tênue felicidade. Que é a única duradoura e concreta.
As felicidades esfuziantes e passageiras são para as horas mortas da noite. Silenciosas do dia...
Mas estavam certos quando ansiaram os tesouros da simplicidade. Dum olhar doce de esperança. De uma palavra suave de amizade. De um sorriso, sim, esporádico, mas, quem sabe, verdadeiro?
Foi como se os violinos tão esperados rasgassem o espaço jorrando sua melodia de forma nenhuma descritível aos ventos. Ventos que se vem e vão, e giram e trazem-lhes tudo o que foi, agradecem porque é para completá-los.
Os receios que tomaram seus antigos, ou não; e também os tomaram um dia já não os toma mais. Porque acreditam no amor. Ao menos nesse que dividem.
Acreditam num ser de amor que os cuida e guia. Eles sabem, por conta das “ironias”, inexplicáveis rodas da vida, que leva por caminhos diferentes sempre para o mesmo lugar, que tudo, tudo ocorre para o bem daqueles que temem, daqueles amam seu Superior. O único... o Deus que é feito só de misericórdia. Aquele que, sob os seus olhos tudo quanto é sincero e inocente, nada se faz iniquidade. O Ser que não é Banco nem Gabinete. O que é feito de puro amor e compreensão.
Ainda é insondável mistério o porquê de terem sido tocados por este dom. Porque não a todos? O mundo seria bom, tanto melhor de se viver. Mas que parca mente atrasada são para compreender tão colossal universo de acasos e destinos. E caos.
Claro. Existem ainda aquelas madrugadas de dúvidas e inquietudes. Mas existe a cada manhã, a certeza de um novo amanhã e de um fim para todas as coisas.
Embasbacaram-se com o caráter dos episódios que os levaram onde estão.
E a certeza daquele sentimento de que não encontraram por acaso. Sim, algo conspirou para que ficassem juntos. Mesmo com todas as forças contrárias que lutaram para que não se encontrassem. A suspeita de que também não são o fim da saga. A alegria de que a jornada é a melhor parte, sempre os faz parar e, no feitiço que só a arte explica, gostam de saber como é estar no limiar da chegada. E partilhar da visão dos que aí estão têm de sua marcha.
Quando, como esperavam, tudo passou, o tempo em todo passou, quando a carne também passou, a mudança em seus espíritos foi muito tênue. Houve. Mas foi pouca. Ainda se olhavam com o mesmo amor. Aventurados! Lhes foi mostrado muito antes os sustos da realidade. Os contornaram e...
E viveram!
No legendário fado inescapável que é escrever a epopéia da própria vida.
Aline N. - às 19:48
Aline
ResponderExcluirComo você mesma diz, com muita propriedade, "as laudas não são o limite", as palavras tem esse envolvimento rico de aproximar seus amantes. Encontrei-me com você quando passeava pelo blog da escrita Rita Elisa Seda. Seu comentário chamou-me especial atenção e cá estou. Curiosa por sorver toda a matéria que você tem postado. Nascer fora do tempo, creio que muitos pensamos assim, mas também penso que não cai uma folha sem que Deus o consinta, assim, você, eu, e tantos quantos assim se sentem, nasceram na hora, no local, no momento certo, nem antes nem depois. Agora é a hora. Você é uma jovem brilhante, como tantos jovens que tem se mostrado brilhantes, numa época em que muitos desacreditam de si mesmos. Já vivi bem mais que você, talvez em idade, mas o brilhantismo com que você maneja as palavras, empolga-me muito, ao ponto de até pensar que gostaria muitas vezes eu mesma poder escrever, aquilo que oportunidade de ler aqui. Querida Aline, que Deus proteja esta tua arte maravilhosa - a arte da palavra - e a faça florescer e brilhar cada vez mais, neste cenário tão fascinante que é o das letras e das palavras. Já me coloquei como sua seguidora, e estarei sempre por aqui. Também tenho vários blogs, onde procuro colocar um pouco de mim também. Penso em trazer a lume um dos livros que estou preparando. Espero que para o próximo ano seja o meu primeiro à público. Se quiser me visitar, apresento http://blog-inaja.blogspot.com/, http://retalhosdeleituras.blogspot.com/ entre outros. Para cada blog que crio, tenho uma mensagem especial a dizer. As palavras falam e tem vida eterna. / Você é uma jovem muito especial. / Inajá
Lembro-me, Inajá, de quando aqui chegou e a emoção que senti. Falou da riqueza de minhas palavras, e de tão grata as perdi e não pude dizer nada.
ResponderExcluirHoje eu reli essa minha crônica e com a mesma emoção, mas com serenidade, seu rico comentário, tão amoroso.
E tive vontade de dizer que vc é muito especial para mim, Inajá!
Sim, vc viveu bem mais que eu, e graças a Deus, Ele quis mesmo que tivéssemos vivido nesse ponto do cronos... Porque assim nos encontramos, eternizando este encontro com palavras...
Um beijo em seu coração,
Aline